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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

«A mão no saco»

João Gonçalves 28 Set 12

«Uma pessoa entra no mundo das fundações (de qualquer género) e fica estupefacta com a desordem e a estranha ambiguidade a que ele chegou. Que se trata de meter a mão no saco do Estado e no bolso do contribuinte: nenhuma dúvida. Mas não se esperava os requintes de invenção e tortuosidade da coisa. O assunto, em que a imprensa mal tocou, merecia um livro de mil páginas não um artigo de 30 linhas. Comecemos pela Gulbenkian (pedindo desculpa a Artur Santos Silva que só lá entrou ontem). Mas quem me explica a mim por que misteriosa razão a Gulbenkian (que é uma das fundações mais ricas da Europa) recebeu do Estado, entre 2008 e 2010, 13 483 milhões de euros? E quem me dá uma justificação aceitável do facto inaceitável de a Gulbenkian continuar a ser uma "fundação pública de direito privado", em vez de ser, numa sociedade democrática, simplesmente uma fundação de direito privado, quando com o estatuto que tem agora o governo pode, quando quiser, "designar ou destituir a maioria dos titulares dos órgãos de administração"? E quem me explica a inexplicável existência da Fundação Caixa Geral de Depósitos (a Culturgest)? Não é a Caixa um banco do Estado? Não há no Estado uma Secretaria ou um Ministério da Cultura? Ou a existência da Fundação Batalha de Aljubarrota (que nos gastou desde 2008 a 2010, um milhão e 900 mil euros) dedicada a "reconstruir" (palavra de honra) o "campo militar" e as "circunstâncias" (não estou a inventar) desse memorável combate (que, de resto, a tropa inglesa ganhou por nós? Ou a da Fundação Navegar (800 mil euros no mesmo prazo), que pretende o "desenvolvimento cultural artístico e científico de Espinho"? Ou a Fundação Carnaval de Ovar (750 mil euros), que sempre foi, como se sabe, um acontecimento mundial? Ou dezenas de outras fantasias, quase todas sem o mais leve senso e todas sem o mais leve escrúpulo. Este espaço não basta para contar e analisar a história aberrante das fundações. Mas basta para dizer que o Estado (ou seja, a maioria dos governos democráticos) deixou crescer este monstro e o alimentou durante mais de 30 anos, sobre as costas  do cidadão que hoje resolveu patrioticamente espremer. E também chega para notar que os pretextos mais comuns desta razia silenciosa e prática, sempre invocada em tom indiscutível e beato, são dois, cultura e artes, com a ciência a grande distância. Isto é, as fundações servem fundamentalmente para recolher e sustentar a iliteracia e a ignorância indígena (por exemplo 13 672 funcionários nas fundações que Passos Coelho pensa fechar). E o que é que sucedia ao país se ele amanhã parasse de estipendiar esta turba sem nome? Nada, queridos portugueses, rigorosamente nada. E talvez, com isso, o governo adquirisse alguma confiança e dignidade.»

 

Vasco Pulido Valente, Público

 

Adenda de sábado, 29 de Setembro, por causa das patrulhas: «Fonte fidedigna garante que a Gulbenkian é uma fundação privada. A fonte oficial a que recorri, a própria "ficha de avaliação", garante que não. É a ficha, naturalmente, que está errada.» (Vasco Pulido Valente, Público) O trabalho de levantamento do "estado da arte" das fundações, a cargo da IGF, tem defeitos que foram evidentes desde o primeiro dia. Todavia, o fantástico mundo das fundações - e de outras coisas erguidas à sombra do Estado e dos contribuintes pelo regime - é uma realidade cuja gramática começou a ser decifrada a partir dali. O resto é a habitual conversa de chacha.

10 comentários

De Vasco a 28.09.2012 às 14:58

Nem mais. Essa dos +13,000M da Gulbenkian é uma surpresa para mim.

De domedioorienteeafins.blogspot.com a 28.09.2012 às 15:06

Se tudo o que VPV escreve é exacto, então assiste-lhe toda a razão.

De eirinhas a 28.09.2012 às 17:38

É tarde para estipendiar seja o que for.O governo já perdeu o tempo que não soube aproveitar e já perdeu o crédito que os muitos portugueses lhe deram.Eu fui um dos enganados que se convenceram de que,não tanto Passos Coelho,mas a estrutura e saber do Parido Social Ddemocrata iriam moralizar e tirar o País do atoleiro.

De Isabel de Deus a 28.09.2012 às 18:00

Só agora me parece começar a entender a razão pela qual o Ballet Gulbenkian foi extinto. Terá sido porque onde o Estado põe a mão, o Estado estraga? O sr. Calouste deve espernear na cova com tudo o que vai acontecendo na sua generosa fundação. Que terão feito aos famosos 5% da Gulf Oil? Só sei que nada sei, mas lamento profundamente aquilo em que essa fundação, em tempos minha segunda casa, se tornou: um antro de pseudo-intelectuais e não muito mais do que isso.

De karocha a 28.09.2012 às 19:14

Excelente JG.

De Vasco a 28.09.2012 às 23:23

Suponho que se refira às aspas? Foram muito bem colocadas.

De pEDRO a 29.09.2012 às 11:59

Julgo que é importante ler este esclarecimento:

http://www.gulbenkian.pt/index.php?article=3998&langId=1&format=402

Ah, a Gulbenkian é uma fundação privada de utilidade pública e não uma "fundação pública de direito privado".

VPV no seu pior, como quando afirmou que Clara Ferreira Alves não era licenciada.

De josé sequeira a 29.09.2012 às 12:01

Estive a ouvir (as coisas a que eu me presto) duas das "sumidades", no "Bloco Central" da TSF (Pedro Adão e Silva e Pedro Marques Lopes). Pois não é que suas excelências acham que extinguir as Fundações vai poupar "uma ninharia" com consequências terríveis para o bom povo. Só faltavam estes...

De Teofilo M. a 29.09.2012 às 20:15

13-000 milhões?!
Ó Vasco Pulido Valente e João Gonçalves, não andarão para aí zeros a mais?

De José Paulo Cabral a 30.11.2012 às 11:39

Pelo menos uma vantagem da "crise": remexer a areia e soltar o lixo do fundo. E o que fazer com o lixo? Assistir ao espectáculo não chega, nem o espectáculo é assim tão interessante! Há que fazer coisas, ajudar que se façam ou, no mínimo, apoiar para que se façam.

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