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portugal dos pequeninos

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"DIA MUNDIAL DA POESIA"

João Gonçalves 21 Mar 10


À medida que o gado avança para o sul - na auto-estrada, onde grunhos apedrejam e insultam na maior impunidade, ou para a televisão à espera de mais um "evento" da bola - vejo no quiosque onde fui comprar um jornal a capa de uma revista supostamente sobre livros. Tem ervilhas na capa e uma delas remete para o que deverá ser um artigo ou uma entrevista de um deputado do PS. Esse deputado é muito apreciado por alguns dos meus leitores que deixam muitas vezes aqui derramado, em recatado anonimato, o orgulho que sentem por ele, um dia, me ter chamado filho da puta. E também goza de grande popularidade na blogosfera, da esquerda à direita, como um inofensivo ovo cozido. A frase é qualquer coisa como "Teixeira dos Santos é um grande escritor cujo talento ainda não se revelou absolutamente." Ainda vamos descobrir, graças à inteligência prospectiva deste deputado, que Sócrates, por exemplo, verseja e que, afinal, é um heterónimo da Florbela Espanca criado nas Beiras. É disto que se alimentam as "revistas literárias" domésticas? Parece que se sim e de algum "frissonzinho". Tem razão o Cesariny. A poesia não é para um par de sapatos. Mas este poema é para o deputado.


É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Com isso ninguém tem nada
Mas mesmo nada
A ver.


O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois se sumir
E dar vontade de rir e d'ir urinar.


Isso eu o quiz dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por
mim até).

....................................................................................

Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu
sendo eu» foi um bom trabalho
Para continuar tudo co'a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.


Mário Cesariny de Vasconcelos, O virgem Negra - Fernando Pessoa explicado às criancinhas Naturais e Estrangeiras, Assírio & Alvim, 1989

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11 comentários

De Anónimo a 21.03.2010 às 14:17

Você é um desgraçado.

De radical livre a 21.03.2010 às 14:43

há 55 anos no sector de física da Fac ciências de Coimbra alguém escreveu na parede.
premonição em relação ao presente
«fui fodido pela vida,
enrrabado pela sorte;
já tenho a língua de fora
para fazer minete à morte»

De Manuel Brás a 21.03.2010 às 15:02

... sem qualquer hipocrisia

São rimas distanciadas
dos palcos da erudição,
aqui são agraciadas
com elevada distinção.

De joshua a 21.03.2010 às 15:26

O séquito glande-galamba de nojo do sr. Cu-Crates mostra-se insubmergível à tona-esterco. A maré sorri-lhes a eles enquanto nos mostra a carranca a nós.

Tudo segue de acordo com a evocação do radical livre: «Fui fodido pela vida,
enrrabado pela sorte;
já tenho a língua de fora
para fazer minete à morte».

De Manuel Moringa a 21.03.2010 às 15:44

Tem razão João a Poesia não interessa aos grunhos, pis se interessase deixariam de o ser e preocupar-se-iam com o seu semelhante e tentariam cuidar de alguém e ultrapassar o seu hedonismo grunho.Masturbm-se na grande arenas da bola e se isso não chega agridem e maltratam os seus semelhantes

De S.C. a 21.03.2010 às 16:27

Pois, por "novidades" dessas numa revista que se queria (bom, eu queria!)sobre livros é que acabo sempre por desistir das publicações portuguesas e voltar a umas coisinhas mais decentes que ainda se vão publicando noutros lados.

De Anónimo a 21.03.2010 às 16:55

É por isso que se vê tanta gente por aí “assanhada”!
Querem..., mas nada acontece!

De Garganta Funda... a 21.03.2010 às 19:19

O Dr.João Gonçalves sintetizou bem a coisa: «À medida que o gado avança para o sul...».

Curiosa transumância esta, a do tuga espiolado, vexado, coimado, penhorado e até gozado diariamente por uma lupen-nomenklatura que se assemelha mais a sobas das savanas africanas.

De provérbio muçulmano a 21.03.2010 às 19:45

O João Gonçalves quadrava extremamente bem, hoje no Palácio de Belém, no sarau promovido pela Dr.ª Maria, dizendo umas caralhadas poéticas dos seus poetas malditos.

Apareça que será bem recebido na corte!

De Anónimo a 21.03.2010 às 20:10

O dito cujo, se versejar, será mais na onda do "atirei um pau ao ga-tu-tu...", como bom animal feroz que é!

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