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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

BERGANZA

João Gonçalves 23 Dez 08





Teresa Berganza: Manuel de Falla, Siete Canciones Populares Españolas. 1990

UM REVÉS

João Gonçalves 23 Dez 08

O "Código do Trabalho", uma das obras-primas do governo e da obediente maioria que o apoia, foi competentemente chumbado no Tribunal Constitucional. O Tribunal deu assim razão ao PR em relação à inconstitucionalidade de uma das suas normas. Deve haver mais. Por consequência, o texto já não entra em vigor dia 1 de Janeiro. Em compensação, toda a legislação laboral da função pública entra. Ninguém tugiu nem mugiu. É bem feito.

Adenda: O PSD, pelo menos naquela parte que parece que manda, deu em tomar "posições" estilo "meia-haste". Depois do estatuto do sr. César, Rangel veio "explicar" que, apesar do PSD concordar com parte do Código, há outra parte com que não concorda pelo que concorda com o "chumbo" do TC. O dr. Rangel corre a passos largos para ser chumbado.

O PAÍS...

João Gonçalves 23 Dez 08

De eventos. Pobre país de Macbeths de trazer por casa.« Life's but a walking shadow, a poor player,/That struts and frets his hour upon the stage,/And then is heard no more; it is a tale/Told by an idiot, full of sound and fury,/Signifying nothing.»

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LER LIVROS

João Gonçalves 23 Dez 08


Também tenho uma "prenda" para os meus leitores. Li muita coisa ao longo do ano. De portugueses, suponho que não li nada. De outros, parece-me dispensável o derradeiro Roth, Indignation. Prefiro as imediatas prosas anteriores sobre o envelhecimento e a morte. Li e reli muito Sloterdijk. Nunca o largo, aliás. "Um homem muito procurado", de John Le Carré, "recupera" um bom escritor de um relativamente aborrecido "O canto da missão". Por isso "ofereço" uma recomendação do ano passado e que me parece insubstituível. Há meses, para a Ler, o F.J. Viegas pediu-me para "explicar", em poucas linhas, "por que é que se devia ler As Benevolentes". Apesar da pretensão (é-me indiferente que leiam ou deixem de ler), alinhavei a pequena prosa que se segue a qual, pela primeira vez, "sai" na íntegra. A que foi editada na revista é diferente desta. Nunca me dei ao trabalho de perguntar porquê. Não me interessa. Mas imagino.

JONATHAN LITTELL, O NOVO MESTRE DA SUSPEITA

Correm os derradeiros anos da segunda guerra mundial. O narrador, ex-nazi convicto, olha agora para esse tempo com a melancolia da indiferença, sem remorsos nem pesos na consciência. É um ironista que reflecte sobre os escombros sem um vislumbre de arrependimento. O que foi, foi o que foi porque teve de ser assim, como se um determinismo amoral tivesse arrastado milhares de homens inteligentes para um abismo no qual, sem excessiva repugnância, experimentaram os cheiros e as cores da mais repugnante das mortes. As “memórias” de um antigo oficial nazi são o pretexto para Jonathan Littell “reconstruir” os derradeiros passos do regime de Hitler - para o Leste onde se atafulhou e perdeu –, recortando, vistos a partir do lado “deles” (até agora só tínhamos tido direito às versões romanceadas “correctas” da história, a dos vencedores), os perfis de homens do regime tal como eles existiram ou como o autor os ficcionou. “As Benevolentes” também é um imenso livro de história onde se surpreende a esquizofrénica burocracia do III Reich, algo a que Fest apelidou de improvisação organizada, já a caminho do seu fulgurante crepúsculo. No texto de Littell revela-se como o bem e o mal se misturam nas peripécias de uma vida pessoal e de uma narrativa colectiva sem que isso lhe confira um estatuto de fatalidade dentro da fatalidade que efectivamente foi. Revela-se como a ficção da realidade - a realidade e a ficção que coincidiam no III Reich -
pode ser “ultrapassada” através de um passeio numa paisagem paradisíaca que deixou para trás o cheiro fétido de cadáveres ou o estampido de uma arma disparada contra a nuca anónima. Revela-se como Bach ou Monteverdi sublimavam a violência interior que massacra o adversário indefeso com uma tranquilidade que, devendo assustar o leitor, apenas o sossega umas quantas páginas mais adiante. Littell entendeu bem o que Arendt quis significar com a expressão “banalidade do mal” a propósito do julgamento de Eichmann em Jerusalém. A leitura mais simplista exclamaria: “lê-se e não se acredita”. Ora a “tese” de “As Benevolentes” é justamente a contrária. Lê-se e acredita-se e eu, narrador, acreditava especialmente. Por que é que “As Benevolentes” arrisca ser simultaneamente um dos grandes momentos da literatura contemporânea e uma tragédia clássica? Julgo que, enterrado o fantasma do “novo romance” e, sobretudo, quando se enchem escaparates com novos “romancistas”que nos vêm contar histórias de embalar que, de tão medíocres, acabam por ser pornográficas, Littell – provavelmente impossibilitado de escrever o que quer que seja depois deste “fresco “ monumental - emerge como o novo “mestre da suspeita”. O respeitável oficial das SS que nos explica a sua vida e a tenta perceber, anos volvidos sobre a catástrofe, é, no desalinho dessa “história” cruel, revista, corrigida e aumentada, o Deus sem fé que se esconde no coração do homem vazio de hoje. Crê-se, afinal, um justo nos antípodas da personagem da peça de Camus. Quem, de entre nós, poderá atirar a primeira pedra?

UM CRESCENTE JURO DE MONSTRUOSIDADE

João Gonçalves 23 Dez 08


O Miguel "deu-me" como prenda um "livro" e uma bela epígrafe: "de baioneta em riste na terra de ninguém esventrada pela estupidez dos homens. Que nunca lhe esmoreça a atenção de sentinela." Retribuo com Jorge de Sena nestes dias cínicos em que tendemos a esquecer o que é o homem e, como dizia Michaux, caímos na tentação de lhe querer bem.

«O mal não se perpetua senão no pretender-se que não existe, ou que, excessivo para a nossa delicadeza, há que deixá-lo num discreto limbo. É no silêncio e no calculado esquecimento dos delicados que o mal se apura e afina - tanto assim é, que é tradicional o amor das tiranias pelo silêncio, e que as Inquisições sempre só trouxeram à luz do dia as suas vítimas, para assassiná-las exemplarmente. Por outro lado, o que às vezes parece amor do mal é uma infinita piedade de que os "bondosos" e os "puros" se cortaram: uma compreensão e um apelo em favor de que o amor do "bem" não alimente nem justifique a monstruosidade do mal, tanto mais monstruoso quanto mais, psico-socialmente, a idealização desse "bem" o confinou a ser. [A vida] só é monstruosa, não porque algo o seja, e sim porque o repouso egoísta, a ignorância, a falsa inocência, são sempre feitas de um crescente juro de monstruosidade. Nenhum realismo o será, se recuar aflito, mas porque, aflito, não recua.»

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MOVIMENTOS

João Gonçalves 23 Dez 08

Serão assinaturas para a "coisa-movimento" de Manuel Alegre "ir a votos"?

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