É óbvio que a conversa entre Cavaco Silva e Dias Loureiro, no dia seguinte ao
talk show de Oliveira e Costa, só podia ter corrido mal. Imagino que o Presidente tenha chamado a atenção de Loureiro para as posições de conselheiros de Estado tão insuspeitos como Eanes, Sampaio ou Lobo Antunes. Sem ser preciso dizer mais nada. E também imagino que Loureiro tenha saído de Belém a ruminar qualquer coisa como "não perdes pela demora", dada aquela "problemática do ego" apontada pelo homem que já leu sessenta livros numa cela solitária da PJ. Nada, repito, nada aconselhava Cavaco a escolher pessoalmente Loureiro - a par de Marcelo, Ferreira Leite, Leonor Beleza ou João Lobo Antunes - para o CE. Pelo contrário, quando o Presidente o escolheu já não estava a seleccionar o político ou o "interventor" cívico mas um bem conhecido homem de negócios do regime que só o é porque, intermitentemente, exerceu cargos públicos nesse mesmo regime. Aceitou correr o risco. Pois bem.
A manchete do Expresso - basta atentar nos redactores da notícia, um deles director-adjunto do jornal de Balsemão (Nicolau Santos: "mais" porta-voz do regime não há...) - é o "à volta cá te espero" de Dias Loureiro.
Nada, repito,
nada naquela notícia - um pequeno accionista no meio de 400 que comprou e vendeu umas quantas acções da SLN há seis anos - permite retirar ilações contra o Chefe de Estado embora vá dar azo a que os seus adversários dentro do regime (muitos deles amigos uns dos outros apesar de uns serem do actual poder absoluto e outros do maior partido da oposição) passem uns dias entretidos. Sempre são dias em que não se repara nessa nulidade eleitoral que é Vital Moreira, em que não se mexe na biografia irreal de Sócrates (sim, essa mesmo, a que começa na licenciatura, que passa pela Cova da Beira e que não acaba em Alcochete) e em que, por força do calor, vamos a banhos. Percebem agora por que é que o optimismo que o dr. Loureiro vê em Sócrates "faz bem a Portugal»?