
À medida que o gado avança para o sul - na auto-estrada, onde grunhos apedrejam e insultam na maior impunidade, ou para a televisão à espera de mais um "evento" da bola - vejo no quiosque onde fui comprar um jornal a capa de uma revista supostamente sobre livros. Tem ervilhas na capa e uma delas remete para o que deverá ser um artigo ou uma entrevista de um deputado do PS. Esse deputado é muito apreciado por alguns dos meus leitores que deixam muitas vezes aqui derramado, em recatado anonimato, o orgulho que sentem por ele, um dia, me ter chamado filho da puta. E também goza de grande popularidade na blogosfera, da esquerda à direita, como um inofensivo ovo cozido. A frase é qualquer coisa como "Teixeira dos Santos é um grande escritor cujo talento ainda não se revelou absolutamente." Ainda vamos descobrir, graças à inteligência prospectiva deste deputado, que Sócrates, por exemplo, verseja e que, afinal, é um heterónimo da Florbela Espanca criado nas Beiras. É disto que se alimentam as "revistas literárias" domésticas? Parece que se sim e de algum "frissonzinho". Tem razão o Cesariny. A poesia não é para um par de sapatos. Mas este poema é para o deputado.
É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.
O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.
Isso eu o quiz dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por
mim até).
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Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu
sendo eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.Mário Cesariny de Vasconcelos, O virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas Naturais e Estrangeiras, Assírio & Alvim, 1989