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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

 

Não posso dizer que tivesse ficado surpreendido quando, numa mensagem vinda das Áfricas longínquas e afinal tão próximas, o Nuno Santos me deu a conhecer a morte de José Medeiros Ferreira. No seu aniversário, a 20 de Fevereiro, tinha-lhe enviado uma mensagem que não obteve resposta. Falei-lhe em breves palavras dos dias por vir porque sempre entrevi no Medeiros futuro e liberdade. Foi com ele, aos 18 anos, que me aproximei da chamada política. Saía uma tarde do autocarro para as aulas do Instituto Britânico, ao Príncipe Real, e o Medeiros seguia à minha frente, com o filho Miguel pela mão, a caminho da papelaria perto da Cister. Interpelei-o por causa do Manifesto Reformador, apresentado uns dias antes, que reclamava a evolução do regime pela via referendária, mais liberdade e flexibilização na economia (os aprendizes de feiticeiro da "democratização da economia" do dr. Passos não só não inventaram nada como não sabem sequer do que falam) e uma liderança institucional do PR, na altura Ramalho Eanes que sempre nos foi comum. Levou-me de imediato à sua casa na Calçada Eng. Miguel Pais e deu-me uns quantos exemplares do Manifesto para divulgar. No final desse ano de 1979, celebrou um acordo com Francisco Sá Carneiro que permitiu a integração de candidatos independentes e reformadores nas listas da Aliança Democrática. Reuníamos entre a Silva Carvalho e a Gustavo de Matos Sequeira. Foi nesta que se aprovou outro manifesto, redigido no essencial por Francisco Sousa Tavares, de apoio a esses candidatos e à AD. Depois esse grupo separou-se à conta, sobretudo, das presidencias de 1980. Medeiros tinha assegurado a liberdade de accão dos futuros deputados reformadores no convénio com o PSD. Numa balaustrada de São Bento, na primavera de 1980, Medeiros disse-me que ia "desembraiar" o acordo, e alguns de nós seguimos Eanes e os outros ninguém ou Soares Carneiro. Não estive com ele na "aventura" do PRD nem tão pouco acompanhei o seu regresso ao PS onde, quer num lado quer no outro, o espírito livre e ironista sempre se sobrepôs às dependências circunstanciais dos rituais partidários. Medeiros lamentou que Guterres nunca o tivesse aproveitado. Num voo de Bruxelas, onde nos cruzámos por acaso, confessou-me que aceitaria um "convite" (e apenas esse) para ministro da administração interna. Sócrates nunca o interessou. Ponderava, como poucos, as funções de soberania no Estado moderno democrático e falava disso com vivacidade lúcida e sem os preconceitos de quem conhecia bem a história contemporânea portuguesa. Depois da academia no exílio suiço, empenhou-se na nossa universidade e no estudo dessa história preciosa para entender o presente e intuir o futuro. Era o seu espaço de liberdade, por excelência, como referiu na sessão em sua homenagem, na Nova, por ocasião da jubilação. Nos derradeiros anos encontrámo-nos para almoçar, para combinar o seu prefácio ao meu livro Portugal dos Pequeninos, para beber um copo ao final do dia no Pavilhão Chinês e no lançamento do livro Não há mapa-cor-de-rosa, um testemunho imprescindível no momento porventura mais decisivamente europeu - quando foi ele, em 1977, quem entregou o pedido de adesão do país à CEE - de um Portugal que assiste, resignado, ao que ele designou pelo regresso clandestino do escudo. Por alturas deste Natal, eu vagueava pela FNAC do Chiado quando vejo o Medeiros descer as escadas rolantes da livraria. Com uma boina escocesa para o proteger do frio, e umas luvas que descalçou para me apertar a mão, ali ficámos uns minutos junto a um escaparate a falar do passado, do presente e do futuro que era só o que lhe interessava. Recordámos a sua passagem pelo MNE, no primeiro governo de Soares, a ainda andámos mais para trás até ao VI, provisório, de Pinheiro de Azevedo onde foi secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros com Melo Antunes. Também lá passou, pelo então PPD, um tal de Machete sem deixar rasto. No meio de livros, Medeiros instou-me a escrever um ("desta vez não pode ser do blogue, tem de ser original e tem de o escrever") sobre a minha colaboração com XIX governo constitucional. Despedimo-nos com votos mútuos de boas festas e a promessa desse livro que agora terá, à cabeça, a querida memória de uma fraterna amizade. Enquanto o Medeiros espreitava os livros, já eu subia as escadas de saída desse encontro que se pressentia o último.

6 comentários

De AF a 18.03.2014 às 14:52

Belo post.
Muita pena que tenha desaparecido tão cedo, era um homem bem formado, inteligente e culto.

De josé sequeira a 18.03.2014 às 15:20

Há mais de 30 anos conheci Medeiros Ferreira num balcão do Banco Pinto & Sotto Mayor, na Rua da Escola Politécnica. Um único empregado (o sr. Eusébio) atendia uma bicha enorme de gente que pretendia coisas, tão fora de moda nos nossos dias, como rebater um cheque, levantar dinheiro ou saber um saldo. Três lugares atrás de mim, Medeiros Ferreira alinhava no coro dos que educadamente protestavam contra a situação. Uma funcionária, solícita, assomou ao balcão e reverencialmente pediu ao senhor doutor que a acompanhasse a uma zona reservada da agência onde poderia tratar rapidamente do seu assunto.
- Isso era o que faltava, retorquiu Medeiros Ferreira. Venha é atender para o balcão e assim despachamo-nos todos mais depressa, mas pela ordem de chegada!


Considera, se fazes favor, o "instar" de JMF como uma invectiva: Saia esse livro em boa forma porque já tem lugar reservado junto aos outros dois!

De Fernando Ferreira a 18.03.2014 às 17:23

Caríssimo João, nesta apagada e vil tristeza em que Portugal se vê atolado, esta pesarosa notícia ensombra ainda mais a minha tarde de arrumos; relembro o Prof. Medeiros Ferreira de várias ocasiões, das reuniões do hoje defunto PRD aos debates coloquiais sobre o presente e o futuro do nosso desafortunado país, como V. tão bem assinala no seu postal.
Do Prof. Medeiros Ferreira guardarei sempre o exemplo de inteligência temperada (como só ele sabia...) com o conhecimento, a ironia e a subtileza que o tornavam um acerado (mas não azedo), incontornável e incómodo crítico deste indigente "Estado-a-que-chegámos", mas que nunca esquecia a indispensável proposta de alternativas; além disso, era um benfiquista dos quatro costados.
Muito obrigado por tudo, Prof. José Medeiros Ferreira.

De Helena a 18.03.2014 às 22:18

Ficámos sem o "Córtex Frontal" e tudo...  última entrada 9 de Fevereiro


Helena

De Vortex a 18.03.2014 às 22:18

não via o Irmão da nossa Loja desde março de 94.na av. Marginal de P. Delgada.
pertencia aos poucos maçons excepcionais  do Gol. infelizmente a maioria é lixo. por essa razão deixamos a Ordem maçónica sem deixar-mos de ser pedreiros-livres.
desaparece um homem bom, competente, com quem muitas conversa sobre o nosso futuro colectivo
que descanse em Paz no Oriente Eterno

De Miguel a 23.03.2014 às 00:59

O ano passado tive a oportunidade de ler o livro dele, Não há Mapa Cor-de-Rosa, e achei-o bastante interessante. Lamento tê-lo descoberto pouco antes de o termos perdido, mas vou continuar a ler os livros deles.

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