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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

ENQUANTO O SISTEMA PETRIFICA

João Gonçalves 22 Jan 11

«O Correio da Manhã lançou uma petição online intitulada “Enriquecimento ilícito é crime”, que assinei na primeira oportunidade. Em poucos dias, a petição reuniu mais de 16 mil subscritores. Alguns políticos e comentadores (por vezes confundem-se), ouvindo falar na petição, disseram de imediato tratar-se de uma iniciativa “populista” e “demagógica”. Não é nada. O texto é cristalino, escorreito, claro, factual: propõe a punição com pena de prisão até cinco anos de qualquer político que, no exercício das suas funções ou nos três anos seguintes, adquira, “por si ou por interposta pessoa, quaisquer bens cujo valor esteja em manifesta desproporção com o seu rendimento declarado” e que não faça prova da sua proveniência lícita. É interessante que a iniciativa parta de um diário. Há um século, os jornais dedicavam-se a causas; entretanto, esse empenho passou para partidos e associações políticas; a imprensa tornou-se um pouco blasée nessa matéria. Proporcionou-se ao CM lançar esta causa porque, até agora, o sistema político resistiu a legislar eficientemente contra a corrupção, a deixar-se escrutinar e a criar mecanismos razoáveis para impedir a corrupção no seu seio. O jornal substituiu-se aos partidos políticos incapazes ou adversários da sua própria auto-regulação e tomou lugar na sociedade civil a que pertence. É um sinal dos tempos. Cresce a participação da sociedade civil na área política. Se os partidos não politicam como a sociedade quer, jornais e sites (como a Wikileaks) entram em acção, organizando esporadicamente os cidadãos. A sociedade em rede metamorfoseia-se a todo o instante, enquanto o sistema petrifica.»

Eduardo Cintra Torres, Público

AS COISAS VALEM O QUE VALEM

João Gonçalves 13 Jan 11

Certas vestais que "combatem" a corrupção no parlamento e em comissões parlamentares - ou em lugares onde funcionam como mandarins - com o sucesso que se conhece, acham demagógica e populista esta iniciativa. As coisas valem o que valem. Certo, certo é que as primeiras já provaram que não valem rigorosamente nada.

A SEGUIR

João Gonçalves 2 Jan 11


Parece que o Correio da Manhã é o jornal "preferido dos portugueses", uma expressão horrenda que a novilíngua dos media "julia pinheirizados" introduziu nos hábitos vocabulares idiotas dos indígenas. Tem, de facto, o CM a vantagem, sobre os outros, de resumir o país. O político, o das facadas, o da bola, o dos acidentes, o do chamado "beautiful people", o dos desdentados, etc., etc. Dos humilhados e ofendidos até aos princípes e fadas de Portugal, todos têm o seu momento resplandecente no jornal. Talvez não valha grande coisa, mas esta iniciativa, precisamente por causa do "espírito interclassista" do jornal, deve ser acompanhada porque a casa tem seguramente meios para vigiar um "fenómeno" que os institucionais (porque não querem, não podem ou as duas coisas juntas) deixam escapar. A seguir.

"A CUPIDEZ"

