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portugal dos pequeninos

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ANTES QUE ANOITEÇA

João Gonçalves 3 Out 06

O Tomás</span> </span></span></span></span></span></span></span>comprou o "Antes que anoiteça", do Arenas, no aeroporto de Madrid, a caminho de Cuba. Eu lembro-me de estar a ler a tradução portuguesa, da Asa, num comboio pré-Alfa Pendular entre Lisboa e Coimbra, em 1995. Em Junho desse ano, tinha ido a Cuba pela primeira vez e regressaria para o Natal e Ano Novo. Foi, aliás, no dia de Natal desse ano, passado numa Havana absolutamente tropical, que um rapazito, daqueles que perseguem os "turistas" por todo o lado na esperança de levarem qualquer coisa para casa, e a quem eu recusei dar fosse o que fosse (o meu mau feitio vai sempre na bagagem), me pôs o braço pelos ombros e me disse, com a altivez improvável da sua infelicidade, e num espanhol "acubanado" perfeitamente perceptível e sábio: "tu não és mau, o que estás é amargurado". Como católico, o tal mezzo credenti do Vattimo, poderia assumir que, sob a forma daquele menino pobre de olhar luminoso, o Filho do Homem me tinha vindo dizer qualquer coisa, ao sol escaldante de um Natal diferente. Desgraçadamente esse breve desconhecido conheceu-me melhor, em segundos, do que eu, numa vida inteira, jamais me hei-de conhecer. Nesse mesmo dia, na praça da Catedral de Havana, comprei na rua livrinhos "proibidos" pelo regime, que me foram exibidos discretamente num piscar de olhos, justamente por causa de já ter lido as "memórias" de Arenas. De facto, há quem cite Arenas supostamente a crédito de coisas em que ele nunca acreditou. De Cuba ao exílio nos Estados Unidos, Arena manteve, mesmo na doença e no tremendo sofrimento interior que levou na bagagem, a lucidez. Bem anda o Tomás quando o cita: "A diferença entre o sistema comunista e o capitalista é que, embora ambos nos dêem um pontapé no cu, no comunismo dão-no-lo e temos de aplaudir, e no capitalismo podemos gritar; eu vim para gritar." Eu gostava que aquele menino do dia de Natal de 1995, que desapareceu, como tinha aparecido - com um pontapé no cu numa ruela suja de Havana - e, hoje, já seguramente um homem adolescente, pudesse vir, aqui e agora, dizer-me o mesmo.
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9 comentários

De MAM a 03.10.2006 às 23:46

JG, vou-te deixar aqui um poema, Exorcismo, para te aquietar esse espírito, sempre em remoinho, e desejar que dês passos em frente. Sei que vais voar, apaixona-te pela luz e pela cor da cidade e no Domingo exorciza a tua melancolia, rezando baixinho. Aqui vai, com amizade.

Exorcismo
Hoje,
não quero sonhos nem cadeias,
nem saber para onde vou ou donde vim.
Se a vida foge,
seja o sangue que palpita em minhas veias
a mandar em mim!

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