Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Coisas que me interessam

João Gonçalves 11 Nov 12

 

O programa pode ser lido aqui. Quanto ao resto da "actualidade", bardamerda.

EPC, cinco anos depois

João Gonçalves 25 Ago 12



«[Eduardo] Prado Coelho foi submerso pela enxurrada de burgessos "informados" que pululam nas sílabas mal amanhadas dos jornais, das televisões e dos blogues. Gente impensável de cujos lábios só brota babugem merdosa, muitos incapazes de construir frases com sujeito, verbo e complementos. Em suma, essa enxurrada varreu tudo e de tudo tomou conta instalando-se como o mandarinato oficial e único. Invariavelmente paupérrimo, alimenta-se de coirões improváveis numa autofagia confrangedoramente risível. O Eduardo, pois. «Sou cada vez mais sensível, mais frágil e desarmado até, em relação aos momentos de humanidade, mas sinto uma crescente repulsa por aquilo que todos somos na vulgaridade do quotidiano: seres mesquinhos, rafeiros, sórdidos, poluentes, corrosivos, invejosos, torpes. É por isso que as relações de força se me impõem para lá da rejeição veemente da própria ideia de força (que eu gostaria de substituir pela de generosidade). O que se vai articulando, como triste filosofia de vida, em torno de três axiomas: quanto mais mal dizem, mais medo têm; quanto mais dizem mal pelas costas, mais elogiam pela frente; quanto mais elogiam, mais medo têm.»


Contra a Literatice e Afins, Guerra & Paz, 2011

MEMO

João Gonçalves 11 Ago 11


«Não tem substitutos, nem de perto nem de longe, nem tão pouco mais ou menos por uma razão simples que é a da Vida. E se todos temos vida, nem todos a vivem vivida, intensa, errada ou certa mas nunca neutra ou cobarde, pior ainda, cobardolas, opiniosos sem nada fazer, só opiniosos e do lado de fora disto tudo, que é a evidência de viver a euforia, de ne pas badiner avec l'amour ou como ele escreve: De que falamos quando falamos de cultura? Disto, apenas disto

Fátima Rolo Duarte, fworld (a boa Fátima porque há outra noutro lado, ilegível)

«GOSTARIA DE SUBSTITUIR»

João Gonçalves 23 Fev 10


Neste nº 26 da Rue des Francs-Bourgeois morou o Eduardo Prado Coelho enquanto trabalhou em Paris como conselheiro cultural da embaixada portuguesa. Foi um amigo que mo indicou. Parecia, a dada altura, que o EPC era excessivo e que ocupava toda a cena. Mandarim, dizia-se. Talvez tivesse sido. Porém, aquele Marais frio da semana passada comoveu-me por ter tido a noção, ali, frente àquele 26 de porta fechada, que a partir de certa altura tudo é irremediável e superficial como morrer. EPC foi submerso pela enxurrada de burgessos "informados" que pululam nas sílabas mal amanhadas dos jornais, das televisões e dos blogues. Gente impensável de cujos lábios só brota babugem merdosa, muitos incapazes de construir frases com sujeito, verbo e complementos. Em suma, essa enxurrada varreu tudo e de tudo tomou conta instalando-se como o mandarinato oficial e único. Invariavelmente paupérrimo, alimenta-se de coirões improváveis numa autofagia confrangedoramente risível. O Eduardo, pois. «Sou cada vez mais sensível, mais frágil e desarmado até, em relação aos momentos de humanidade, mas sinto uma crescente repulsa por aquilo que todos somos na vulgaridade do quotidiano: seres mesquinhos, rafeiros, sórdidos, poluentes, corrosivos, invejosos, torpes. É por isso que as relações de força se me impõem para lá da rejeição veemente da própria ideia de força (que eu gostaria de substituir pela de generosidade). O que se vai articulando, como triste filosofia de vida, em torno de três axiomas: quanto mais mal dizem, mais medo têm; quanto mais dizem mal pelas costas, mais elogiam pela frente; quanto mais elogiam, mais medo têm.» Como dizia o mesmo amigo, noutro contexto, que saudade.

NÃO TANTO

João Gonçalves 25 Ago 09


Talvez - porque o tempo do nosso tempo é assassino e curto - pouca gente se recorde (ainda) do Eduardo Prado Coelho. Escrevia todos os dias no Público e, sinceramente, nem sei quem é que está no lugar dele. Também não interessa nada. Faz hoje dois anos que EPC morreu. Mesmo nos seus momentos mais insuportáveis - e, agora, ao folhear os dois volumes do diário redescobri tantos - EPC fazia parte de uma "paisagem" que desapareceu para sempre. A propósito do ódio e da utilidade dos inimigos, EPC escreve, citando Plutarco, que «convém afirmar que "a generosidade em relação a um inimigo é uma propedêutica à grandeza moral". Assim, "se nos habituarmos a permanecer justos em relação aos nossos inimigos, teremos a certeza de que nunca seremos culpados de injustiça e má fé em relação aos nossos íntimos e amigos." Além disso, se nada disto resultar em relação ao nosso inimigo, nada impede que lhe demos dois pares de estalos na primeira esquina em que o encontrarmos. Estóicos, sim, mas não tanto.»


