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portugal dos pequeninos

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Carta aberta a Mário Santos

João Gonçalves 6 Ago 12

 

Confesso, caro Mário Santos, ser destituído de "cultura desportiva". Nadei vagamente e, quando a ondulação o permite, nado no mar. Depois ando, não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para alcançar a mítica meia-hora recomendada pela mundialmente famosa dietista Isabel do Carmo. Não corro nem para apanhar um autocarro. Bebo chá verde e chá de folha de abacateiro, por vezes algum vinho tinto (oscila entre o copo e a meia garrafa), não fumo, como saladas e fruta, todavia suspeito que nenhuma destas actividades circum-escolares aumentem a minha "cultura desportiva". Não vou ao futebol todos os dias da semana, como é praticamente obrigatório de há uns anos para cá, seja a um estádio ou na televisão. Ver ciclistas à minha frente, quando conduzo, inspira-me invariavelmente os piores sentimentos. Dito isto, caro Mário Santos, de vez em quando espreito do sofá os jogos olímpicos. Agora menos porque as partes aquáticas acabaram ou estão a acabar e o resto, para ser honesto, não me interessa nada. É impossível, porém, não reparar no esforço nacional que o caro Mário tão edificantemente chefia. O grosso desse esforço traduz-se na chamada "técnica do quase-quase": quase chegou à meia-final, quase chegou à final, quase chegou ao terceiro lugar, quase apareceu, quase não caiu, quase não levou um enxerto de porrada, etc., etc. É evidente que "cultura desportiva" também será isto - esforço - e não exclusivamente penduricalhos exibidos ao peito. Mas o Mário sabe, e eu sei, que a "cultura desportiva", entre nós, é um complexo de interesses, de vaidades, de megalomanias e de casos de desinteressado empenho (também há) cujo "caldo" normalmente não se recomenda. A seguir vêm os paralímpicos e espero sinceramente que estas "dores" acerca da alegada falta de "cultura desportiva" da nação (se alguma "cultura" ela tem, e lhe cultivam, é a "desportiva" sobretudo na versão bola) não afectem a prestação. Porque os paralímpicos portugueses costumam arrecadar medalhas e sucessos que a "cultura desportiva" mediática ou ignora, ou relega para segundo ou nenhum plano. Um falhanço,  caro Mário, em qualquer parte do mundo, é um falhanço. E, acredite, também é uma forma de "cultura" como outra qualquer.

8 comentários

De pep a 06.08.2012 às 15:10

És mais um daqueles que nada fazem para melhor, mas fazem tudo para deitar abaixo.
Com que moral tens tu para exigires lugares aos atletas olimpicos?
So porque das umas braçadas na psicina e comes verduras?

Cala-te pá

De Costa a 06.08.2012 às 18:09

O autor não precisará que o defenda. Não tenho legitimidade para tal, nem sequer competência. Mas eu tenho uma "moral" que peço licença para apresentar: a moral de quem tem que ganhar mais e mais, para pagar mais e mais impostos e receber menos e menos do estado (o "e" minúsculo é deliberado). Pior: pagar esse mais e mais, ganhando menos e menos. A um estado absolutamente insaciável e que quando não tem para os seus vícios - e o que tem nunca lhe chega - paulatinamente recorre à extorsão com força de lei.

Esse estado terá financiado - com o meu dinheiro, pilhado em condições tão penosas, para mim, como as presentes - a ida dos "nossos" atletas aos J.O. (enfim, a ida dos "atletas portugueses"; ninguém me perguntou se eu queria que fossem e que fossem aqueles; para a primeira pergunta teria resposta, para a segunda, admita-se que não).

E se um desaire numa competição, na qual se participou de forma dedicada, inteira e em busca do melhor resultado, é sempre de aceitar, os inevitáveis "infortúnios" dos portugueses, nestas andanças, desde a antológica hora matutina de uma prova, até à sempre oportuna constipação na véspera, a perna (ou o que seja) que "se ressentiu" ou mesmo - e sublime inovação - a gravidez e seus efeitos, começam a ser inaceitáveis.

Somos de facto o país do quase: quase conseguiu, quase foi apurado, quase ganhou. Ou nem isso... Um "quase", digno sucessor das "constantes vitórias morais" de há umas, poucas, décadas. E, claro, se não se consegue é porque não há condições, investimento, etc.; quando se falha é porque foi demasiada a pressão dos portugueses sobre aquele pobre atleta naquele momento tão delicado.

Querem competir? E com os dinheiros públicos? Aceitem que a competição, por definição, tem momentos delicados, tem tensão, tem "stress". Se, objectivamente, não estão preparados fisica e psicologicamente para, ao menos, alguma dignidade como representantes de um país do Primeiro Mundo (ou já desistimos formalmente de o querer ser? Se calhar seria o mais sensato), tenham a decência de recusar participar. Para passear até Londres, por uns dias, há por aí - apesar da crise - uns pacotes turisticos ainda em conta.

Costa

Quanto à pressão dos portugueses: por amor de Deus, que eu lhes não seja pesado, estejam à vontade para ganhar, perder, o que for...

Costa

De fado alexandrino a 06.08.2012 às 17:53

A única coisa que eu queria saber era o ratio na "comitiva olímpica" entre atletas e dirigentes.
Aposto que é de 3 destes para 1 atleta.

De observador a 07.08.2012 às 00:35

Efectivamente, temo-nos de deixar destas "melomanias olímpicas" e pagarmos a Phelps que nos cá venha, só para elites, mostrar como se mergulha e nada numa .... tacinha!

De Lionheart a 07.08.2012 às 16:05

Em primeiro lugar, os jogos olímpicos ainda não acabaram, há atletas nas finais e por isso ainda é possível ganhar medalhas. Improvável, mas possível. De resto, as dores de muita gente têm a ver com o facto da Telma e do Marco, praticamente os únicos representantes de um certo clube, e que foram a cabeça de cartaz de determinados interesses comerciais (o BCP ainda não percebeu que o fulano ficou na "caminha" e já foi eliminado), tiveram uma participação no mínimo infeliz. Mas outros não. Deram o seu melhor e até se excederam. Agora, um país que não liga nenhuma aos jogos olímpicos (quantos portugueses estão a apoiar os atletas em Londres?), investe pouco no desporto (o que Portugal gasta para formar atletas para vencer é risível comparado com uma Holanda ou uma Nova Zelândia, nem falo nas grandes potências) e depois quer medalhas, eh pá, eu também queria muita coisa. Temos uns foras-de-série de vez em quando, como o Carlos Lopes, a Rosa Mota, a Fernanda Ribeiro, o Nelson Évora, ou importamo-los, como o Obikwelu, porque de resto, sucesso continuado é muito difícil em modalidades em que temos poucos praticantes. Mas pode ser que com um pouco de sorte ainda venha uma medalha para Portugal na canoagem...

De observador a 08.08.2012 às 01:02

A canoagem era bom. Como isto se está a fundar, pelo menos eles podem navegar e chegar a bom porto, ou à madeira ....

De karocha a 07.08.2012 às 16:27

Pois!!!
Eu sou uma,das pessoas que não percebe como se perde um combate de judo daquela forma e como não se alcança nada em natação...
Mas isso sou eu!!!

De Octávio dos Santos a 08.08.2012 às 12:26

Subscrevo inteiramente.

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