João Gonçalves 1 Abr 10



«Os estereótipos são aquelas coisas que, com as intenções mais diversas, toda a gente diz sem saber bem o que está a dizer. São eles que frequentemente reduzem personagens extraordinárias a uma simples fórmula, que se cola a um aspecto, a uma faceta da sua vida. Com Keynes, a fórmula que ficou foi a da associação do seu nome ao intervencionismo do Estado. Não me surpreendeu por isso o espanto de tantos, quando há semanas aqui falei da fortíssima ligação de Keynes com a cultura, tanto no plano da criação como da sua difusão, e que o levou a fundar e dirigir o Arts Council - em acumulação, note-se, com a direcção do Bank of England! Hoje vou talvez espantar um pouco mais esses leitores, com um outro aspecto da obra de Keynes: o da sua proximidade com a psicanálise e as ideias do seu criador, Sigmund Freud, sobre as quais ele chegou mesmo a escrever. Em 1930, um ano depois do colapso bolsista, Freud e Keynes editaram dois textos singulares: Freud publica o Mal-estar na Cultura, e Keynes lança As Perspectivas Económicas para os Nossos Netos. São reflexões sobre a evolução da sociedade, num momento que era então de generalizada perplexidade. Freud expõe a sua visão sombria sobre a evolução do mundo, alicerçada na ideia de que a civilização contém no seu próprio interior, a par com a força (a pulsão, como ele a designa) de vida que lhe deu forma, uma outra força, de natureza autodestruidora, a pulsão de morte. Para Freud, a luta entre elas é, na história da humanidade, tão constante como inconsciente. A novidade é que o resultado dessa luta se tornou cada vez mais favorável às forças autodestrutivas, obsessivamente orientadas para o domínio da natureza e para a acumulação de bens. A visão que Keynes expõe então era mais optimista do que a de Freud, sobretudo porque a sua opção foi olhar para o longo prazo (para o tempo dos seus netos), apostando que a humanidade conseguiria resolver, como disse, o "problema económico". A utopia keynesiana antecipava então, no prazo de cerca de um século, o fim das lutas de classes e dos conflitos entre nações e esboçava um mundo em que a humanidade se libertaria da escassez e das preocupações materiais des-de que se dotasse da "organização adequada" - os economistas, dizia, poderiam mesmo vir a não ter mais relevância do que os dentistas… Mas, apesar do contraste que decorre destas visões - e que, no essencial, definem uma polarização que continua a alimentar muitas controvérsias actuais -, Freud e Keynes partilharam várias ideias. Uma dessas convergências encontra-se no modo como pensaram o dinheiro, a moeda, na sua ligação com a psicologia individual e a natureza do mercado. É que a moeda não é para Keynes, ao contrário do que pensavam e pensam muitos economistas, um instrumento neutro destinado a facilitar a troca. Não, a moeda é uma invenção que remete para a dinâmica das pulsões mais inconscientes da humanidade, que interfere com a ansiedade humana (acalmando-a ou intensificando-a), dá um valor ao tempo, despersonaliza as relações sociais, torna a dívida abstracta e permite - como disse G. Simmel - que os homens possam deixar de se olhar nos olhos uns dos outros. E é na cupidez, no amor irracional do dinheiro, que Keynes vê o motor do capitalismo. E como Freud tinha recorrido a Thanatos para explicar a pulsão de autodestruição, Keynes recorre a Midas para explicar o modo como o dinheiro se pode tornar, de intermediário da troca, na finalidade última da actividade humana: "Auri sacra fames!…" Na sua Teoria Geral, Keynes fará referência explícita a Freud (e a outros psicanalistas, como Ferenczi e Jones) para sublinhar a pertinência das suas análises sobre a relação do dinheiro com certos episódios do desenvolvimento infantil, uma das mais controversas teses do criador da psicanálise. E mais claro ainda é o modo como subscreve a hipótese freudiana da ligação da civilização à sublimação das pulsões humanas mais básicas. Quadro em que a cupidez lhe aparece como um catalisador fundamental da libido individual, seja no sentido da abstinência e da poupança, seja no da fruição e do consumo. Claro que estas opções, mais do que individuais, são eminentemente colectivas - e também aqui Keynes se revela um bom leitor de Freud: se a influência social se faz sobretudo por contágio, a imitação sobrepõe-se à racionalidade e o mercado corre amiúde o risco de se enganar. J. Stiglitz não diz hoje outra coisa, quando fala da finança contemporânea.»

Manuel Maria Carrilho, DN

A SOLTURA DE CRAVINHO

João Gonçalves 31 Mar 10

Ontem esteve aí, pela enésima vez, o ex-campeão fictício nacional da luta contra a corrupção, João Cravinho. De vez em quando Cravinho desce do assento etéreo do BERD, em Londres, onde o PS o colocou, para nos vir dar lições tipo "a corrupção política anda à solta em Portugal". Anda? Então se anda, e uma vez que, desde os gloriosos tempos do MES, o eng. º Cravinho nos brinda com a sua inefável presença na vida político-partidária onde, aliás, se pratica o "filhismo" como "doutrina", qual é a efectiva prestação (para além da cansativa retórica vã exibida em rádios, televisões, comissões e colóquios para papalvos ouvirem e verem) da criatura para evitar tamanha soltura? É melhor poupar-se e poupar-nos, engenheiro. Estamos já razoavelmente bem servidos de líricos ainda por cima com "obra" publicada.

