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portugal dos pequeninos

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A ideia de "língua"

João Gonçalves 28 Dez 12

 

Sou visceralmente contra o acordo ortográfico de 1990 que o Brasil acabou de adiar até 2016. Por cá, fomos logo a correr num triste exercício voluntarista desprovido de um módico de reflexão sobre a coisa. Das editoras aos textos oficiais, o português acordográfico "entrou em vigor" quando, na realidade, nada estava verdadeiramente em vigor. Há pessoas bem mais qualificadas do que eu que têm explicado isso sem tergiversações. É o caso de Miguel Tamen em Abril deste ano. «Não é só legislar sobre a língua que é tonto, é imaginar que leis sobre a língua possam ter efeitos. Legislar sobre a língua é o mesmo que legislar sobre a virtude. Imagine um decreto-lei que estipule que, a partir de agora, os pecados são proibidos. Como é que isso se põe em prática? (...) As palavras cuja grafia sofre alteração tendem a aparecer concentradas em determinados contextos. De repente, vemos proliferar num ecrã de televisão palavras como “espetadores” e “atuais”. Ocorre-me a descrição de um fragmento muito conhecido de Fernando Pessoa no “Livro do Desassossego” que nunca é citado no seu conjunto. A primeira parte é “Minha pátria é a língua portuguesa” e o resto deste fragmento diz “Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa própria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ípsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse”. (...) Da perspectiva liberal, é certo que entendo, como os liberais, que o Estado não deve legislar sobre a língua. Mas a razão porque assim entendo não é porque ache que seja uma imoralidade intrínseca fazê-lo, mas porque não são necessárias leis onde existem costumes satisfatórios. É uma defesa daquilo que é familiar.»

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