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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Vou reler o Marcello

João Gonçalves 20 Out 13

 

Tinha jurado não voltar a ler um livro de direito na minha vida - a não ser o estritamente necessário para trabalhar - mas o Doutor Cavaco Silva, economista, obriga-me a rever a promessa. Se bem entendi, o economista, não certamente o Presidente da República, vai "avaliar os custos" de um pedido de fiscalização preventiva da constitucionalidade da lei do orçamento de Estado para 2014. Porquê? Porque o economista receia (isto de o PR ter mudado a meio deste mandato para o "modo assustado" não ajuda nada esta porcaria a andar para a frente) que a não entrada em vigor de um orçamento no dia 1 de Janeiro, mesmo com normas inconstitucionais, é preferível a não haver orçamento algum. Isto embora o economista saiba perfeitamente que, nesse caso, o orçamento vigoraria em regime de duodécimos, reportados ao de 2013, como já aconteceu noutras encarnações. Quando muito, suscitará pedidos de fiscalização sucessiva porque aí, disse, os "custos" serão menores. Ou seja, o Presidente da República aceita a supremacia da economia sobre a política, a sujeição do poder político ao poder económico para recorrer, a contrario, à expressão constitucional. Ora, e salvo o devido respeito, o que todos os Presidentes da República juram cumprir e fazer cumprir - era assim da última vez que a li - é a Constituição. Não é orçamentos de Estado. Vou reler o Marcello.

 

Adenda: Outro Marcelo, só com um "l", achou genial a declaração presidencial feita no Panamá. Segundo este Marcelo, como o défice previsto de 4% é inverosímil e é provável que várias alíneas do orçamento sejam declaradas inconstitucionais "lá para para Fevereiro ou Março", então a troika,  nessa altura a realizar a última avaliação e já com pouco dinheirinho em causa, de certeza que "alarga" a margem para o défice e não se fala mais nisso. Marcelo perpetrou uma "interpretação" das palavras presidenciais menos no sentido jurídico-político delas (ou mesmo económico) e mais num contexto de "chico-espertice" nacional que em nenhuma circunstância ficaria bem a um Presidente usar. O direito, de facto, é o que de mais parecido existe com a gelatina. Mas não convém abusar.

UM PAÍS PREAMBULAR

João Gonçalves 17 Dez 10


É por causa do somatório destas pequenas coisas que não vamos a lado algum. Isto é, não saímos do preâmbulo.

UM GOVERNO DE SALVAÇÃO NACIONAL?

João Gonçalves 23 Set 10

O dr. Santana Lopes sabe tão bem como eu que, nos termos constitucionais (não os aprecio mas são os que estão em vigor e que Cavaco jurou cumprir: não andou o dr. Lopes mortinho para retirar ao PR, em 1983, a dependência política conjunta do governo face à AR e ao PR?), o governo forma-se a partir do resultado das eleições legislativas e em atenção à composição parlamentar delas decorrente. Quando foi removido por Sampaio, como se recorda, o que o então PR fez foi precisamente dissolver o parlamento convocando eleições. Quem pode ou não pode sustentar governos ditos de salvação nacional (como se algum salvasse isto de alguma coisa), é justamente o parlamento, mantendo o actual ou decidindo por forma a o governo em funções deixar de poder estar investido nas ditas. Aí, sim, o PR tem de pronunciar-se, coisa que Cavaco está famosamente impedido de fazer desde 9 de Setembro último por causa das regras. Não se pretenda agora "atribuir" ao PR - a este ou a outro qualquer - uma missão que a constituição, revista ad hominem em 1983, lhe sonegou: a de manter ou retirar a confiança política num governo, suscitando a formação de um outro.

