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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O CAIXA

João Gonçalves 5 Jul 10


Gabriela Canavilhas, a cangalheira da cultura, foi forçada a deixar entrar a realidade no seu ministério. Realidade significa cortes. E cortes é uma coisa que a subsidiodependência "artística" não sabe o que quer dizer. Vai daí, organizam uma "assembleia das artes" para tomar uma posição. Como se ganhassem algo com isso. Um artista que está à espera que os impostos dos outros paguem as suas evanescências - sobretudo os independentes o que representa, desde logo, uma contradição nos termos - é menos do que um artista. É, adequadamente, um oportunista. Por que é que há-de ser o Estado a suportar os delíquios supostamente artísticos deste ou daquela? Para que é que servem as fartas fundações "culturais" das empresas quase públicas e dos bancos? O Estado tem prioridades e responsabilidades específicas, a saber, a preservação do património material e imaterial do país. O ministério da cultura não pode ser "o caixa" permanente de artistas sempre por vir. Cabe-lhe preparar, porventura, uma alternativa a si mesmo nesta matéria. Canavilhas entrou sentada ao piano que já não frequentava há um tempo. e que tomou pela caixa de Pandora. Tocou o impensável para impensáveis. Agora amanhe-se.

9 comentários

De Anónimo a 05.07.2010 às 12:01

O que "sempre" se admirou nos artistas - "sempre" é desde há 200 anos para cá - foi a sua independência dos poderosos e a sua liberdade individual; desde o romantismo que é condição para ser artista viver num certo estado de penúria e incerteza. Isto são estereotipos - porque de facto aconteceu com uma boa dúzia de nomes que fizeram história; na música, na pintura, nas letras etc.
Evidentemente os patronos e poderosos - felizmente - nunca deixaram de existir e sustentar alguns artistas. Entre a morte de Beethoven e meados do séc. XX muita coisa aconteceu. Mas para abreviar podemos dizer que o actual estado de coisas é a existência de legiões de parasitas que um dia acharam - e com eles os ministérios analfabetos - que podiam ter a carteira profissional de artista; ter "um papel" a dizer que são criativos. Foram gastas quantidades obscenas de dinheiro, ao longo de décadas, sem que a humanidade avançasse um milímetro. Foram portanto fabricados, de noite e num harmazém escuro, milhões de artistas. São uma classe social. Como as cabeleireiras. Regradinhos, organizadinhos, com despesas, com custos, com sindicatos, com contas do gás. E tudo isto - os artistas - para fazerem frente aos poderosos e expressar "sentimentos" (!...). Pois agora que são uma classe social, aguentem os cortes no orçamento - como os calceteiros aguentam, vendo os seus martelos descer de qualidade e quantidade. Koltura.

Ass.: Besta Imunda

De floribundus a 05.07.2010 às 14:00

deitou os foguetes
agora apanham as canavilhas

De Alves Pimenta a 05.07.2010 às 14:18

Gostava que me indicassem uma obra de mérito - uma só! - produzida por qualquer dos sujeitos (invariavelmente de esquerda...) que, ao longo dos anos, têm vivido à sombra do chamado subsídio para criação literário/artística.
Convinha também a publicação da lista dos beneficiários.
Vamos lá ver se alguém aceita o repto.

De Manuel Pessanha a 05.07.2010 às 14:28

Cresci e eduquei-me a acreditar que ser Artista – pintor, escultor, escritor, poeta, compositor, actor, quem toca um violino com o arco da alma ou um piano com os dedos dos Deuses, quem canta e nos faz desejar a sua voz, presente do acaso e do sublime – era um dom de Deus, um toque de Infinito que os fazia diferentes para seu prazer e um pouco de imortalidade e benefício dos outros, dos que não tinham outro talento além de se esforçarem por ser um pouco melhores naquilo que faziam. Cresci a admirar essa gente, que tinha escrito, ou composto, ou cantado porque Deus não os deixava ser outra coisa senão mensageiros de Infinito. Viviam como podiam e, do que eu sabia, geralmente mal. Suportavam Papas autoritários, como Miguel Ângelo, mecenas benevolentes, como Haydn ou Beethoven, mas faziam o que queriam – inclusive mandar à fava os mecenas se eles os chateavam para lá da marca. Se escreviam, era naturalmente contra o poder ou os (maus) costumes – e pagavam às vezes com a prisão ou o exílio a independência da palavra. A mão de Zola não lhe tremeu ao escrever o J’accuse e por o ter escrito contra o poder no poder foi passar uns anos a Inglaterra. Victor Hugo esteve de férias nas Ilhas do Canal porque Napoleão III não o queria em França. Enfim, para mim, ser Artista, para lá de cada talento particular, era ser Diferente e Independente e, naturalmente, sofrer as consequências: umas vezes, ter pouco dinheiro e outras nenhum, e aguentar verticalmente as dificuldades se a Independência e a Diferença os levavam para onde se calhar não tinham desejado ir. Mas iam...
Hoje tenho de mudar o meu conceito de artista. Já tive de mudar tantos, desde há 30 e tal anos para cá, que cada vez me custa menos por fora – e me dói mais por dentro. Dantes pensava que o corolário natural de uma carreira política era chegar a estadista; hoje sei que é mais o de chegar a vigarista e ladrão do erário público. Ou seja, dos que pagam impostos. Parece que ninguém se preocupa com isso: o que é preciso é votar no partido como quem é do Benfica, por fé cega e obtusa.
E artista, hoje, quer dizer aldrabão e pedincha. Não pinto, não escrevo, não componho mas quero um subsídio para o whisky no Procópio e o jantar no Gambrinus. E pago com lisonjas e joelho no chão ao poder que me compra.
Isto deixou de ser um País para ser apenas um território. Deixou de ser um Povo para ser uma população. E cheira a cano de esgoto…