Adenda: Um amável leitor, devidamente identificado, esclareceu-me. «Em vez de EPC, a única pessoa que escreve hoje diariamente no Público é Jorge Mourinha, no P2. Quem conseguir lê-lo mais de uma semana seguida, deixa de comprar o jornal para sempre.»

DO FAZER FALTA

João Gonçalves 13 Mai 09


«Eduardo Prado Coelho. Faz muita falta. Embirrava tanto, quanto dele gostava e se gostava. Riso tonto, pergunta o jornalista Caetano da Antena2. A resposta tranquila não se faz esperar: não, um riso até inteligente mas que é desmotivador, de certo modo (...) um riso de só-nos-resta-rir. Custa-me ouvir porque associo à ausência mas depois passa-me e fixo-me na importância de Eduardo Prado Coelho

Fátima Rolo Duarte, Fworld

LOVE STREAMS

João Gonçalves 15 Set 08


Afinal era num tribunal. Ao saber que a filha fica "confiada" ao pai, Gena Rowlands colapsa sem qualquer colapso. Deita-se apenas no chão. Pura impotência. Mais adiante - revi o filme graças à amizade e à habilidade "tecnológica" do Zé Maria e do Nuno Fonseca - Rowlands está no psiquiatra (em 1984 dificilmente estaria com um psicólogo) e ambos fumam (vejam lá). Rowlands explica que o amor é uma corrente ("love streams") e, como tal, é contínuo. Não pára. Tudo o que lhe acontece - a família esfarelada, a vida absurda - resulta de essa corrente poder ser interrompida, o que ela recusa. Aí entra o psiquiatra. Diz-lhe que, contrariamente ao que ela pensa, o amor pára ("it stops"). E pára mesmo. Se calhar, o papel do psiquiatra é precisamente o de nos dizer que o amor pára. Ele é necessário porque não existe qualquer corrente de amor em regime de continuidade. É ele que devolve "realismo" ao absurdo gerado pela não compreensão do fim da corrente. Talvez o essencial se resuma, afinal, ao meu querer que haja uma corrente infinita e ela não estar lá. Nunca. Daí o álcool, os comprimidos, os amantes furtivos. Deus? A Duras tinha uma "fórmula" cruel para dizer isto. O álcool tomou o papel de Deus. Substituiu-O. Será verdade? Os personagens de Cassavetes começam a beber logo de manhã. E porquê este arrazoado? No 2º volume de Tudo o que não escrevi, Eduardo Prado Coelho está a dada altura numa retrospectiva de filmes de John Cassavetes em Paris. E acerta. «Cassavetes filma o dentro dela, com as suas convulsões e precipitações, as suas cores afectivas, filma o medo da respiração, filma o prazer, o espasmo, a angústia, o último reduto do corpo (...). Tem a capacidade de mostrar a degradação, sem se atribuir, ou nos atribuir, um lugar de arrogância, filma tudo, filma-se em tudo (...). Cassavetes embate contra os muros, investe, insiste, relança-se, fere-se na ressaca das imagens, esfrangalha-se contra a sua própria impotência, e vence, em última instância, por um lance improvável.» O cinema de Cassavetes - a corrente, "love streams" - «é sempre o grito interminável da solidão». Ámen.

RUPTURA

João Gonçalves 6 Set 08


Ainda o Eduardo Prado Coelho, numa página aberta no acaso do seu "diário" (o livro da foto corresponde à dissertação de doutoramento sobre as "modalidades da descontinuidade no processo do saber" e trata-se um livro perfeitamente "actual" naquilo que o termo "actual" não contém de patético, de imbecil e de irrelevante): «Tudo ganha coerência aos meus olhos. A fascinação que regularmente sinto de começar tudo de novo, como se o passado não existisse, a imensa sedução pela ideia da ruptura, mudança de lugar, mudança de trabalho, mudança de amor, mudança de horas, mudança de jornais, livros, paisagens e sons, não é apenas o desejo de viver tudo de todas as maneiras, mas algo que tem a ver com o apreço inconsciente por todos os conceitos de corte: mudança de paradigma, corte epistemológico.»

