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portugal dos pequeninos

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«O populismo católico»

João Gonçalves 31 Mar 13



«Coisa estranhíssima num país católico, ou que se diz católico, quase ninguém discutiu a política do novo Papa, já mais do que evidente. E essa política é importantíssima para a América e para a Europa, onde a Igreja passa pela sua mais grave crise de sempre. A maioria dos católicos aproveita da Igreja o que lhe convém e rejeita o resto. A doutrina ortodoxa foi substituída por uma mistura de crenças, variável e muitas vezes contraditória, que se adapta melhor ao estilo de vida ocidental, não incomoda os crentes no dia-a-dia e sobretudo não impõe a mais leve proibição ao que eles querem pensar ou fazer. Um católico pode hoje, por exemplo, aprovar os contraceptivos, como pode ser a favor da homossexualidade e do casamento homossexual, sem qualquer dor ou distúrbio de consciência. Nestas matérias, o Vaticano passa por uma instituição obsoleta e anquilosada, cuja intransigência se não deve levar muito a sério. O Papa Bento XVI, um velho professor de Teologia Dogmática, insistiu em relembrar os fundamentos da doutrina e em reconstituir, na medida do possível, uma tradição ignorada e, agora, crescentemente desprezada. Não chegou longe, impedido pela indiferença geral e pela resistência interna e externa, que pouco a pouco o isolou. Quando saiu, o seu pontificado estava sem destino. O Papa Francisco resolveu seguir outro caminho. Sendo - como o seu nome indica - um franciscano, pensa manifestamente em reconstruir a Igreja de baixo para cima. Daí a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa a que ele mesmo conseguiu chegar: não aceitou os sapatos da convenção, recusou o apartamento (suponho que magnífico) que era o dos papas desde o princípio do século XX e escolheu para ele uma hospedaria de padres num canto do Vaticano. Outros gestos como estes não tardarão a vir com o propósito transparente de surpreender e mobilizar o "povo de Deus". O franciscanismo foi na sua origem um movimento popular, que pretendia reconduzir a Igreja à sua pureza primitiva. Este Papa também não se interessa muito por batalhas teológicas, o que lhe interessa é reconquistar as massas, perdidas no ateísmo e na heresia, para o catolicismo: e a sua vocação para o espectáculo irá com certeza mudar a face da Igreja. Mas sem nenhuma concessão no essencial. O Papa Francisco acredita no Diabo e acredita que o Diabo está por detrás das desordens de que os verdadeiros crentes sofreram a partir de Pio XII. E, além disso, o Pai da Mentira é um inimigo familiar.»

 

Vasco Pulido Valente, Público


Nota: Vários leitores "indignaram-se" por VPV se ter referido a Francisco como franciscano e não como discípulo de Santo Inácio. Não sei se é um lapso mas isso só o próprio pode esclarecer. Para além disso, "franciscano" também pode querer dizer o que VPV escreve a seguir, isto é, "a insistência na humildade, no amor à Criação, na fraternidade humana e na pobreza relativa". E não tanto a pertença à respectiva ordem. Mas, para usar um novo uso filológico e substantivo facultado recentemente pelo serviço público de televisão, o que aqui importa é a "narrativa" e menos os detalhes. Não é o que toda a gente aplaude?

5 comentários

De observador labrego a 01.04.2013 às 00:38

Com o devido respeito, pergunto: "Não foi sempre assim?"

E mais acrescento: "Quando foi formalmente diferente disto, não sucedia que o Direito Religioso (duma religião) estava vertido para o Direito Civil do Estado (que tem de gerir várias religiões)?

De xico a 01.04.2013 às 09:43

A visão de VPV é sempre admirável. Mas também me admiro que escreva coisas como: "onde a Igreja passa pela sua mais grave crise de sempre".
Só alguém ignorante de história e da história da Igreja, poderia dizer semelhante coisa. VPV não é esse ignorante. Resta-me pensar que se distraiu ou foi atrás do mais inculto jornalismo que por aí grassa.

De Ana Vaz a 01.04.2013 às 11:19

Ao menos antes de comentar, aprendia algo... O Papa Francisco não é Franciscano... Se não sabemos a base, como podemos sequer comentar e criticar o resto????? Menos...

De Alblopes a 01.04.2013 às 11:46

Só um reparo. O Papa Francisco é jesuita!Pode e parece que é franciscano nos hábitos e na mentalidade que o domina e nos transmite, mas a verdade é que ele é e foi formado na escola jesuita, de Santo Inácio de Loyola!Esta a verdade!Quanto resto:desejo-lhe as maiores felicidades,pois já mostrou que é uma pessoa muito humana e com os pés bem assentes na terra!

De Isabel de Deus a 01.04.2013 às 15:53

Julgo que a acepção em que e usado o termo "franciscano" é a mesma da popular expressão "pobreza franciscana", podendo ainda realçar o respeito por toda a criação. Aliás, considero uma felicíssima aliança a do
Franciscanismo nessa acepção, com o espírito intelectual e moralmente superior que caracteriza os Jesuítas e que tantos engulhos tem causado aos espíritos positivistas que tendem a ver-se como senhores das luzes. A quem não conheça o filme "A Missão" aconselho o seu visionamento, ilustrativo daquilo de que um Jesuita é capaz e de como é curioso que um deles assuma hoje a chefia da Igreja Católica.
Quanto às esperadas inovações no campo doutrinário, parece-me absurdo esperar de qualquer Papa que aprove o aborto, a eutanásia ou o casamento gay. Já o lava pés incluindo mulheres me parece significativo, no sentido em que poderá finalmente abrir a metade da população o reconhecimento tardio de uma dignidade óbvia.
P.S.Quanto à "narrativa"e ao papagaio que a usa como bordão ( uma espécie de cábula repetida até à náusea, pretenderá certamente envernizar uma grosseira vacuidade. E mais: alguém imagina o dito papagaio a ler a Divina Comédia? Rui Ramos assina no Expresso desta semana um artigo notável sobre a criatura.

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