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portugal dos pequeninos

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Um retrato luso-francês

João Gonçalves 26 Jan 12

«Conheci José Sócrates em 1995, quando ambos integramos o governo liderado por António Guterres, ele como secretário de Estado do Ambiente, pasta então entregue a Elisa Ferreira. Mantive sempre com ele relações de regular e frontal atrito, a começar numa lista de nomeações que ele queria que eu, como ministro da Cultura, fizesse em Castelo Branco, e a acabar, como se sabe, com a minha recusa em aceitar que Portugal apoiasse para a liderança da UNESCO um facínora com largo cadastro que lhe tinha sido sugerido pelo seu "amigo", o então ditador egípcio Hosni Mubarak, que ameaçava queimar todos os livros da cultura judaica ... Pelo caminho, as fricções foram muitas e quase sempre do mesmo tipo.  Devo dizer que nunca vi em José Sócrates convicções socialistas - no sentido europeu de "social-democrata" - mas antes uma atração pela paródia em que infelizmente o socialismo tantas vezes se tem tornado, deslumbrado com o capitalismo financeiro, as novas tecnologias e os malabarismos da comunicação. Vivendo sempre perto do mundo dos negócios e dos futebóis, e desprezando acintosamente o conhecimento, a cultura ou a educação, com o mais perigoso dos desdéns, que é o que se alimenta do ressentimento e da inveja.(...) Em 2004, quando José Sócrates disputou com Manuel Alegre e João Soares a liderança do PS, escrevi o que pensava e avisei: "Tudo pode acontecer, mas seria grave que o PS pudesse ser conduzido por alguém que anda por aí com um currículo em parte surripiado, em parte escondido." (Público, 07.09.2004) Os socialistas decidiram o que entenderam e os portugueses escolheram o que pensaram ser melhor. Opções que, naturalmente, respeitei, com esperança que a responsabilidade do poder viesse a ter algum efeito benéfico. Foi uma esperança vã. A história fala por si, e dispensa comentários: o desnorte com o caso da licenciatura em 2007, a total incompreensão da crise em 2008, a aguda mitomania de 2009 e 2010, a bancarrota em 2011. Pelo meio, um tratado de Lisboa inútil, que só veio reforçar o poder alemão, e um reformismo esfarelado que raramente passou dos anúncios. Na grande história do Partido Socialista, o "socrazysmo" foi um período atípico, que deixou um longo rasto de oportunidades perdidas, de casos estranhos, de histórias mal contadas e de encenações inúteis. Em seis anos de governação nem tudo foi mau, e seria injusto esquecê-lo. Mas sejamos claros: foram anos sem alma, numa constante deriva de valores e de convicções. Não tirar daqui nenhuma lição seria, no mínimo, estúpido.»

 

Manuel Maria Carrilho, DN

8 comentários

De Marão a 26.01.2012 às 12:15

Tão culpado é o parodiante como quem ajuda á paródia.

De josé a 26.01.2012 às 13:11

Eu tenho muita dificuldade em compreender então o porquê de MMC ter aceitado a posição de embaixor na UNESCO. Se divergia assim tão claramente do chefe do governo, então devia ser coerente assumindo a divergência em toda a linha e com a tal frontalidade que reivindica no artigo do DN (foi o que Pacheco Pereira fez aquando da tomada de posse de Santana Lopes).

MMC transigiu e vem agora (a posteriori) cuspir nos restos da sopa que também comeu. Pode agora repugná-lo mas o que é facto é que na hora da verdade também ele se chegou à frente e comeu. E agora devia era estar calado, porque nós ainda estamos a fazer a digestão e arrotos desses agoniam.

De AN a 26.01.2012 às 14:31

Não sou e nunca fui pró - Sócrates, mas gostaria de lhe perguntar a si, o seguinte:

Porque é que dentro do PS, o Sr., nunca passou da cepa torta ?
Fala muito, critica muito... mas...depois de espremido, não vemos sumo, ou dito por outras palavras, obra, qual é ou foi a sua obra ?
Só para terminar o Seguro, o agora secretário geral, faz o quê dentro do PS ?
É ministro do PSD ?

De domedioorienteeafins.blogspot.com a 26.01.2012 às 15:32

Concordo, na generalidade com o texto de M.M . Carrilho, exceptuando a alusão ao "facínora" egípcio, como, na altura, tive oportunidade de comentar. Nem Faruq Hosni é um facínora, longe disso, nem as declarações que lhe são atribuídas correspondem ao que o ex-ministro da Cultura egípcio afirmou a propósito dos livros israelitas; além disso seria necessário interpretá-las no contexto em que foram proferidas.

De Anónimo a 26.01.2012 às 17:32

"com um currículo em parte surripiado", escrito em 2004 no Público, atesta bem da responsabilidade do partido socialista e da subserviência da comunicação social. Em parte nenhuma da europa uma coisa destas passaria incólume numa campanha eleitoral. Pena foi Jorge Sampaio não saber. Se calhar, na altura não lia os jornais. Não sabia, como muitos outros.

De PALAVROSSAVRVS REX a 26.01.2012 às 18:47

Nunca será de mais repeti-lo.

De S.Guimarães a 26.01.2012 às 19:47

MMC criticando "à posterior" não é bonito nem inteligente, denota apenas uma azia sem limites. Quando devia falar não falou, serviu-se do prato que lhe estenderam e sem cerimónias colaborou, muito ou pouco, colaborou, e isso é que conta. Se o país está no estado em que está, MMC não se pode eximir das responsabilidades que lhe cabem.

De ISABEL VIEIRA a 28.01.2012 às 11:06

Gostava de exemplos de pessoas:

. com melhor moral
. com melhores trabalhos/exemplos apresentados aos portugueses

e como nota e para que conste

nem sempre as pessoas com "cursos" são as que melhor trabalham

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