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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O GÉNERO DAS QUESTÕES DE GÉNERO

João Gonçalves 30 Jul 08


Uma juíza de Felgueiras, numa sentença, escreveu que os ciganos, de que os réus naquele processo eram exemplares, são em geral »pessoas mal vistas socialmente, marginais, traiçoeiras, integralmente subsídio-dependentes de um Estado a quem pagam desobedecendo e atentando contra a integridade física e moral dos seus agentes.» A dra. Ana Gabriela Freitas vai mais longe e qualifica «as condições habitacionais» da ciganagem como «fracas, não por força do espaço físico em si, mas pelo estilo de vida da sua etnia (pouca higiene).» Vai daí a juíza não encontra «a menor razão para acolher a rábula da perseguição e vitimização dos ciganos, coitadinhos!.» Contra estas evidências - extensíveis a brancos, pretos, amarelos ou de outra "etnia" qualquer: um malandro é sempre um malandro quer se lave ou não - levantou-se a voz da sra. comissária para a imigração que foi imediatamente fazer a tradicional queixinha ao conselho superior da magistratura em nome da correcção política. No fundo, no fundo, quem é que não concorda com a dra. Freitas? É muito bonito ser "correcto" dentro de um condomínio fechado, rodeado das derradeiras produções da sociologia mundial e de duas ou três Vanity Fair. Experimentem a rua de vez em quando e depois logo vêem a quem é que se vão queixar.

A VARINHA MÁGICA

João Gonçalves 30 Jul 08


Este post do Jorge Ferreira leva-me a repetir duas ideias. Uma de Manuel Maria Carrilho e a outra de Maria Filomena Mónica. Escreve o primeiro - sobre a "vaga número um" da "banda larga" pela mão de Guterres (Sócrates já lá estava) - que «o slogan do «acesso de todos à Net» pretende, no seu fervor militante, passar a ideia de uma nova igualdade, agora ao alcance do teclado, como se entre o analfabeto e o investigador, o rural e o urbano, o europeu cosmopolita e o habitante de África, as diferenças desaparecessem quando se «surfa» na Net» já que, «pelo contrário, é justamente aí que as diferenças mais se evidenciam, se nada as tiver atenuado, ou anulado, antes.» E a segunda - num reparo que assenta perfeitamente ao "plano tecnológico" permanentemente apresentado como o novo "passe de magia" para o "progresso" da pátria - alerta para o facto de, «num país de analfabetos, o computador [se ter transformado] numa varinha mágica capaz de transformar um bronco num génio.» Não transformou. Nem nunca transforma. O problema é que, como lembra o Jorge Ferreira, «José Sócrates, quando não sabe o que fazer ou o que dizer anuncia banda larga, internet e computadores», na realidade «um número tão gasto como as corridinhas no estrangeiro antes das cimeiras.»

A CONSCIÊNCIA TRANQUILA DA "HISTÓRIA"

João Gonçalves 30 Jul 08


«Entre Agosto de 1974 e o início de 1975 os portugueses em fuga de África mal se vêem nas páginas dos jornais. É claro que se fala deles mas com o incómodo e os rodeios de quem tem de dar uma má notícia no meio duma festa. Esta é a fase em que os fugitivos são necessariamente brancos pois assim facilmente se integram no estereótipo que deles traçam homens como Rosa Coutinho que os classifica como “elementos menos evoluídos que têm medo de perder as suas regalias” ou Vítor Crespo que os define como “pessoas racistas que não abdicam dos seus privilégios”. Os jornalistas portugueses usam então tranquilamente expressões como “brancos ressentidos”, “brancos em pânico” ou pessoas que “reivindicam um desejo de viver num mundo que já acabou” para referir a maior fuga de portugueses nos seus muitos séculos de História. Os primeiros a chegar, logo em Agosto de 1974, ainda tiveram jornalistas à espera. Mas semanas depois, quando a catástrofe se torna não só óbvia como incontornável, as notícias sobre o “regresso dos colonos” quase desaparecem e o que temos cada vez mais são longos artigos sobre a descolonização cheios de declarações de líderes ou candidatos a tal.»


Helena Matos, in Blasfémias

A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR

João Gonçalves 30 Jul 08


O Tribunal Constitucional deu razão a Cavaco em oito das treze "dúvidas" levantadas sobre a revisão do "estatuto" dos Açores que agora volta para trás para ser "emendado". Pouca gente deu por isso - o tradicional contingente de virtuosos sempre atentos aos "excessos" de Alberto João Jardim tende a esquecer-se do Sr. César - mas o PS regional não poupou o presidente da República por causa da devolução do "estatuto", enchendo os jornais regionais de comunicados estilo finis patriae e com o próprio César absoluto a dar entrevistas tremendistas e ameaçadoras à RTP Açores que não mereceram um pio dos moralistas anti-Madeira. Percebe-se a histeria do Sr. César. Tem eleições à porta - que, aliás, ganhará tranquilamente - e pretende aparecer como o novo herói da autonomia açoriana hipoteticamente "ameaçada" pela vigilância constitucional. Satisfeito com os dinheiros da República que o beneficiam em relação à Madeira, César usa a retórica política para mostrar músculo e "diferença" usando como pretexto o "estatuto". O poder de César e do PS nos Açores é tão "total" como o de Alberto João e do PSD na Madeira. É só dar uma voltinha pelas ilhas. A diferença é que ninguém fala de César por cá. O outro é um "palhaço", um "fascista", um "chantagista", um isto e aquilo. César não é nada quando, tipicamente, é um puro representante do regime. É, pois, tempo de reparar em César. A César o que é de César.

Adenda: Ler o insuspeito Vital Moreira: «O que é preocupante é que em quase todos os casos, os que votaram tais normas, tanto nos Açores como na AR em Lisboa, não podiam deixar de saber que se tratava de normas inconstitucionais. Criou-se uma espécie de consenso transpartidário de que em matéria de autonomia regional vale tudo o que as assembleias regionais propuserem. Louve-se o Presidente da República por não se dispor a entrar nessa "conspiração"

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