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portugal dos pequeninos

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UM OLHAR COSMOPOLITA

João Gonçalves 4 Out 08


«O olhar cosmopolita de [Eduardo] Lourenço fez, desde o princípio, toda a diferença. Não se trata do cosmopolitismo “de aeroporto” hoje tão em voga, mas de uma perspectiva sobre o mundo que combina uma fina atenção à actualidade com uma sólida informação histórica, que já lia o local a partir do global muito antes de se generalizar a globalização. E que, recusando todos os reducionismos, permanentemente valoriza a diversidade, as contradições do mundo e a contingência dos acontecimentos. Foi este olhar cosmopolita que libertou Lourenço do “comentarismo ruminante” que ele tão lucidamente diagnosticou no Portugal de meados do século passado, e que, infelizmente, persiste ainda nalgumas dimensões da vida portuguesa, talvez hoje mais provinciana do que nunca, no seu serôdio deslumbramento de tantas e tão ilusórias “modernidades”!...»

Manuel Maria Carrilho, Contingências

ARTISTAS PORTUGUESES

João Gonçalves 4 Out 08


Há uns anos, quando pertenci à direcção do Teatro Nacional de São Carlos, fui um dia visitar os seus "armazéns". Ao contrário do que os leitores possam imaginar, os "armazéns" - uns barracões inadequados e miseráveis - não estavam (nem estão) situados perto do Teatro. Eram (e são) em Fernão Ferro, a caminho de Sesimbra. Pensei propor à CML (ou à Administração do Porto de Lisboa) a cedência de um espaço junto ao rio, em Lisboa, dado tratar-se do único teatro lírico nacional. Como o TNSC está "entalado" na Rua Serpa Pinto pelo Hospital da Ordem Terceira, não é fácil alargar as instalações no quarteirão como fez o Liceu de Barcelona depois do incêndio. A minha precoce demissão não permitiu pensar mais no assunto. Vem a isto a propósito das declarações de alguns "artistas" ao Expresso, "artistas" (e uma mãe de artista, a jornalista Dina Aguiar) que possuem ateliers arrendados pela CML por quantias irrisórias. Carlos Amado acha que é uma "obrigação" da Câmara "apoiar os seus artistas" e nem sequer "concebe a ideia de trabalhar num espaço que não lhe seja disponibilizado pela autarquia". Não hesita: "estamos aqui [presumo que seja ele e o consorte mestre Lagoa] porque somos artistas". O "estamos aqui" varia entre 30 a 35 euros de renda em plena Avenida da Índia. José Pedro Croft tem o atelier camarário nos Olivais, com um contrato celebrado por tempo indeterminado pelo qual não paga nada. "O espaço era um armazém devoluto, estava livre. Eu tenho-lhe dado um bom uso", refere o artista. Quem somos nós, brutos lisboetas, para discordar? Todavia acrescenta que já não está "numa situação precária como há dez anos" quando João Soares - o campeão destas liberalidades - lhe deu (termo adequado) o atelier. Do que é que o verbo de encher (como lhe chama, no mesmo Expresso, Miguel Sousa Tavares) do dr. António Costa está à espera? Finalmente a jornalista Dina Aguiar nem sequer se lembra dos termos do contrato que estabeleceu com a Câmara do dr. Soares. Recorda-se apenas que "verbalmente deixou claro" que "o espaço seria partilhado com a filha", uma candidata a artista por ser licenciada em Belas Artes. "Não queria que se pudesse entender esta partilha como uma espécie de sub-aluguer", "tenho o meu contrato (o tal de que ela não se lembra dos "termos") e direitos" e "o problema desta sociedade é a dor de cotovelo e a inveja". Com certeza, Dona Dina. O dr. João Soares - e os que a mantêm nessa situação - devem concordar amplamente consigo. A senhora e todos os restantes "artistas", João Soares incluído, são, na realidade, o que são: artistas portugueses.

FAZER DE CONTA

João Gonçalves 4 Out 08


Depois de quatro horas de Wagner, cuja "apreciação" fica para outro momento (entretanto concordo com o Henrique Silveira: Wotan não é manifestamente um bêbado e não se pode estragar a fundamental "abertura" musical do III Acto com aquela figuração inútil à "gato fedorento") leio com agrado a coluna semanal da Fernanda Câncio no DN sobre as "casinhas" da CML. «O que está em causa, e não será de mais repeti-lo, é o que de pior existe em qualquer administração pública - a opacidade, o favorecimento discricionário, a assunção dos bens públicos como propriedade de “quem está” e o seu tráfico entre escolhidos. Se em vez da “atribuição” de casas estivéssemos a falar da de envelopes de papel pardo com notas lá dentro, estaria já tudo aos gritos, a começar por Sá Fernandes e Helena Roseta, esses indomáveis campeões antinegociatas. Mas, como na lenda da Rainha Santa, o dinheiro está transformado em casas. Pode-se fazer de conta que não se passou nada.»

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