UM HOMEM AMÁVEL

João Gonçalves 25 Ago 08


Faz hoje um ano que desapareceu o Eduardo Prado Coelho (EPC). O jornal onde ele escrevia limita-se a dedicar-lhe uma singular "carta de uma leitora". O ano que passou comprova o que escrevi na altura. "EPC foi o último analista absoluto de uma coisa a que, com felicidade, chamou um dia de "reino flutuante" ou "a mecânica dos fluídos", mesmo quando os termos nos irritavam. E é patente que os escritos mais recentes sobre novos "poetas" e "escritores" portugueses relevam quase só do plano da mera empatia pessoal ou de qualquer outra coisa que nada tinha a ver com crítica e literatura. Não deixa, mesmo assim, órfãos ou viúvos." A indigência que caracteriza a generalidade das "croniquetas" e das "críticas" que enchem os jornais, a cobardia anti-polémica com que, par délicatesse, as adornam, o cuidado com a "correcção", a irrelevância, etc., etc., trazem à superfície a saudade que o EPC deixou. Também ele não resistiu - tantas vezes - à "pressão" da mesmice complacente que é a vida dita cultural portuguesa, sempre embrulhada no oportunismo político dos dias e horas do regime. Só que, ao contrário dos pequenos mandarins de agora, sempre tão cheios de coisa nenhuma, EPC prodigalizava um "saber" individual adquirido em anos e anos de observação e de leitura de lápis na mão que é impossível ser reproduzido pelas "modernas" máquinas tagarelas (de televisão ou de jornal) que nos incomodam permanentemente com a sua inútil presença. Aprendi e descobri muita coisa com o EPC, alguém que, sempre que se encontrava connosco, era simplesmente um homem amável.

Nota: A ASA/LeYa reedita por estes dias o seu "diário", Tudo o que não escrevi, dois volumes sobre os "anos felizes" de Paris.

DEBAIXO DA CALÇADA, NADA

João Gonçalves 4 Mai 08


Passaram quarenta anos sobre o parisiense Maio de 68. Segundo alguns, os das diversas esquerdas, aquilo foi um acto generoso, fundador e revolucionário que representou, nas palavras de António José Saraiva, "a crise da civilização burguesa". Durante uns dias, De Gaulle, o chefe de Estado francês, andou vagamente desaparecido enquanto nas ruas de Paris se viravam carros e, na Sorbonne, chamavam "crápula estalinista" a Sartre. Um Sartre que imediatamente se pôs ao lado da racaille, então filha precisamente desse "estado do mundo burguês" que diziam combater, e não aquela - pobre, desempregada e imigrada - que queima agora carros nos arredores da capital. O folclore acabou na manifestação de 30 de Maio, de apoio a De Gaulle, que mais tarde, em eleições, voltou a ganhar. Só se foi embora, pelo seu próprio pé, quando perdeu o referendo sobre a regionalização. Mitterrand, desprezado pelos "heróis" esquerdistas de 68 (na ausência de De Gaulle, em plena crise, anunciou uma pífia candidatura ao Eliseu), só lá chegou treze anos depois. E, para quem apelidava o regime da constituição de 1958 de "golpe de estado permanente", Mitterrand passou catorze anos presidenciais bem sentado nele, comportando-se muito mais como um monarca pré-1789 do que como um republicano pós-68. Foi o primeiro a "enterrar" os despojos políticos e culturais do militante Maio ao dar o "abraço do urso" ao PC (que não lhe fazia falta alguma) e a ter aos seus pés os "novos filósofos", um híbrido anti-soviético e social-democrata resultante das perturbações intelectuais de 68. Sarkozy, num comício eleitoral em Bercy (ver o livro da foto), também apoiado por estes já velhos filósofos , reclamou a necessidade de acabar com a "herança soixante-huitard" embora, ironicamente, talvez fosse improvável sem ela. Não obstante todo o folclore "ideológico" doméstico, traduzido em prateleiras e prateleiras de livros, a "herança" desse Maio longínquo passou pela humilhação de um Le Pen na segunda volta de 2002 e por ter de se curvar perante Chirac, esse político com ar de entertainer televisivo, para evitar o pior. Por cá, o Maio de 68 só chegou uns anos depois, com o PREC (Sartre veio dar lições "revolucionárias" a um quartel...), prolongando-se nas "refiliações" esquerdistas nos partidos do poder - PS e PSD - que deram no que sabemos. Eduardo Prado Coelho terá sido o mais genuíno mandarim "intelectual" do que restou de 68 aqui. O resto são imitações baratas e "pequeno-burguesas", para recorrer à langue de bois desse Maio longínquo para sempre perdido. Até por isso, ele faz falta. Nunca houve nenhuma praia debaixo da calçada.

Pesquisar

Pesquisar no Blog

Últimos comentários

  • Gabriel Pedro

    Meu Caro,Bons olhos o leiam.O ensaio de Henrique R...

  • Maria Petronilho

    Encontrei um oásis neste dia, que ficará marcado p...

  • André

    Gosto muito da sua posição. Também gosto de ami...

  • Maria

    Não. O Prof. Marcelo tem percorrido este tempo co...

  • Fernando Ferreira

    Caríssimo João, no meio da abundante desregulação ...

Os livros

Sobre o autor

foto do autor