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"Os tempos são ligeiros e nós pesados porque nos sobram recordações". Agustina Bessa-Luís
João Gonçalves 5 Out 14

O regime, em cerca de uma hora, comemorou melancolicamente o "5 de Outubro". Não merece mais. O que se passou nos anos seguintes até 1926 e, depois, por razões inteiramente distintas, entre 1926 e 1974, basta para evidenciar a nossa endémica improbabilidade histórica. Os quarenta anos que entretanto levamos "disto", a avaliar pelo que disse Cavaco e pela realidade, prolongaram sob outras formas essa improbabilidade. O pequeno evento na sede da Câmara de Lisboa serviu apenas para António Costa encerrar com umas trivialidades de circunstância - Costa aparenta ter um medo que se pela do "futuro" - o seu mandato camarário. Aliás, tratou-se em geral de uma autêntica cerimónia do adeus. No próximo glorioso "5 de Outubro", Cavaco falará pela derradeira vez como PR e, dadas as limitações constitucionais impostas aos finais de mandato, ninguém lhe prestará a menor atenção. Os olhos estarão postos nos candidatos ao seu lugar. Costa ou já estará sentado em São Bento, ou para lá caminha talvez mesmo nesse inesquecível feriado a repôr. Passos ou ficou pelo caminho em Maio ou Junho, ou comparecerá praticamente a título de figura de corpo presente. A dra. Esteves, se ainda existir politicamente, pode fazer como hoje e pura e simplesmente desaparecer. O regime estará tão irreformável e desprovido de "compromissos" (essa coisa esquisita que tanto apoquenta o Doutor Cavaco) como agora salvo em alguns arranjos tácticos circunstanciais em que o dr. Costa é perito. O que quer dizer que não evoluímos muito neste século e picos de "República". No fundo, a "história" destes anos pode resumir-se nesta prosa de domingo de Vasco Pulido Valente, o único que escreveu um livro de jeito sobre a memorável "revolução". «Em 1911, a Assembleia Constituinte da República resolveu que iria passar a ser a primeira assembleia legislativa do regime. Nada a autorizava a isso, mas ninguém se importou. Afonso Costa não tinha ainda tomado conta do partido “histórico”, que fizera o 5 de Outubro, e meia dúzia de facções andavam em guerra para eleger – no Parlamento e no Senado – o seu Presidente. Escolheram Arriaga, um velho meio senil e pouco esperto, supondo que ele não incomodaria ninguém. Coisa em que, de resto, se enganaram. Antes de se demitir, à força claro, andou aos trambolhões de uma ilegalidade para a outra e acabou por estabelecer uma ditadura militar, depressa varrida pela Carbonária e pelos bombistas de Afonso Costa. Bernardino Machado substituiu Arriaga, com a duvidosa legitimidade dessa zaragata. Depois de Bernardino, veio Sidónio Paes (em 1917) também trazido por uma insurreição da tropa. Sidónio revogou a constituição de 1911, inventou outra mais conveniente à sua situação e à sua política, e convocou eleições directas para a Presidência da República. Ganhou por à volta de 500 000 votos, num clima que roçava o terror. Não lhe serviu de muito. Em 1918 foi morto na estação do Rossio por um admirador de Afonso Costa. Por uns tempos, durante a guerra civil de 1919, Canto e Castro, um monárquico convicto, designado pelo governo, conseguiu manter a ficção de que a República existia. Mas quando se restaurou um mínimo de ordem, e prudentemente mudada a constituição, o Parlamento e o Senado alçaram António José de Almeida, um demagogo de feira, à Presidência para acalmar a balbúrdia e conciliar a direita. O “António José”, como lhe chamavam, assistiu à tortura e ao assassinato do seu primeiro-ministro e cumpriu o seu mandato até ao fim, uma façanha de que se gabou muito. Para substituir esta personagem, o estado-maior do partido Democrático (palavra de honra!) chamou Manuel Teixeira Gomes, pedófilo, diplomata e escritor, que não aguentou os sobressaltos de Lisboa e se refugiou nos costumes mais brandos da Argélia francesa. No lugar dele, reapareceu o indestrutível Bernardino, de que o 28 de Maio em definitivo livrou a Pátria. Os sucessivos chefes da Ditadura não tinham nem de facto, nem de direito a menor semelhança com um presidente da República. Como a não tiveram os protegidos de Salazar (Carmona, Craveiro Lopes, Tomás). Só Eanes, Soares, Sampaio e Cavaco merecem o nome. E, a propósito, não se percebe o que sucedeu à nossa tresloucada Assembleia da República para lhe sair do crânio a ideia eminentemente imbecil de uma exposição de bustos (dizem que horríveis) dos nossos “Presidentes”. Inconsciência? Ignorância? Ou simples prazer de gastar o dinheiro do Estado?»
João Gonçalves 5 Out 13

