
Antes de prosseguir, fica estabelecido que sou católico. Frequento solitariamente a igreja quando me dá na gana e, de vez em quando, assisto à missa. Não o faço ao domingo nem em dia certo, não comungo e confessei-me duas vezes na vida, a última quais serviu praticamente para perguntar à voz que me ouvia do outro lado o que é que devia dizer. Vagamente, lá para o fim, mencionei os chamados "pecados da carne" como uma inevitabilidade. Tudo junto valeu-me, se bem me lembro, cinco "padres-nossos". Julgo que a Igreja não tem a mínima dúvida que as suas "ovelhas" pecam escandalosamente. Aliás, sentem-se mais aliviadas do que as desprovidas de fé já que sabem que serão presumivelmente perdoadas. Todavia, e ao arrepio da minha fé que concebo num plano completamente distinto, não creio que exista ou deva existir uma "moral sexual" e uma imposição normativa de comportamentos a esse nível. Por isso, quando D. José Policarpo defende a educação sexual orientada preferencialmente para a castidade, sabe que está a produzir um oxímoro. A sexualidade pressupõe, para ser saudável, o "outro". E nem sempre pressupõe procriação ou um "outro" de sexo diferente. Ou, muito menos, uma vida inteira de abstinência ou de apoteose da mão. É inerente à sexualidade o prazer - mais do que o "amor " ou a "paixão" - e não há que ter medo disso. Educação sexual significa esclarecimento, abertura, responsabilização, informação e protecção da saúde pública e privada. Orientá-la para a castidade, com o devido respeito, é contrariar a natureza das coisas. É o mesmo que pedir a alguém com sede que evite beber ou a alguém com fome que evite comer. Nestas matérias, para além de católico, sou sobretudo romano. Defender a vida também significa defendê-la plenamente e vivê-la com um módico de qualidade. Isso passa pelo "outro" por mais que o "outro" seja cruz ou salvação, uma vida inteira ou em apenas meia-hora.