
Não fui lá nem apoiei as manifestações de ontem. Mas concordo com o
José Manuel Fernandes uma vez a coisa passada e depois do "momento conselheiro Acácio de iPad na mão" do
J. Pacheco Pereira, agora quase tão empenhado em "segurar" o regime como o seu "colega" Costa, da
sicn. «
Desceu à rua um Portugal farto de tudo isto. Farto por boas e más razões, mas sobretudo farto. Desceu à rua um Portugal que quis fazer qualquer coisa, mesmo que não saiba muito bem como as coisas podem ser diferentes. Desceu à rua um país inorgânico mas, no essencial, ordeiro e respeitador da democracia. Desceu à rua um Portugal algo desesperado mas não revolucionário. Desceu à rua um Portugal que gostou de verificar que não está totalmente alheado da coisa pública. (...) JPP, que também faz parte da “classe política”, também entendeu seleccionar umas fotografias em que alguns manifestantes empunham cartazes contra os políticos, talvez para provar a sua tese sobre o carácter anti-democrático da manifestação. É uma selecção tão ridiculamente lateral que só pode ser contraproducente e ter como efeito que os que poderiam ouvir JPP passem a mudar de canal quando ele aparecer a falar. Para além de que não é honesto – acho mesmo intelectualmente desonesto fazê-lo depois daquilo a que assistimos ontem – querer fazer querer que o imenso “basta” de ontem se dirige contra a democracia. Para vacuidades e preconceitos já basta o Miguel Sousa Tavares e o Mário Soares.»
Passada a ironia, que se aplica a alguns destes "deolindos", parece que tarda a perceber-se o óbvio: Esta geração está tramada devido à queda do muro e ao fim da guerra fria. Explicando melhor: Quando, em 1985, se começou a falar da adesão à CEE, do facto de essa adesão ir fazer colapsar toda a nossa indústria, dizia-se à boca cheia que "não há problema com isso. Os alemães, americanos e ingleses vão sustentar-nos o tempo que for preciso para evitar que caiamos, por via eleitoral, na órbita soviética". Até podia ter alguma lógica: esses países pagavam o nosso super consumo com o facto de não votarmos sem ser no centrão e de importarmos tudo o que consumíamos. É um pouco como dizer a alguém: "Desde que não sejas chato, eu sustento-te". Com isso foi possível fazer crescer o monstro da despesa pública, com quase toda a gente a depender do estado e este a depender de outros estados; com pedir dinheiro barato aos bancos que estes, por sua vez, pediam aos bancos estrangeiros.
Ora agora (aqui é que está a merda para esta geração) já não há papão, já não há receio que Portugal caia na órbita de ninguém. Mesmo que o PC ou o BE ganhem eleições vão pedir dinheiro a quem?
Mais uma vez é como "já não és um perigo, agora desenrasca-te".
Entretanto os maus hábitos estão instalados e as alternativas são quase nulas.
Infelizmente, em 1985/86, foram poucos (políticos e povo) que imaginaram o futuro como o presente é.