PARTIDOCRACIA, DISSE ELE

João Gonçalves 23 Jul 10


«Mais do que uma revisão o PSD propõe uma alteração de Constituição. Para governar na fronteira da legalidade, ou para marcar lugar num novo regime? (José Medeiros Ferreira, CM)» Talvez as três. Mas não julgo que venha mal ao mundinho português abanar-se a pasmaceira em que caímos. Porque a campanha presidencial será mais dessa pasmaceira do que outra coisa qualquer. Depois de Alegre ter vindo falar, a propósito das "ideias" do PSD para a constituição, em reforço da partidocracia - um termo que o PS "soarista" sempre repudiou -, Cavaco pode recandidatar-se como o campeão da defesa de um texto que, pelo menos ele, já jurou cumprir e fazer cumprir. O texto que está, evidentemente, porque a revisão, se houver lugar a ela, nem daqui a um ano estará pronta e o PR está sempre obrigado a promulgá-la. O argumentário de Alegre é, pois, uma falácia. Mais depressa ele seria empurrado a colocar Sócrates em cheque pela esquerda folclórica anti-PS que o apoia do que Cavaco "ajudaria" Passos Coelho a subir ao pódio. A insanável contradição da Alegre candidatura, tão bem traduzida por ele no lapsus da "partidocracia" (afinal, quem parece estar interessado em "presidencializar" é Alegre e não Cavaco), dará a vitória ao actual Chefe de Estado numa única volta. Elementar como a poesia do outro.

OS AMIGOS DE PENICHE

João Gonçalves 22 Jul 10


A "fundação" do pequeno Vitorino - onde Canotilho regressou aos bons velhos tempos em que era do PC a pedir caça aos "fascistas" do PSD e S. Silva foi S. Silva - esqueceu-se de convidar Pedro Santana Lopes (e eventualmente Marques Mendes) para isto. Quem acha que «não se deve dar aos PR's o poder de demitir governos» ou que o sistema de governo é "bom" (de que é que têm medo, afinal? da eleição do PR por sufrágio universal directo e secreto?) e que, no caso de Santana Lopes, de há uns tempos para cá, parece fazer gosto em chatear o partido de que foi líder e o actual Chefe de Estado, não fica bem naquele friso?

Adenda: O divertido nisto tudo é que o principal redactor das propostas do PSD sobre a constituição foi o presidente da causa monárquica, da casa real ou coisa parecida. Devia ser insuspeito.

SINAIS DE ESTERTOR

João Gonçalves 22 Jul 10


Este isento friso de paineleiros significa que o "evento" não é o que parece. Só Santos Silva chega e sobra para fazer da coisa uma arenga digna do melhor falecido Vasco Gonçalves em Almada, nos idos de 75, no estertor do PREC. Depois de quinze anos de prática generosa a "enterrar" grande parte da constituição, o PS de Sócrates, precisamente à laia de estertor, vem agora arvorar-se no grande salvador dela das garras do "ultraliberalismo". Estejam à vontade.

NÃO LHES PEÇA DESCULPA

João Gonçalves 20 Jul 10


Enquanto o CDS organiza uma tourada nas Caldas da Rainha - ninguém vendo nisto um átomo de "retrocesso civilizacional" -, o telejornal da RTP garantiu quinze minutos (mais um de patetice Alegre) de minuciosa propaganda contra as propostas de Passos Coelho para uma revisão constitucional que nunca chegará a acontecer. A histeria dos "constitucionalistas" (aqui como denotação de todos os que acham maravilhoso e imutável o actual bloco de gesso chamado constituição), revela por que é nunca iremos a lado algum. Sócrates, com ar de pré-defuntice, falou em "assunto sério". Da CGTP ao gordo Vasco Lourenço, passando por comissões de utentes, de pais, de escolas, por Nogueira e Alçada juntos, pelo profeta Arnaut, pelo isento Proença "ugtista", etc., etc., toda uma parafernália de ornamentos regimentais surgiu no jornal televisivo oficioso a emitir ruído contra o "retrocesso civilizacional" alegadamente protagonizado por Passos e pelo PSD. Isto como se o bloco de gesso que é o regime não estivesse a precisar de uma valente martelada. Todo este vómito me sugere apenas uma recomendação. A mesma. Não lhes peça desculpa.

À ESPERA DOS BÁRBAROS?

