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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

Alívio ou desastre?

João Gonçalves 24 Abr 15

 

«O PS ficou sozinho no meio das querelas portuguesas, com um arzinho responsável e sabichão, mas terrivelmente desamparado. Quem vai votar por ele? A direita não, por costume e prudência. A esquerda não, porque vê nas contorções de Costa uma segunda “evolução na continuidade”, que não muda o essencial e se finge inovadora e salvífica. O eleitorado, esse, que não sabe interpretar as contas da “comissão” dos sábios do partido, por enquanto não se manifesta (...). O PS, como um bom aluno, um dos melhores da classe, jura agora respeitar os compromissos que Portugal tomou e, principalmente, os credores da sua imensa dívida — com a Europa e os mercados não se brinca. Mas, respeitando a autoridade, não lhe sobra grande espaço para promover o crescimento ou para aliviar a vária miséria dos portugueses. Depois de muito anseio e algumas voltinhas, Costa acabou por engolir a receita tradicional: “aliviar” a crise, prolongando por mais tempo a austeridade. Isto evidentemente não traz, no imediato, um especial alívio ao português comum: e pior ainda não garante que o alívio de hoje não seja amanhã o princípio de um novo desastre.»  

 

Vasco Pulido Valente, Público

A "vontade transformadora"

João Gonçalves 23 Abr 15

 

Francisco Assis é indiscutivelmente uma forma de vida inteligente no meio da nomenclatura oficiosa do PS, sensivelmente a mesma há décadas. Pensa por si, não é oportunista, tem um módico de biografia que lhe permite ser lido ou escutado com alguma atenção contrariamente a algumas e alguns cristãos-novos partidários velhíssimos em sabujice rasca e videirinha. Todavia é pueril quando fala na "vontade transformadora" do PS. Na realidade, quer para as eleições legislativas, quer para as presidenciais onde já pôs (com complacências várias que a seu tempo se tornarão clarinhas como água) a sua marioneta vaga em exercícios de aquecimento, o PS não pretende "transformar" nada mas, sim, manter  o que for possível manter do regime sem o reformar. Um ou outro rosto novo, uma ou outra "ideia" mais agradável, um ou outro "ajustamento" distinto do "ajustamento" dos outros não fazem exactamente uma primavera. É que faz agora ainda muito pouco tempo que o PS não queria "transformar" nada e tão somente "ficar" por "ficar". Até Teixeira dos Santos se espantou com tamanha lata como recentemente reconheceu numa entrevista à TVI. Costa já informou, com a sua delicadeza habitual, que o documento que encomendou não é a "bíblia". E só corre para ter mais um voto, quer lá saber de "transformações". Quem se se esquecer disto, não entende nada do que se vai seguir.

Igual a si próprio

João Gonçalves 12 Abr 15

 

Em inglês, numa entrevista televisiva gravada algures, António Guterres despediu-se das eleições presidenciais de 2016. Em todo este equívoco acabou por não estar à altura do que esperavam dele: no PS e, pelos vistos, no país. Permitiu que a nomenclatura "costista" andasse ainda mais torturada e baralhada do que já andava. E ignorou olimpicamente os "sinais" das sondagens que o davam como imbatível. Escolheu, e é um direito seu, uma outra vida fora de uma política doméstica cada vez mais mediocratizada. Nunca seria, claro, um bom batalhador por uma nova República. Mas, dentro do enquistamento sistémico em vigor, ainda era apresentável. Entretanto foi a Évora imagino que, para além da parte privada da coisa, em missão. Alguém precisava dizer duas ou três coisas a Sócrates com um módico de autoridade. Desde logo que as procissões "socráticas" de alguns dos agora, de novo, dirigentes do PS não ajudam Costa. Sobretudo não ajuda não estarem calados. Depois é preciso que a "politização" do processo judicial, por tabela, não acabe por prejudicar o mesmo Costa. Finalmente é preciso convencer Sócrates e os "dele" que, se calhar, o PS terá de apoiar alguém para Belém que "omita" o antigo líder. Mesmo sem ser candidato a candidato, Guterres foi igual a si próprio.

Um gesto pequenino

João Gonçalves 6 Abr 15

 

Leio que o dr. Costa, candidato a 1º ministro em full time, recusou o nome do eng. João Proença, ex-secretário-geral da UGT e seu camarada de partido, para substituir Silva Peneda na presidência do Conselho Económico e Social. A ele prefere Vítor Ramalho - um velho cortesão soarista, embotado e tão "consensual" como uma lapa grelhada - porque é "dele". Proença cometeu o pecado original de ter sido fiel a Seguro e isso, neste PS de 2005-2011 corrigido e aumentado, é imperdoável. Para quem quer "crescer" para o país, este gesto pequenino do dr. Costa não está mal.

