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portugal dos pequeninos

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A “clara noite do nada”

João Gonçalves 27 Ago 22

 

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Tal qual Gore Vidal, detesto ser o meu próprio assunto. Mas sucedeu que, ontem, no meio do nevoeiro da praia das Maçãs onde fui almoçar e trabalhar (levo sempre o pc na mochila), deparo-me à saída com alguém que me acena de um carro. Aproximei-me e era uma funcionária, de nacionalidade brasileira, que trabalha na residencial geriátrica onde a minha Mãe esteve nos últimos três anos. Ela faz "noites", o que eu sabia, e aí perguntei-lhe se assistira à morte da minha Mãe, na madrugada de 14 de Junho. E ela, evangélica de culto (ia, aliás, para Cascais, a uma sessão), descreveu-me esses últimos instantes da minha Mãe. Desde esse dia que me atormentava pensar que, a umas escassas horas de ter estado com ela sem saber que era a derradeira vez, alguém seguramente testemunhou, lá dentro, e não a deixou sozinha, na passagem para a "clara noite do nada", recorrendo à magnífica expressão de Martin Heidegger. E então ela contou-me tudo, com um sorriso de esperança, que me sossegou. Não houve a aflição que eu presenciara nessa tarde longa, afinal a última. Isto é, eu é que devia lá ter estado, mas consolou-me finalmente saber que não morreu sozinha nessa madrugada. Nem aflita. O acaso e o indeterminado conduzem, afinal, a nossa vida e a nossa morte que faz parte dela. Duas pessoas que nunca estariam, a priori, destinadas a cruzar-se, a nossa cidadã brasileira a residir e a trabalhar na aldeia da Praia, e a minha Mãe, estão juntas no final desta vida de umas delas. Depois falou-me de mais mortes de meus conhecidos de lá que ocorreram entretanto. Despedimo-nos, e eu entrei no meu carro, estacionado a escassos metros, com o pão quentinho e duas bolas de berlim sem creme. Não arranquei logo. Fiquei ali, uns instantes, a chorar. Sim, um homem chora. Escolhi o Carlo Bergonzi para me fazer companhia musical no caminho de regresso a Lisboa. Ainda agora, hoje, quando escrevo isto, contemplando a mesa da "Roda" onde vim almoçar com a minha Mãe, há menos de três anos, sem sabermos que era a última, recordo ter-lhe perguntado se queria ir a casa, que é no mesmo edifício (tínhamos regressado de os "Lusíadas" onde ela fora a uma consulta de ortopedia, totalmente curada de uma pequena fractura de pulso na residencial), e não consigo definir o sentimento que sobrou da aclaração inesperada. A minha Mãe não quis subir as escadas até ao 3º andar e preferiu seguir para Sintra. Como escreveu um amigo meu, "ela nunca desaparecerá de dentro de ti e tu agora és quem a transpostas na tua vida." Exactamente. 

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