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portugal dos pequeninos

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"NO MEU TEMPO É QUE ERA BOM"?

João Gonçalves 13 Set 06


Ainda o Bairro Alto. O JSA do blogue Estação Central - cheguei lá pelo Eduardo Pitta -, nascido depois de 1970, mas aparentemente com um misto de Floribella e de Noddy na cabeça, deu-lhe para escrever que eu "preferia actores" não sei bem para quê. Diz ainda que a "sedução mudou", que "os olhares são diferentes" e que "as calças deixaram de ser à boca de sino". Vamos por partes. Falei aqui de um Bairro Alto que conheci, de amigos com quem privei e que V. não tem nada que conhecer ou deixar de conhecer, e do que penso do actual estado do dito Bairro, estado esse que se tem agravado de há uns bons anos para cá. Também tive e tenho o prazer - noutros casos, o desprazer, mas a vida é mesmo assim, como, com o tempo e se a sua cabeça o permitir, aprenderá - de conhecer alguns actores e actrizes portugueses, da mesma forma que conheço muitos funcionários públicos, alguns jornalistas e políticos, e já tive três excelentes empregadas domésticas e dois cães. Sabe, há pessoas que têm biografia - pequenina ou maior, mas têm uma - e não vem mal ao mundo, mesmo quando o assunto não é a própria pessoa, "circunstanciar" o tema, qualquer tema. Leia as memórias ou a autobiografia de um tipo qualquer e verá que lá aparecem coisas que não interessam a ninguém a não ser ao autor que as viveu. Quando V. for vivo, vai perceber o que estou a dizer. Ao falar do Frágil, por exemplo, só posso mencionar o que lá havia quando lá andei. E, sim, havia actores que serviam bebidas, cantores que cortavam cabelos e actrizes que cantavam em cima de um piano. Da última vez que lá entrei, jurei para nunca mais. Primeiro, porque era difícil entrar. Mesmo em frente, ergue-se uma ex-tasca transformada no "Queen Club dos pequeninos ao ar livre", que entope literalmente a passagem. Depois, porque a frequência - mais estilo "Queen Club dos pequeninos do Barreiro" (não tem "charme para chegar ao Le Palace), agora dentro de portas - não se recomendava. Quanto à sedução ter mudado, é natural. Sempre e em toda a parte, les beaux esprits se rencontrent. Mesmo com copos de plástico na mão e ventosas no lugar das orelhas. Também, escreve V., "os olhares são diferentes". Então com que olhar ou com que olho específico se "olha"? Descreva lá a subtileza desses olhares para ver se me tenta. E leia o poema do Ary dos Santos ao Cesariny que lhe fará certamente melhor que qualquer "shot" instantâneo. Finalmente, o JSA está, afinal, desactualizado. Se existe coisa que regressou aos "modos modernos", foi a calça de ganga à boca de sino. Com um "toque" erótico que porventura escapou ao seu "olhar diferente". Deixa-se normalmente uns centímetros entre a calça e o umbigo, seja para que este se veja - ou algum adorno que ele contenha -, no caso delas, seja para que se pressinta uma masculinidade discutível mas acompanhada por uma boa marca de cuecas, no caso deles. "No meu tempo é que era bom"? Não sei se era. V. tem a certeza que agora é que é? Só sei que agora prefiro ficar em casa a ler livros ou ir à rua passear o cão.

Adenda: A ideia das "memórias", "frappée", é muito estimulante, João. Não se deve tentar o demónio.

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