Levei mais tempo a passear o cão do que o regime, nos Paços do Concelho de Lisboa, a celebrar o "5 de Outubro". Fora a homenagem a Raul Rego, um patriota e um homem bom, a cerimónia apenas disse respeito aos presentes. E porventura não a todos. Os jornalistas só queriam "saber" do dr. Rui Machete e foram prudentemente colocados entre baias para não maçar. Ao longe, os crónicos da CGTP reclamavam "demissão" em abstracto. O corpo diplomático, presente em peso, olhava decerto para isto com a indulgência e a curiosidade de quem contempla, por exemplo, uma alegoria folclórica ou um rito primitivo. Estão habituados. O regime, como ontem explicava Vasco Pulido Valente no Público, entrou definitivamente num registo de loucura, um novo "viver habitualmente", adaptado de Salazar, em que as falácias ditas ou sugeridas com a gravidade das grandes certezas (e das grandes mentiras), são o "programa de vida" dos principais protagonistas. Por exemplo, no parlamento, o primeiro-ministro perguntado sobre os cortes retroactivos - no sentido em que vão ser aplicados a partir dessa "fortuna" que são 600 euros a pensões da CGA que as pessoas já auferem -, respondeu que ninguém ia ser obrigado a "devolver a sua pensão" como se os seus interlocutores (e quem o seguia nos media) fossem todos parvos. Trata-se de um caminho de "divergência", e não de "convergência", entre cidadãos no qual uns (os do costume) são penalizados por toda a vida terem servido o "interesse público" que, supostamente, o "5 de Outubro" quis dignificar. Cavaco bem pode falar de "igualdade" republicana entre todos os cidadãos e de que "ninguém está acima da lei". Ou António Costa decretar que não vale tudo na política. Enganam-se. O que não falta é quem esteja, não acima, mas "em cima" da lei, sentado nela para ter a certeza que a lei nem sequer esperneia. Como em 1910, este regime aproxima-se do ocaso. Mesmo sem Rotunda (ninguém saberia onde enfiar-se nem a pé nem de automóvel), mais tarde ou mais cedo haverá uma "nova República". E a actual será devidamente homenageada, com a meia-hora que lhe foi dedicada hoje, no jazigo de família onde há muito já devia repousar.
João Gonçalves 28 Nov 11
João Gonçalves 7 Out 11
João Gonçalves 5 Out 11
João Gonçalves 23 Ago 11

João Gonçalves 5 Out 10

João Gonçalves 2 Out 10

«A República foi feita pela chamada "geração de 90" (1890), a chamada "geração do Ultimatum", educada pelo "caso Dreyfus" e, depois, pela radicalização da República Francesa de Waldeck-Rousseau, de Combes e do "Bloc des Gauches" (que, de resto, só acabou em 1909). Estes beneméritos (Afonso Costa, António José d"Almeida, França Borges e outros companheiros de caminho) escolheram deliberadamente a violência para liquidar a Monarquia. O Mundo, órgão oficioso do jacobinismo indígena, explicava: "Partidos como o republicano precisam de violência", porque sem violência e "uma perseguição acintosa e clamorosa" não se cria "o ambiente indispensável à conquista do poder". Na fase final (1903-1910), o republicanismo, no seu princípio e na sua natureza, não passou da violência, que a vitória do "5 de Outubro" generalizou a todo o país. Não admira que a República nunca se tenha conseguido consolidar. De facto, nunca chegou a ser um regime. Era um "estado de coisas", regularmente interrompido por golpes militares, insurreições de massa e uma verdadeira guerra civil. Em pouco mais de 15 anos morreu muita gente: em combate, executada na praça pública pelo "povo" em fúria ou assassinada por quadrilhas partidárias, como em 1921 o primeiro-ministro António Granjo, pela quadrilha do "Dente de Ouro". O número de presos políticos, que raramente ficou por menos de um milhar, subiu em alguns momentos a mais de 3000. Como dizia Salazar, "simultânea ou sucessivamente" meio Portugal acabou por ir parar às democráticas cadeias da República, a maior parte das vezes sem saber porquê. E , em 2010, a questão é esta: como é possível pedir aos partidos de uma democracia liberal que festejem uma ditadura terrorista em que reinavam "carbonários", vigilantes de vário género e pêlo e a "formiga branca" do jacobinismo? Como é possível pedir a uma cultura política assente nos "direitos do homem e do cidadão" que preste homenagem oficial a uma cultura política que perseguia sem escrúpulos uma vasta e indeterminada multidão de "suspeitos" (anarquistas, anarco-sindicalistas, monárquicos, moderados e por aí fora)? Como é possível ao Estado da tolerância e da aceitação do "outro" mostrar agora o seu respeito por uma ideologia cuja essência era a erradicação do catolicismo? E, principalmente, como é possível ignorar que a Monarquia, apesar da sua decadência e da sua inoperância, fora um regime bem mais livre e legalista do que a grosseira cópia do pior radicalismo francês, que o "5 de Outubro" trouxe a Portugal? (Adaptação do prefácio à 6.ª edição do meu livro O Poder e o Povo).»
Vasco Pulido Valente, Público
João Gonçalves 24 Jan 10

João Gonçalves 6 Jan 10

Primeiro tem de me explicar o que é isso do “desta...
obviamente nao é culpa do autor ter sido escolhi...
Estou de acordo. Há questões em que cada macaco se...
Fui soldado PE 2 turno de 1986, estive na recruta ...
Então António de Araújo foi afastado do Expresso p...