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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

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Num fim de semana dominado pelas ameaças do presidente de um clube da bola à liberdade de imprensa e pelo lamentável congresso do PSD, o Expresso concluiu o seu ciclo de entrevistas aos antigos Chefes de Estado com Cavaco Silva. Das três - Sampaio, Eanes e Cavaco - esta é mais "política" de todas. E não o é por Cavaco responder mais ou menos directamente a questões da "actualidade" (vamos só ver uma de seguida) ou por apreciar "perfis" de protagonistas político-partidários.

Não houve uma palavra política no fim do congresso do PSD para a justiça, salvo a exibição de uma antiga bastonária da Ordem dos Advogados como vice presidente. O PSD  precisava de uma populista fácil para se demarcar do passado recente? Acho que não. Rio tem sido demasiado ambíguo quanto a Joana Marques Vidal quando essa sua vice presidente não foi. Cavaco também não é. mas por bons motivos. "Não estou absolutamente nada desiludido em relação à sua actuação, tem dado um contributo para a dignificação da função judicial."

Cavaco, muito agradavelmente surpreendido por Macron, "desmonta" a falácia ideológica que, precisamente, alguns daqueles protagonistas usam no dia a dia da medíocre vida pública portuguesa.

Por exemplo, Costa resumiu tudo ao simplismo museológico da "esquerda vs. direita" quando precisa insultar, usando o artigo definido ("a" direita) como se estivesse a falar de uma praga medieval ou de um livro de uma verdade revelada. E com Rio no PSD parece que foi descoberta a roda, isto é, a social-democracia que pôs de lado "a longa noite neocon e neoliberal" de Passos que, só por acaso, salvou o país de uma bancarrota alarve deixada pelo partido que, em Portugal, representa a Internacional Socialista. Ora a história de ambos os partidos mostra que as lideranças bem sucedidas foram as que levaram a respectiva água ao seu moínho (cito Mário Soares) e não as que fizeram proselitismo "ideológico". Quando se vê e ouve adversários declarados do PSD, e da sua indisputável liderança do centro-direita (ao fim de 40 anos ainda há temores e tremeliques no pronunciar do termo direita), a elogiar o "recentramento" do partido e a babarem-se de hipocrisia porque o PSD "regressou" ao bom porto da social- democracia de Sá Carneiro - por acaso o primeiro a perceber, logo em 1979, que apenas uma frente política reformadora liderada pelo PSD tem condições de se opôr eficazmente ao domínio do Estado, e derivados, por um PS que nunca abandonou o "sonho mexicano" dos anos 70 -, percebe-se que entrámos em terreno pantanoso e falacioso. Em curtas horas, os delíquios comentadeiros porque Rio quer medir, e proventura confundir, a sua social-democracia com a de Costa são eloquentes. Os três mandatos de Rio na Câmara do Porto "social-democratizaram" mais a cidade do que os de outros social-democratas que tomaram conta da cidade antes de Gomes? Até o Bloco de Catarina já é praticamente um campeão da social-democracia, depois de 2015, do que do velho trotskismo dos fundadores. Se Rio quiser ser "original", é melhor ir procurar o "mambo jambo" a outro lado.

Aqui entra Cavaco. "Faz muito pouco sentido hoje, em matéria de governação, em particular, falar de direita ou de esquerda, principalmente num país que está integrado na União Europeia e na zona euro, em que a interdependência das economias e a integração dos mercados é muito grande". Ou seja, "o pragmatismo tem vindo a impor-se e a ideologia aparece acantonada em partidos mais pequenos que não são governo, principalmente no que respeita à parte económica". O PSD quer "acantonar-se" no seu breviário social-democrata? Acho que não.

Depois Cavaco explica muito bem a questão da dívida (e por que é um erro crasso falar na sua reestruturação, ignorando na posse de quem ela está maioritariamente) e o grande mito do crescimento. "Não faz sentido observar o crescimento do PIB em Portugal isoladamente" porque estamos aquém do verificado nos  países que também tiveram ajustamentos, salvo a Grécia, pois "Portugal deve ao governo presidido pelo doutor Passos Coelho não estar numa situação não muito diferente" da Grécia onde "a produção caiu 25%, o desemprego ultrapasa ainda 20%, as áreas de empobrecimento aumentaram brutalmente, a degradação dos serviços públicos não tem nada de comparação com Portugal". "Não alinho nos foguetes que a comunicação social costuma divulgar quando sai um número do INE. Imediatamente vou ver os números dos países da UE, vou pensar se Portugal tem choques assimétricos positivos ou negativos, e depois vou ver o que tem a Espanha, nosso principal mercado, Chipre, Irlanda".

É que "Portugal está a beneficiar de uma envolvente externa extraordinariamente favorável: taxas de juros extremamente baixas, perto de zero, durante um período longo, como nunca se viu na história monetária portuguesa; deslocação de turistas de outros destinos para Portugal; crescimento económico da União Europeia que há muito tempo  não ocorria, com destaque para Espanha, nosso pincipal cliente, para onde exportamos cerca de 27% do total; e preço do petróleo muito baixo".

E devia aproveitar este "quadro de benesses externas", tão raramente conjugadas, para correcções de "desequilíbrios estruturais": "o enorme endividamento do país, a insustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e do sistema de Segurança Social, a baixíssima taxa de poupança das famílias, a falta de capital, o inverno demográfico, a reforma do Estado".

Portugal, é como quem diz, este governo do "muito hábil" Costa e a oposição (que deve ser "forte e indiscutível") de Rio. 

 

 

 

 

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