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portugal dos pequeninos

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LIVRINHOS

João Gonçalves 2 Ago 08


Merecem destaque os que o Diário de Notícias tem vindo a distribuir, sob a chancela da Quasi. Boas traduções e bons pequenos textos (Hoje, por exemplo, A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi, traduzido por Adolfo Casais Monteiro).

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DEPOIS DA QUEDA

João Gonçalves 2 Ago 08



A semana passada, o Expresso - um jornal tão importante para o regime que há quem "antecipe" as suas notícias como uma profecia ou um evangelho -, a propósito dos múltiplos "negócios" em que o regime está envolvido, falava em "jackpot". Daqui a uns tempos, quando a lucidez permitir avaliar estes "negócios" sem o lastro servil da propaganda, veremos o que o jornal canónico escreverá. Esta semana, e à falta de melhor, o mesmo Expresso recorda em "manchete" que passam amanhã quarenta anos sobre a famosa "queda" de Salazar no Forte do Estoril. Para "comemorar" a data, o hebdomadário foi ouvir Mário Soares, Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, Guterres, Balsemão, Barroso e Santana Lopes. Sócrates e Cavaco aparentemente não quiseram dizer "onde estavam", não naquele dia 3 , mas mais tarde, em Setembro, quando foi revelada a intervenção cirúrgica na Cruz Vermelha. A Salazar sucedeu um intelectual politicamente pusilânime e, com o "25 de Abril", emergiu um cortejo que não vale a pena qualificar e que termina, para já, no improvável Sócrates. As "memórias" daquelas sete almas são elucidativas acerca do que sobrou da "queda". Fora Eanes que salientou a perda da noção do tempo e das ponderações adequadas ao país e ao Ultramar, Soares conta que ficou muito satisfeito por saber que um homem de 80 anos certamente não sobreviveria a um hematoma. Saiu eloquentemente de uma barbearia, em São Tomé, aos gritos e aos saltos como um macaco. Sampaio estava em Paris a antecipar as "conspirações de sótão" que o tornariam famoso no regime seguinte a ponto de ter chegado a PR. Guterres, o patrocinador desses encontros de sótão, mais modesto e sem um espelho pela frente, lamenta-se da "mediocridade". Barroso fala no funeral do presidente do conselho e numa fotografia do mesmo que, sendo ele já o magnífico presidente da comissão europeia, lhe ofereceram. A Lopes preocupava-o, ainda de bibe, a falta das liberdades e Balsemão, tão frívolo então como hoje, despiu o smoking que trajava na "festa Patiño" para ir para o Diário Popular trabalhar. Salazar fez sentido enquanto não houve Europa e o país possuia uma fronteira ilimitada que ia para além do Atlântico como, de alguma forma, Eanes explica sem preconceitos "ideológicos". Salazar deixava de fazer sentido com a Europa e com um país periférico confinado à sua exígua fronteira terrestre, à burocracia demo-liberal de Bruxelas e aos negócios obscuros com as nomenclaturas que mandam nas ex-colónias. Sem querer, o Expresso, em apenas uma página, retratou melhor este regime do que aquele que terminou, na prática, naquele sábado funesto de Agosto de 1968. Não sei quem é que fica pior na fotografia.

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