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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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Eu e mais dois colegas da Católica fomos até ao Festival de Cinema da Figueira da Foz, sempre em Serembro. Um, nessa altura, tinha umas vagas pretensões literárias - na realidade, entretinha-se a imitar os contos do Hemingway - e o outro, mais modesto, apenas gostava de cinema. Ficámos os três alojados numa miserável residencial, no mesmo quarto e com uma casa de banho infecta. Nesse ano, o filme "sensação" era "Francisca", de Manoel de Oliveira, e o "grande prémio" foi entregue à película francesa "Diva", a surpresa do Festival. Voltei. Outras companhias, outros quartos. Em dez dias, devo ter visto para lá de sessenta filmes. Calhou, até, apesar da "tenra" idade, "ver" - premonitoriamente - aquilo que viria a ser a minha vida daí em diante. Desses tempos singulares, recordo sobretudo atravessar o gigantesco areal da praia da Figueira, manhã cedo, até ao café em frente do Casino, depois de noites e noites inverosímeis. Aí, numa dessas manhãs, cedinho
, encontrei o Eduardo Prado Coelho a engraxar os sapatos e a preparar-se para ir até à gráfica, em Leiria, onde a sua tese de doutoramento estava a ser impressa para sair em livro no ano seguinte, "Os Universos da Crítica". Arrastava-me, depois, para toda e qualquer sala da cidade, onde passasse um filme de um realizador obscuro, para fugir às minhas companhias e de mim próprio. Em pleno processo de afundamento, o saudoso Herlander Peyroteo levou-me a almoçar a Buarcos. O que nos rimos. Houve ainda tempo para um jantar melancólico, num restaurante indiano (comida detestável, que nunca mais provei), em que acabei sozinho, com a garrafa de vinho, depois de ter conseguido proferir a palavra mágica. Passaram quarenta anos. Os dois colegas da Católica são hoje garbosos advogados da nossa praça. A companhia luminosa e funesta do ano seguinte foi economista numa multinacional e já tem um neto, pelo menos. O Prado Coelho e o Peyroteo já desapareceram. A Figueira desses dias também. O "pai" do Festival, o José Vieira Marques, ainda mais cedo se foi. Os outros, eu incluído, moveram-se. Aliás, tudo se moveu. "Nunca escrevi, julgando escrever, nunca amei, julgando amar, nunca fiz mais do que esperar", escreveu algures outra "heroína" do Festival, Marguerite Duras. Apesar dos anos decorridos, continuo sentado no mesmo banco de pedra da marginal, em frente ao Grande Hotel, a olhar para o mar inesquecível da Figueira. O semanário "Tal&Qual" dedicou-lhe um suplemento, a semana passada, de A a Z. E uma entrevista ao Pedro Santana Lopes, o edil. Faltou ali o F, do Festival de Cinema. Devolva-o à cidade , Pedro. Olhe que vale a pena. 

2 comentários

De Anónimo a 17.08.2022 às 12:24

Excelente.

De Anónimo a 17.08.2022 às 17:37

"O excelente" telegráfico é do Manel.

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