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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Passam 70 anos sobre a primeira edição de "Animal Farm", de George Orwell, que, à letra, intitulava-se "A quinta dos animais, uma história de encantar". Por cá, e noutras línguas, também foi recebido como "O triunfo dos porcos", "O porco triunfante" ou "A revolução dos bichos". Esta extraordinária fábula política, escrita antes do final da guerra, metaforizava o universo concentracionário do regime estalinista e, de certo modo, o fracasso "humanista" da revolução russa. Todavia o ironismo da obra tem permitido que se recorra a ela para denunciar, ou simplesmente ilustrar, qualquer organização ou sistema aberrantemente totalitário criado à sombra das melhores intenções. Orwell, numa carta posterior, explicou o propósito com meridiana clareza: "Não há revoluções a menos que sejamos nós próprios a fazê-las uma vez que inexiste algo parecido com ditadores, ou ditaduras, benevolentes". Quem diz revoluções, diz democracias liberais e democratas liberais. Os maus hábitos de civilidade entranhados nos regimes pós-guerra, do Atlântico aos Urais, fazem de grande parte deles autênticas "quintas dos animais" no sentido orwelliano do termo. Os burocratas das administrações públicas, da economia, da finança, dos partidos e das corporações triunfam alarvemente enquanto a liberdade e a iniciativa crítica recuam. Aos cavalos sucederam os porcos: "os porcos não trabalhavam efectivamente, antes dirigiam e supervisionavam os outros" e "toda a administração e organização desta quinta repousam sobre os (seus) ombros". E a bravura? "A bravura não chega - disse Tagarela. A lealdade e a obediência são mais importantes". Por isso - e aqui podemos entrar, por exemplo, pelo calçadão de Quarteira, por "agendas para a década" ou pela "reforma do Estado" reflectida num grosso de pequeninos e grandes chefes sem mundo ou biografia - dá "a impressão de que a quinta enriquecera sem que os próprios animais tivessem enriquecido - exceptuando, é claro, os porcos e os cães". É que os porcos têm de "labutar todos os dias para completar coisas misteriosas chamadas "arquivos", "relatórios", "minutas" e "memorandos" a fim de zelar pelo bem-estar da quinta onde todos somos iguais embora uns sejam mais iguais do que outros. Afinal, como escreveu Orwell num prefácio premonitório que nunca chegou a sair, "são os liberais que temem a liberdade", esse "direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir".

 

Jornal de Notícias

 

 

1 comentário

De J.S.M.suave e nas tintas a 28.08.2015 às 05:23

Eu preferia viver no mundo do Zaratustra , mas tenho de me contentar com um mundo historicista! Orwell compreendeu muito bem a diferença e por isso alertou a humanidade para os perigos de nos deixar-mos embalar por "bondosos" estalinistas - narcísicos e psicomaniacos ! O problema maior não são os que não querem ouvir o que as pessoas dizem ( ninguém é obrigado a ouvir.), são os que nos querem obrigar a ouvi-los. Vivemos em democracia: somos livres de dizer e ouvir o que quisermos, dentro dos limites da lei. O maior perigo são os que nos querem convencer que são muito virtuosos e que os outros não prestam: falta-lhes humildade intelectual e moral: consomem-se com a sua própria razão e acabam como os porcos da fábula!

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