PEIXINHO

João Gonçalves 6 Mar 10

Em Portugal não há corrupção nem tráfico de influências. Apenas robalinhos frescos e sardinha da boa para os amigos.

KIM-IL-ISMOS

João Gonçalves 4 Dez 09


Prestem a devida atenção epistemológica a isto. O governo, na sua mais recente cruzada contra a corrupção, a "espionagem política" e a dra. Ferreira Leite mandou que cada uma das mais ínfimas unidades orgânicas da administração pública comunique como é que - dentro dela - tenciona "combater a corrupção". Que "concebam" um planozinho giro. Reparem bem. Milhares destas unidades vão produzir umas papeletas inúteis que ninguém vai, no seu perfeito juízo, levar a sério e que permitirá a alguém exibir-se como putativo campeão do referido "combate". Se dúvidas houvesse de que o regime só retoricamente "combate" a corrupção, este lixo burocrático só serve para acabar com elas.

OS "PRINCÍPIOS"

João Gonçalves 3 Dez 09

Se bem percebi, pela boca do tipo do PS de serviço no parlamento, o sr. Rodrigues dos Açores, em nome dos "princípios" - quais? -, a referida seita é contra alterações nas previsões criminais relativas ao crime de corrupção. O sr. Rodrigues tem superado em aparições o sr. Assis que supostamente manda na trupe parlamentar. Se aquilo é a imagem do PS minoritário, então o PS minoritário é uma coisa deprimente, quase insignificante e grotesca. É evidente que o vulgo está a leste destas coisas porque anda mais entretido com "Popotas" e derivados. A corrupção estará assim sempre bem e recomendável. E os "princípios" estarão preservados. Ámen.

A "COMISSÃO"

João Gonçalves 20 Nov 09

Nem parece coisa de Pacheco Pereira. Para que é que ele queria mais uma comissão, desta feita parlamentar, para "acompanhar" o fenómeno da corrupção na administração pública? Porventura por já não existir uma maioria absoluta e para dois ou três crédulos terem uma ocupação? Não chega. Ninguém imagina o regime a vigiar o regime. Para isso já temos coisas a mais fora do parlamento e o parlamento não é exactamente um modelo político virtuoso. Guterres foi o campeão das comissões. E viu-se.

NO MEIO DE NÓS

João Gonçalves 31 Out 09

«Basta imaginar a carreira típica de um corrupto. Começou por se inscrever num partido (no PS ou no PSD, evidentemente). Ou tinha influência, própria ou da família, ou conseguiu arranjar um "protector" (um empresário, um advogado, alguém com prestígio ou com dinheiro) para se promover a presidente da concelhia ou a qualquer cargo de importância. Daí passou para a administração central, para a Câmara do sítio ou, com muita sorte, para uma empresa pública. Com o tempo chegou a uma situação em que podia "pagar" os "favores" que até ali recebera e fazer novos "favores", em que já participava como sócio. Entretanto conhecia mais gente e alargava pouco a pouco os seus "negócios". Se punha o pé fora da legalidade, punha com cuidado, bem protegido por amigos de confiança e pretextos plausíveis. Um dia, por fidelidade ao chefe, "trabalho" no partido (financiamento directo ou indirecto) e recomendação de interesses "nacionais", foi chamado ao governo: a secretário de Estado, normalmente. No governo, proibiu ou permitiu conforme lhe convinha ou lhe mandavam e convenceu outro secretário de Estado ou mesmo um ministro mais "versado" ou "ingénuo" a colaborar na sua "obra". Torcendo uma regra aqui, explorando uma ambiguidade ali, a sua reputação cresceu. Não precisava agora de se mexer. Era, como se diz no calão da tribo, um "facilitador". A iniciativa privada gostava dele, o "sector público" gostava dele, o alto funcionalismo (a quem, de quando em quando, dava uma gorjeta) gostava dele. Ninguém lhe tocava. O corrupto ascendia à respeitabilidade. E anda, por aí, no meio de nós.»

Vasco Pulido Valente, Público

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