Uma falácia

João Gonçalves 3 Abr 15

 

«O menos que se pode dizer da operação que levou António Costa a secretário-geral do PS e a candidato a primeiro-ministro é que não foi “elegante”. Nessa altura, muita gente desculpou ou justificou a grosseria e a brutalidade da coisa, porque esperava de António Costa uma nova oposição ao governo lúcida e compreensível e, sobretudo, com princípio, meio e fim. A discrição e as meias-frases na Quadratura do Círculo davam a impressão de esconder um pensamento sólido e um plano político original, que nos tirasse do lugar-comum e da pura irrelevância do debate instituído. Infelizmente, não aconteceu nada disso. Nem nos rituais do Congresso Socialista, nem a seguir em meia dúzia de entrevistas de uma “prudência” claramente exagerada e de uma ambiguidade extrema, António Costa saiu da mastigação das velhas lamúrias da esquerda e da extrema-esquerda. Esperança não trouxe nenhuma; e extinguiu depressa o entusiasmo das “primárias” do PS, em que não se sabe ao certo quem votou. Apareceu então um putativo salvador que se calava ou, quando se mexia, era como se andasse a pisar ovos. O que, de resto, não o salvou de erros sem desculpa. Prometeu baixar o IVA da restauração para 13% (como se os 23% não tivessem também o objectivo de melhorar a qualidade dos serviços prestados); prometeu a “reposição total” dos salários (do Estado, claro) e das pensões, sem explicar onde iria buscar o dinheiro para essa extravagância; prometeu que os municípios passariam a reter uma indeterminada percentagem do IVA, gerado localmente; e prometeu um “programa nacional” de “requalificação urbana”, aparentemente financiado pela “Europa”. Ora isto por um lado é muito, e por outro lado muito pouco. Meia dúzia de medidas não faz um plano estratégico; e um plano estratégico precisa de uma inspiração unificadora, capaz de ser adoptada e compreendida pelo cidadão comum.  Mas, para nossa desgraça, António Costa, talvez por falta de inspiração própria, não mostrou até agora capacidade para inspirar ninguém. No governo foi um razoável ministro; na câmara um administrador sofrível; e no partido um ambicioso hábil. O que não chega para um país sem futuro certo ou destino visível. Tropeçando de papel em papel e de comissão em comissão, António Costa vai fatalmente desaparecer, já desapareceu, no cansaço e no desespero dos portugueses.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

As coisas são o que são

João Gonçalves 15 Mar 15

 

«António Costa deu uma entrevista à televisão que veio confirmar o pior sobre a vacuidade e as fantasias do Partido Socialista (...). O que separa Costa de Passos Coelho é simplesmente a questão da política de desenvolvimento, em que as duas partes se iludem com o mesmo fervor e se perdem na mesma irrelevância. Tirando a má-fé, a que por situação e profissão em geral não escapam, acabam ambas num vácuo, que meia dúzia de tecnocratas se esforçam por disfarçar com uma conversa esotérica para iniciados. Ainda por cima, a “zona euro”, como já abundantemente se provou, favorece os fortes e conserva os fracos na usual miséria. Paul Krugman, de que a esquerda tanto gosta, ganhou um prémio Nobel por explicar essa evidência. Na Europa de hoje, Portugal, como o sul de Itália (o antiquíssimo Mezzogiorno), será perpetuamente uma região esfolada e desprezada, sem esperança de regeneração. Não admira por isso que, na ausência de uma clara concepção do Estado e do seu papel e de uma clara visão do estatuto e possibilidades de Portugal na Europa, António Costa reverta a ilusões, sem fundamento nem desculpa (...). Ainda julga que irá negociar o nosso desastroso estatuto. Mas ninguém irá negociar com ele. As coisas são o que são; e faz pena assistir ao naufrágio de um homem em quem os portugueses passageiramente confiaram.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

 

Foto: Ephemera

Fazer de conta

João Gonçalves 8 Fev 15

 

À semelhança de Franco e Salazar, Costa e o seu homólogo espanhol encontraram-se em Badajoz. E Costa, tal qual Seguro, vai ao rendez-vous socialista paralelo ao Conselho Europeu da próxima semana onde não abundam primeiros-ministros socialistas. Tudo isto faz parte de uma "estratégia" conhecida no mundo profano por "fazer de conta". Desde que ganhou o PS, Costa anda a fazer de conta que tem uma "alternativa" e que, além disso, é a "alternativa" e que tem "ideias" evidentemente melhores, claras e distintas, das da coligação governamental.  Este cartesianismo partidário é quase tão recomendável como o do seu pai filosófico: pouco. Costa não é uma alternativa ao "arco da governação", nem sozinho nem acompanhado. É uma peça da mobília como outra qualquer, com os mesmos defeitos e virtudes, apenas disponível para esperar praticamente sentado que o poder - mesmo o relativo e bem longe das megalomanias de Maio de 2014 - lhe caia em cima da mesa. Tem sido essa, aliás, a "ambição" de todos os que o antecederam no referido "arco" desde pelo menos este milénio. O que, mais tarde ou mais cedo, os acaba por revelar.