João Gonçalves 19 Jul 10

Encontrei o José Medeiros Ferreira, no D. Maria, com a Maria Emília. Bem humorado, sempre certeiro, amigo, o Medeiros faz parte de uma paisagem da qual fui forçado a expulsar tanta gente quanta a que me expulsou da sua. A vantagem do decurso do tempo - e a poesia de Kavafis que ali ouvimos não fala de outra coisa - é podermos decantar, com ou sem a ironia dos versos, as amizades e o resto. O Medeiros apareceu (mais rigorosamente, fui eu quem apareceu) em 1979, nos meus improváveis dezoito anos, para ficar. E justamente, entre 82 e 83, as coisas foram assim como ele as conta singularmente. «Não fui um entusiasta da revisão de 1982 no que disse respeito aos poderes presidenciais. Ela foi feita com aquela« largueza de vistas» de quem queria apenas arrumar politicamente com o general Eanes. O pacto inter-partidário PS-PSD nesta matéria está em vigor há perto de três décadas. Para os nostálgicos de pactos de regime, aí está um, e dos duros.» Os jogos florais entre o PS e o PSD este fim de semana não passam precisamente disso, de jogos florais. E de quem sabe que não haverá nenhuma revisão constitucional nem nenhum candidato presidencial que rompa com isto propondo ele uma. Que melhor referendo a isso que uma eleição presidencial? Por que é que há-de ser o parlamento o preponderante nesta matéria? Só uma cultura democrática de pequeninos é que pode refugiar-se na epifania parlamentar ou inclinar-se perante ela. Cresçam. Ou estão à espera dos bárbaros?

Que esperamos na ágora congregados?

Os bárbaros hão-de chegar hoje.

Porquê tanta inactividade no Senado?
Porque estão lá os Senadores e não legislam?

Porque os bárbaros chegarão hoje.
Que leis irão fazer já os Senadores?
Os bárbaros quando vierem legislarão.

Porque se levantou tão cedo o nosso Imperador,
e está sentado à maior porta da cidade,
no seu trono, solene, de coroa?

Porque os bárbaros chegarão hoje...
E o imperador espera para receber
o seu chefe. Até preparou
para lhe dar um pergaminho. Aí
escreveu muitos títulos e nomes.

Porque os nossos dois cônsules e os pretores,
saíram hoje com as suas togas vermelhas, as bordadas,
porque levaram pulseiras com tantas ametistas,
e anéis com esmeraldas esplêndidas, brilhantes;
porque terão pegado hoje em báculos preciosos
com pratas e adornos de ouro extraordinariamente cinzelados?

Porque os bárbaros chegarão hoje.
e tais coisas deslumbram os bárbaros.

E porque não vêm os valiosos oradores como sempre,
para fazerem os seus discursos, dizerem das suas coisas?

Porque os bárbaros chegarão hoje;
e eles aborrecem-se com eloquências e orações políticas.

Porque terá começado de repente este desassossego
e confusão. (Como se tornaram sérios os rostos.)
Porque se esvaziam rapidamente as ruas e as praças,
e todos regressam tão às suas casas muito pensativos?

Porque anoiteceu e os bárbaros não vieram.
E chegaram alguns das fronteiras,
e disseram que já não há bárbaros.

E agora que vai ser de nós sem bárbaros.
Esta gente era alguma solução.


Konstandinos Kavafis

NÃO PEÇA DESCULPA

João Gonçalves 17 Jul 10


Quando pessoas de bem são citadas aqui é porque normalmente estão erradas ou aquilo que dizem convém ao PS "socrático". Por que é que o PR não há-de ter o poder de demitir o 1º ministro? Não se trata de voltar atrás, aos "tempos do General Eanes" - tomara o país ter "mais" Generais Eanes e menos parasitas da "crise"! Trata-se de mudar de regime e de Constituição. Em França, no dia da sua tomada de posse, o presidente, se quiser, pode descer os Champs Élysées com um senhor ao lado que ninguém conhece que a seguir nomeia 1º ministro. E, no dia seguinte, se for caso, pode demiti-lo. Ou seja, o que Passos Coelho sugere ainda é timorato. Mas é um bom passo em frente. Desta vez não peça desculpa.

DA FARSA

João Gonçalves 5 Jun 10

«É o Governo quem decide o que é o “bem público” e a “emergência” e, ao fazê-lo, decide se a Constituição se aplica ou não.» Vamos ver como é que se comportam os valentões que são tão amiguinhos da Constituição quando esta lhes dá jeito - não sou, não gosto dela e desejo outra - perante esta original e "kim-il-sunguista" interpretação da em vigor. E também desafio os que andam entretidos contra o Chefe de Estado, a brincar às "segundas voltas", a apresentarem-se a Belém com um programa presidencialista, de ruptura com o regime e com a constituição, que se não quede neste bolçar de um nojo paroquial de circunstância, puramente anti-Cavaco a fingir de "ética das convicções". É que ver certas pessoas com o credo da "ética das convicções" na boca sem terem tido o cuidado de a lavar previamente, soa a farsa tão farsa como a do "bem público".

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