O
Correio da Manhã faz capa com a indústria farmacêutica e com uma "história" típica. Parece que infelizmente todos, ou quase todos, precisamos de remédios. Ainda outro dia "revelaram", como se isso fosse novidade, que o aumento da compra de anti-depressivos não pára de crescer. A infelicidade também não. Sucede que a felicidade dos pequenos e grandes impérios farmacêuticos varia precisamente na razão inversa à dos respectivos consumidores. Perto da minha casa existe uma farmácia idêntica a uma loja "extra". Está aberta todos os dias até à meia-noite. Tenho observado o seu crescimento e a alegria dos seus jovens proprietários. Talvez mais do que ser cangalheiro - agora "multinacionalizados" - valerá mais a pena ser farmacêutico. Entre nós, existe um organismo oficial, o
Infarmed (que supostamente "controla" esse mercado) e a
Apifarma que reúne os laboratórios privados e que se encarrega do "lobbying" do "emporio". O
CM conta-nos que esta última colocou recentemente como seu director executivo um antigo presidente do
Infarmed, o dr. Rui Ivo. Com uma licença sem vencimento concedida pela actual direcção um mês depois de ele estar na
Apifarma (ou seja, ainda ligado ao
Infarmed), Ivo passou para o outro lado do espelho com a tranquilidade promíscua da gente que costuma servir (e servir-se) do regime. Não será completamente ilegal mas é seguramente pouco ético. Ivo não deixa de ser - é essa a sua carreira originária - um funcionário público, isto é, alguém que jurou defender "com lealdade" o interesse público, um velho conceito em vias de extinção. O livro definitivo sobre os meandros da indústria farmacêutica continua a ser
O Fiel Jardineiro de John Le Carré. Brutal e simultaneamente encantadora, a escrita de Le Carré resume o fundamental. É óbvio que o livro retrata um caso levado ao paroxismo pelo "mercado" farmacêutico e da investigação medicamentosa. Por aqui, mais modestos e mais "chicos-espertos", é sempre um problema de lugares, de influência e de, obviamente, dinheiro. Contudo - e a "história" de Rui Ivo só o confirma - permanecem actuais estas palavras de José Pacheco Pereira de há uns meses atrás:
«Se há lobby em Portugal, com grande presença na Assembleia e nos partidos, é o das farmácias e da indústria de medicamentos. Se se quiser estudar os lobbies e o poder político em Portugal este é dos mais activos e dos mais antigos.» Haverá, porém, alguém interessado em "estudar" alguma coisa que incomode o discreto fluir da complacência geral que tomou conta deste Portugal de pequeninos?