Um erro

João Gonçalves 30 Jan 15

 

O dr. Costa mal apeou o dr. Seguro, substituiu a liderança parlamentar do PS por Ferro Rodrigues. O antigo secretário-geral é uma sombra daquilo que representou, mal ou bem, no princípio da década. Obteve um resultado honroso, depois de Guterres, contra Barroso e ganhou-lhe umas europeias. Zangou-se com Sampaio e bateu galhardamente com a porta. Com a emergência de Sócrates, Ferro voou até Paris onde foi um apagadíssimo embaixador na OCDE. Com a queda do "socratismo" regressou a deputado e a vice-presidente do parlamento. Não se distinguiu especialmente a não ser na intendência partidária ao ser dos primeiros a declarar o seu acrisolado apoio a Costa contra Seguro. Costa devolveu a gentileza oferecendo-lhe um lugar que já tinha sido seu quando Ferro mandava no partido. Acontece que o tempo, esse cruel escultor, é impiedoso. A "imagem" do ersatz do secretário-geral do PS na AR é a de um homem fatigado que lê umas fichas, sob a forma de discursos, sem rasgo, entusiasmo ou convicção. É evidente que a "sorte" do PS me é indiferente. Mas ao próprio PS não deveria ser uma vez que aspira o poder daqui a uns meses. Se ainda não perceberam que a escolha de Ferro para líder parlamentar foi um erro, arranjem quem lhes explique porquê,

«Quem é ele?»

João Gonçalves 3 Out 14

«O país não o conhece. Segundo Marcelo Rebelo de Sousa, era um brilhantíssimo aluno na Faculdade de Direito. Depois trabalhou no escritório de advogados de Jorge Sampaio, Vera Jardim e Júlio Castro Caldas. E a seguir (suponho) na Assembleia da República. O que não o distingue dos milhares de indivíduos da classe média e da idade dele que tentaram a mesma carreira. Esta bagagem típica e ligeira mostra só a superfície do homem. Para falar francamente, e tirando o seu desatinado amor pelo PS, não há maneira de apurar o que ele pensa: sobre a situação da Europa e do mundo, sobre a farsa da reforma do Estado, sobre a dívida e o défice, sobre a educação e a saúde, sobre a Segurança Social e por aí fora. Por mim, e sem maldade, desconfio que muito bom português votou num buraco. Seja como for, António Costa talvez se pudesse revelar (e é de uma revelação que no fundo se trata) através da gente que goza da reputação (neste momento invejável) de o ajudar e aconselhar. Acontece que os jornais trazem umas dezenas de nomes, mas nem um único tem uma reputação nacional e, com meia dúzia de excepções, quase todos seguiram a via-sacra, que o próprio Costa no seu tempo seguiu: partido, adjunto (ou assessor), uma freguesia qualquer, uma ignota secretaria de Estado e expedientes do estilo, perfeitos para provar a “fidelidade” ao “chefe” e para o servir. As “primárias” substituíram o deserto que rodeava Seguro por outro deserto, que não animará o país daqui a três meses.»

Vasco Pulido Valente, Público

Back to basics

João Gonçalves 28 Set 14

Pouco depois das vinte horas, na RTP, o primeiro socialista a celebrar a anunciada vitória de A. Costa nas "primárias" do PS foi José Sócrates, antecipando-se ao putativo vencedor. Assim sendo, é o regresso de um "clássico" - que nunca deixou de estar presente - ao "clássico" da política portuguesa das últimas décadas: supremacia de um "sistema" que é transversal a todo o regime, nas suas manifestações políticas, económicas, sociais, culturais e, sobretudo, comunicacionais para seguir os termos canónicos. Não faço a menor ideia, nem me interessa, aliás, como é que A. Costa vai conviver com o "sistema" interno e externo que o apoiou e que não deixará de reclamar oportunamente os seus direitos. Mas é disso, sobretudo, que vai depender ele "crescer" dos militantes e dos simpatizantes para o país e obter, não a maioria absoluta (nem ele nem ninguém lá vai), mas a proeminência da praxe para mandar nisto. Lamento que uma pessoa decente e séria como o António José Seguro - mais uma - saia de cena. Mas, como Jorge de Sena pergunta na epígrafe deste blogue, «se as pessoas têm a vocação de criado, se as pessoas têm a vocação de escriba, por que é que não hão-de ser criados e não hão-de ser escribas?»

 

Adenda: Escrevi isto antes do A. J. Seguro falar. Digno e sério, como referi, foi embora sem mais. Fez bem. A "mesmice" aos mesmos rapidamente e em força.

 

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