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"Os tempos são ligeiros e nós pesados porque nos sobram recordações". Agustina Bessa-Luís
João Gonçalves 1 Ago 12

Gore Vidal fazia parte da minha pequena paisagem privada há muitos anos. Talvez fosse o Joaquim Manuel Magalhães quem primeiro me falou dele a propósito de Myra Breckinridge. Não é possível "ler" os Estados Unidos da América, desde pequeninos ou mesmo antes de o serem, sem ler Gore Vidal: os romances e, sobretudo, os ensaios, as entrevistas, as polémicas. Nos últimos anos, Gore esteve literalmente em "perpétua guerra" com a América mas nem por isso deixou de ser mais patriota que muitos estúpidos que a governaram. Era o mais europeu dos intelectuais norte-americanos e viveu 32 anos em Itália. Participou em argumentos cinematográficos e representou um ou outro papel. Foi amigo de Kennedy - "afim" dele, ainda, por parte da mulher Jacqueline Bouvier - e apresentou-lhe Tennessee Williams, o "glorious bird", que lhe sussurrou que o Presidente tinha um belo cu. "The pursuit of happiness" esteve lá até ao fim tal como está inscrito numa Constituição simples que Vidal admirava. Quanto ao resto, não tinha grandes ilusões. Devemo-nos contentar com "satisfying lesser states, fragments" em vez de passar a vida atrás delas: "where there is no desire or pursuit, there is no wholeness". Vinha nas primeiras páginas do tomo um das memórias, Palimpsest, nunca traduzidas em português Em compensação, e mal, o segundo livro delas anda por aí numa tradução escarrável de Point to Point Navigation. «Para a Ágora, a Arte agora é som e imagem; e os livros estão fechados. De facto, a leitura, seja do que for, está em declínio. Metade do povo americano nunca leu um jornal. Metade nunca vota nas presidenciais - a mesma metade?"», perguntava de lá para cá como nós poderíamos fazer ao contrário. Com a morte de Howard Austen, em 2003, companheiro de 55 anos de vida, Vidal começou a seguir as indicações que conduzem à porta de saída ("everything is falling apart"). Deixou Ravelo e voltou para os EUA. O desaparecimento de Austen provocou-lhe uma anorexia que durou sensivelmente um ano. Como é que saiu disso, perguntaram-lhe. "Comi qualquer coisa". Por essa altura, Vidal dizia que nunca tinha tido «uma opinião excessivamente elevada do mundo» porque precisamente «o mundo não fez nada para mudar.» E num conto foi mais explícito. «As pessoas mudaram; tornaram-se hostis ou, no limite, perigosamente impessoais. Dou-me conta que talvez tenha mudado de tal forma que as vejo tal qual elas são, tal qual elas sempre foram. No entanto, é possível que aquilo em que reparei mais cedo fosse a realidade, e que aquilo que observo agora seja uma distorção inteiramente privada dessa realidade embora, e de qualquer maneira, veja o que vejo: hostilidade e perigo. Tenho consciência que a minha posição é exagerada e que há gente inócua no mundo e, bem mais importante do que isso, muitos idiotas.» Quando esteve em Lisboa, na Gulbenkian, no final dos anos 90, privei uns minutos com ele. Estava sentado num sofá, rodeado de "jornalistas" a quem ligava pouco ou nada. De pé, eu e uma menina da Faculdade de Letras que exibia um dos seus últimos romances sobre o qual ia "dissertar", esperávamos a graça de um autógrafo. Eu levava o meu Palimpsest com Vidal na contracapa quando tinha 25 anos. Ele sorriu, e com manifesta ironia, dirigiu-se-me por cima do ruído dizendo: "I still look the same". Tinha razão.
Primeiro tem de me explicar o que é isso do “desta...
obviamente nao é culpa do autor ter sido escolhi...
Estou de acordo. Há questões em que cada macaco se...
Fui soldado PE 2 turno de 1986, estive na recruta ...
Então António de Araújo foi afastado do Expresso p...
Supreendi-me, sinceramente, com a notícia!! Não por não ser notícia, a morte de um dos maiores por aquelas terras, mas, exactamente, por ainda ser, por aquelas terras, notícia, e com destaque!!
É tudo como bem diz (e dele foi dizendo, aqui) o caríssimo J. Gonçalves!!