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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

LADRÕES DE BICICLETA

João Gonçalves 5 Ago 08


«A medida de Berlusconi é aplaudida pela generalidade dos italianos, que estão prontos da trocar muitos "direitos constitucionais" por alguma segurança, lembrando o velho lugar-comum do ventennio, quando não havia liberdade política - havia a OVRA, havia a censura, o condicionamento e a propaganda, o rícino lançado garganta abaixo dos inimigos do regime - mas os "comboios circulavam a horas". É claro que Berlusconi não é ditador, que o fascismo morreu e que a simples ideia de privar os italianos da liberdade não passa de atoarda da esquerda ex-comunista. Moral da história: as pessoas comuns, as que não fazem política, as que não se apaixonam nem querem saber da politiquice, querem viver habitualmente, querem sair à rua, sentar-se em esplanadas, comer uma pasta sem que um energúmeno, um meliante ou um assaltante lhes tolha o caminho, de faca em riste, para cobrar o "imposto revolucionário da anarquia" em que lentamente a Europa resvalou»

SOARES E OS MALES DA EXISTÊNCIA

João Gonçalves 5 Ago 08

O dr. Mário Soares - que há dias "revelou" ter visto as "botas" de Salazar quando tinha 16 anos e que saiu de uma barbearia de S. Tomé a saltar de alegria quando soube do hematoma do então presidente do conselho - não apreciou a prédica de Cavaco sobre o "estatuto" do sr. César. Soares queria que o Presidente falasse sobre "os males da existência" tais como, presume-se, o governo que ele apoia ou a "bolha" (sic) do imobiliário, problemas que, segundo o dr. Soares, "os portugueses sentem na carne". Todavia, o dr. Soares não só desconfia tanto da bondade da intervenção presidencial como da capacidade de entendimento dos ditos portugueses. Ao afirmar que "a questão que o Presidente levantou é de natureza político-constitucional e, na fase em que se encontra, cabe ao Parlamento agora pronunciar-se e não aos portugueses em geral", Soares parece querer dizer que há matérias - as "transcendentes" e "políticas" como estatutos autonómicos e os poderes presidenciais - que só o quentinho parlamentar está em condições de delucidar. Como escreve o Dr. António Sousa Homem no livro ali à direita, «não há portugueses, propriamente ditos; há uma série de pessoas que vive em Portugal.» O dr. Soares é um membro dessa "série de pessoas". Vive cá e tem uma opinião sobre tudo, "em geral", e sobre Cavaco, em particular. Da derradeira vez que a manifestou, obteve menos de quinze por cento dos votos dos "portugueses em geral". É isso que vale a sua opinião.

A BEAUTIFUL CHILD

João Gonçalves 5 Ago 08




Na morte de Marilyn

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decidia dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou


Ruy Belo

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