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portugal dos pequeninos

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O preço que a vanguarda paga à tradição

João Gonçalves 28 Fev 12

O Manuel. S. Fonseca decerto não releva que leve post, título e tudo.

 

«De vez em quando, para dize­mos uma coisa, devia bas­tar ir bus­car uma pessoa. Imaginem que alguém qui­sesse dizer: van­guarda! Em vez de estar com mui­tas expli­ca­ções, iria bus­car Ezar Pound, mos­trava Ezra Pound, o jovem bigode negro de Ezra Pound, e sabia-se que era aquilo a vanguarda. Outros dirão que se podia ir bus­car Mari­netti ou Maya­kovsky, mas não esta­ria a dizer a mesma coisa, por­que teria o dedo mais apon­tado para a revo­lu­ção do que para a van­guarda, ou para mais futu­rismo e menos poesia. Nas­cido no Idaho, Ezra Pound nunca esteve grá­vido (e já vão ver a que vem o des­pro­pó­sito), mas da bar­riga dele nas­ce­ram pelo menos dois dos mai­o­res poe­tas de lín­gua inglesa do século XX: Yeats e Eliot. Não vou dizer mais a não ser que Ezra gos­tava de Camões e que escre­veu alguns poe­mas que foram cen­su­ra­dos. Este, “The Tem­pe­ra­ments”, só viu a letra impressa numa edi­ção pri­vada publi­cada nos anos 10 do século XX. Hoje lê-se e ouve-se em qual­quer lado.

 

Nine adul­te­ries, 12 liai­sons, 64 for­ni­ca­ti­ons and something appro­ching a rape
Rest nigh­tly upon the soul of our deli­cate fri­end Flo­ri­a­lis,
And yet the man is so quiet and reser­ved in deme­a­nour
That he pas­ses for both blo­o­dless and sexless.

Bas­ti­di­dis, on the con­trary, who both talks and wri­tes of nothing save copu­la­tion,
Has become the father of twins,
But he accom­plished this feat at some cost;
He had to be four times cuckold.


Que tra­duzo desa­jei­ta­da­mente assim, à espera de que o Ruy Vas­con­ce­los o faça num por­tu­guês e métrica decentes.

 

 Nove adul­té­rios, 12 aven­tu­ras, 64 for­ni­ca­ções e algo muito simi­lar a uma vio­la­ção
assom­bram todas as noi­tes a alma do nosso deli­cado amigo Flo­ri­a­lis,
e no entanto o homem é tão calmo, tão reser­vado no seu com­por­ta­mento
que passa por não ter nem san­gue nem sexo.

Bas­ti­di­des, pelo con­trá­rio, que só fala e escreve sobre a cópula,
converteu-se no pai de gémeos,
gló­ria a que che­gou pagando um preço;
teve de ser qua­tro vezes corno.


Quem tenham sido as duas figu­ras retra­ta­das, o Flo­ri­a­lis e o Bas­ti­di­des do poema, é o que eu não sei. Mas foram, crê-se, figu­ras reais. O pró­prio Pound, pai des­tas duas simé­tri­cas virilidades, confessa, numa carta, que Bas­ti­di­des era um conhe­cido autor e que o retrato lhe saira tão bem que até lhe doía não poder reve­lar a sua iden­ti­dade. Tanta reserva é, afi­nal, o preço que mesmo a van­guarda sem­pre paga à tradição.»

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