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Um legado de verdade

João Gonçalves 12 Fev 13

 

Nas últimas 24 horas, uma catrefada de videntes e anacoretas apareceu a glosar a renúncia papal em nome da "ditadura das opiniões". Contra ela insurgiu-se oportunamente Bento XVI: «não se vergar perante a ditadura das opiniões, mas antes agir a partir do conhecimento interior, ainda que isso traga aborrecimentos.» Também existe a vertente "apostas" com clara vantagem para o correcto político-religioso (um Papa mais "jovem", mais "aberto", mais "multicultural" e outros disparates afins). Infelizmente a nossa Igreja, na pessoa do porta-voz do Conselho Episcopal, mostrou-se atrapalhada no comentário e apressada nos "desejos". Valeu a fala quase sempre avisada de D. Jorge Ortiga que daria, aliás, um excelente sucessor de D. José Policarpo à frente dos destinos institucionais da Igreja doméstica. Neste contexto tagarela, fui reler o livro da foto que recomendo aos conspícuos "especialistas". Constança Cunha e Sá, na tvi24, talvez tenha sido a boa excepção a esta cacofonia ignorante, tal como Francisco José Viegas ou Armando Pereira no Correio da Manhã e Henrique Monteiro no Expresso online. Em resumo, há décadas que Ratzinger avisa a Igreja para se preparar a viver em ambiente minoritário, porventura mais a pensar no espírito do que no número embora o número pesasse na reflexão. Em Luz do Mundo, Bento XVI evidencia isso mesmo quando compara a "religiosidade"europeia (em declínio como a própria "ideia" de Europa) com a crescente adesão ao catolicismo fora da Europa. A Igreja deve ajudar a «encontrar novas palavras e novos meios para possibilitar ao homem a ruptura com a finitude» dentro da verdade, uma palavra-chave do magistério deste Papa. E a verdade comporta o escândalo da Cruz - «a Igreja, o cristão e sobretudo o Papa têm de ter consciência de que o testemunho que têm para oferecer vai ser escandaloso, não vai ser aceite, e que isso os vai remeter para a situação da testemunha, do Cristo sofredor» - uma vez que «a fé cristã constituiu-se como contraponto a um novo desenvolvimento social, de modo que passou a ter de se opor repetidamente a poderosas opiniões triunfantes» o que obriga a «suportar a hostilidade e oferecer resistência». E aqui, o Papa é muito claro, em 2010: «Tenho confiança em que o bom Deus me dará a força de que preciso para fazer o necessário. Mas também noto que as forças vão cedendo.» É em nome da verdade («é o valor número um») que afirma claramente que, se o consenso fosse total em torno do seu pontificado, «teria de me interrogar seriamente se estaria, realmente, a anunciar o Evangelho todo.» É em nome da verdade que sustenta que «a vontade política não consegue ser, em última instância, actuante se não existir em toda a humanidade - e principalmente nos sustentáculos do desenvolvimento e do progresso - uma nova e aprofundada consciência moral, uma disponibilidade para a renúncia que seja concreta e que se transforme, para o indivíduo, na medida de valor da sua vida.» É em nome da verdade que combate a "ditadura do relativismo", «uma religião negativa abstracta que se transforma em critério tirânico e que todos devemos seguir», a qual, por consequência, constitui um perigo, i.e., «o perigo é que a razão - a chamada razão ocidental - afirma que reconheceu agora o que é verdadeiro, e apresenta uma pretensão de totalidade que é hostil à liberdade» já que «ninguém é obrigado a ser cristão». Mas, continua o Papa, «ninguém deve ser tão-pouco obrigado a viver a "nova religião" determinada como única e obrigatória para toda a humanidade.» A afirmação de Deus sofredor é algo que não ataca ninguém. Pelo contrário, os «processos de destruição extraordinários que nasceram da arrogância e do tédio, bem como da falsa liberdade do mundo ocidental», sim. Por isso é fundamental «compreender o dramatismo da época e guardar nela a palavra de Deus como a palavra decisiva, dando simultaneamente ao cristianismo a simplicidade e a profundidade sem as quais não pode actuar.» O grande ensinamento de Ratzinger, o teólogo e o filósofo, reside em chegar à verdade pela razão, aquilo que fez com que passasse para primeiro plano do seu pontificado "a luta pela unidade entre a fé a a razão".  «Continua a ser a grande tarefa da Igreja unir a fé e a razão, o olhar para além do tangível e, ao mesmo tempo, a responsabilidade racional, pois elas foram-nos dadas por Deus. É isso que distingue o ser humano.» Finalmente, um olhar céptico e realista para dentro da própria Igreja, para a "condição humana" da Igreja, que fará parte indelével deste legado de verdade de Bento XVI. «O Mal pertencerá sempre ao mistério da Igreja. Se olharmos para tudo o que os homens, e nomeadamente o clero, fizeram na Igreja, temos aí verdadeiramente uma prova de que Ele fundou a Igreja e a sustém. Se ela apenas dependesse dos homens, há muito que já teria perecido.»

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