De Anónimo a 05.07.2010 às 14:39

Essa mulher tem poder para o comer vivo, Dr. João Gonçalves.

De vasco a 05.07.2010 às 21:24

^ olha um cobarde (o anónimo das 2:39... deve ser o fdp do "respeitinho")

O problema da cultura (com minúsculas) é maior do que achar que eu, que trabalho das 9 às 6 para ganhar 1000 euros, não tenho nada que andar a subsidiar gente que não gosta de horários e que faz coisas para o seu umbigo à custa dos outros - o que não deixa de ser verdade...

O verdadeiro problema é que andamos a subsidiar gente que não faz nada de jeito e copia tudo de fora. Gente que não inventa nada. Andam há 30 anos a fazer filmes sobre a merda do Ultramar que já não interessa a ninguém - a não ser à conversa mole da esquerda (nem eles sabem bem porquê) -, a dizer que somos todos iguais, que os pobrezinhos até são boas pessoas e sei lá mais o quê e o diabo a sete. Ninguém faz nada que mereça um apoio de 100 contos e isso é a porra do problema. Nem sequer arriscam em trabalhos experimentais - vai sempre tudo para os temas sociais e para os pobrezinhos... Andamos a patrocinar telenovelas?

A criatividade nasce do azar e da dificuldade. Não das costas quentes e da conversa mole da esquerda que já é sabido que vende sempre uma lágrima.

Acabem com o MC. Os "artistas" que se DESENRASQUEM. Que inventem. Que deêm o melhor de si. Que façam por ser extraordinários e merecer qualquer coisa. Isso é a Arte. O que vinga por si próprio.

Quem não quer que se faça à vida. Não há "artistas profissionais" - esse não são artistas.

De vasco a 05.07.2010 às 21:50

Outro problema é o Conceptualismo - essa ideia pretensiosa e estúpida de que os artistas são filósofos e devem ter um sistema de pensamento. Mozart estava-se a borrifar para o pensamento e fez da melhor música clássica até agora; Beethoven foi o extremo da relação saudável entre a música e as ideias e fez música extraordinária sobre um conjunto de banalidades; Wagner foi um tradutor de poesia, sobrevalorizado pelo uso de trombetas; Schubert apenas tranpôs o brilho e a sombra que já está no mundo; Schönberg era um homem obcecado com o destino que provou que a desconstrução nunca passa de construção; Steve Reich conduziu taxis até aos 40 anos e de repente, na monotonia de Nova Iorque, fez umas fases de guitarra eléctrica que definiram os limites da música contemporânea e que ainda hoje ninguém percebeu (nem ele), a não ser um pianista chamado Herbert Hencke, que fez o contrário e provou a validade da demiurgia - como o velho Camden da poesia inglesa que extraía leite das vacas.

Andamos a subsidiar o quê? Gente de capelinhas, que não inventa nada.

Estava para dizer: pensem, mas o que verdadeiramente estou a dizer é para fazerem sem pensar.

De Anónimo a 05.07.2010 às 22:04

Viva João.

Estive a assistir aos Jornais das "nove" e todos se foram "HÁ cultura".

Confirma-se o "Eu levo no pactote", mesmo por quem é Director Geral - Rui de Carvalho. A coisa está mesmo "PIMBA"~.

A

Rui

De javali a 05.07.2010 às 22:30

Todos os melhores músicos, pintores e desenhadores (para não falar dos melhores escritores), passaram pela indigência física. Quase todos os artistas definitivos passaram pela morte social. Os que vivem no conforto dos holofotes e do patrocínio nunca fizeram nada de jeito e raramente dão mais que uma nota de rodapé.

O que é contrário ao Conhecimento, curiosamente. Kant só falou do sublime externo ou lá que merda é aquilo porque nunca levou nos cornos, não teve patrões nem pagava IRS. Nunca nenhum pobre ou funcionário público fez uma filosofia de jeito. Quando muito, dá para uns bons poemas.

É a própria condição da reprodução que responde for estes factos, diriam os mais espertos - mas isso não chega. Como diria o nosso Oscar Wilde, que foi cabeleireiro e nunca pediu nada a ninguém, o truque, o truque, o truque está na Vontade.

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