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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O homem do possível

João Gonçalves 25 Ago 22

 

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Eduardo Prado Coelho deixou-nos há 15 anos. Ao longo deles, neste blogue ou noutros locais, designadamente em dois livros (não houve mais, entretanto), escrevi bastante sobre ele. EPC não deixou continuadores. O que ele representava no debate público, cultural ou outro, não teve sequência. Ou melhor. Emergiram contingentes de "sistémicos" que se imaginaram, e ainda agora se supõem, subtis e sublimes analistas, mas que as circunstâncias devoraram . Pelo que existe uma espécie de colectivo onde dizem todos sensivelmente o mesmo, só que usam distinto palavreado. EPC tinha o cuidado, mesmo quando parecia "ir a todas", de evitar a tagarelice naquele sentido que Heidegger lhe atribuía. Havia método na sua dispersão e na sua multiplicação de interesses, como havia método na loucura de Hamlet. Volta e meia, abro ao calhas um destes livros dele, e leio ou releio. E continuo a sair de um parágrafo, de uma frase ou de uma palavra mais rico do que quando lá entrei. Por causa daquela permanente atenção e curiosidade pelo mundo, pela sua complexidade e pelos seus pontos de sombra e luz. EPC, nos títulos dos seus livros, deu sempre a entender o processo frágil, precário e contingente desse entendimento e que é, no fundo, o do conhecimento. Falta ali o "Hipóteses de Abril" que não faz sentido junto dos outros. Foi a pior fase, a da tentativa e erro do "intelectual orgânico" comunista, do "dg da acção cultural". Esse EPC nunca me interessou. O Eduardo, sim. Nesse seu todo contraditório e, pessoalmente, encantador. Nunca me esquecerei de, no frenesim da festa do primeiro ano do Frágil, ele me perguntar o que é que eu pensava da tese de doutoramento dele, adquirida uns dias antes na feira do livro com um autógrafo. Um estudante de Direito, do 3º ano, a caminho do 4º, que podia responder sobre "Os universos da crítica" que lia entre intervalos dos exames daquele Verão de 1983? Respondo hoje com uma frase dele, repescada porventura do diário ou de um último livro em torno de questões da filosofia e da linguagem, que usei no Twitter: "o homem do provável é o homem médio; o homem do possível é, na sua singularidade irredutível, o melhor de cada um de nós". EPC sabia, como poucos, extrair esse melhor de cada um de nós. O que não significa que tenhamos conseguido, ou que sejamos, sequer, melhores. Eu, pelo menos, com certeza que não. 

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