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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O MISTÉRIO DA CULTURA

João Gonçalves 5 Jul 08


Desde Julho de 2000 que Portugal não tem um ministro da cultura. É claro que passaram uns senhores e umas senhoras pela Ajuda. Sou, aliás, testemunha disso. Mas de rigorosamente nada mais do que disso. Talvez por ter reparado nesse imenso vazio, tenho vindo a problematizar a necessidade de "um" ministério da cultura. Elucidativo do "estado da arte" nesta matéria é, por exemplo, a revista Obscena ter-se proposto entrevistar o dr. José António Pinto Ribeiro - ela e seguramente mais uns quantos jornais e revistas - e o "ministro-coisa-nunca-vista" ter murmurado, de novo, um pesado silêncio. A revista, piedosa, menciona "o esboço de uma entrevista" que Manuel Maria Carrilho classifica como um «texto estruturado e pertinente, onde se colocam quase todas as questões que - há muito - esperam resposta de uma política cultural digna desse nome.» Quando ressuscitar desta verdadeira obscenidade que é o seu não-mandato ministerial, Pinto Ribeiro vai arrepender-se amargamente de ter aceite um cargo para o qual não estava destinado. Nunca mais levanta cabeça.

A SIMIOLOGIA DA BOLA

João Gonçalves 5 Jul 08


Não temos a menor autoridade moral para dar lições do que quer que seja inclusivamente a símios. Os media (merd(i)as) passaram o dia "agarrados" a uma telenovela passada na federação portuguesa da bola, uma espécie de jardim zoológico de humanos. O "conselho de justiça" da dita federação deu aparentemente um show digno do cabaret mais decadente da Península. O "ponto" não é o show. O "ponto", como sempre, é o descalabro ético que ele revela e o tradicional "picante" que os media retiram, até à exaustão, dele. Já milhares de "especialistas" comentaram o incomentável. Já foram repetidas as mesmas cenas e já apareceram os mesmos débeis mentais umas cinquenta vezes. Perdoem-me o plebeísmo, mas vão-se foder todos.

ESPERANÇA, GRATIDÃO E CARIDADE

João Gonçalves 5 Jul 08

O livro da foto, da Angelus Novus, inclui dois ensaios, um de Richard Rorty e outro de Gianni Vattimo, e um "apêndice", que contém uma "conversa" inteligente sobre, no fundo, os préstimos da religião (a católica fundamentalmente) num mundo dominado pela contingência. Vattimo é católico, um "meio crente" na sua expressão, e Rorty era alguém que considerava mais decisivos os eventos doutrinários e revolucionários dos finais do século XVIII do que propriamente a distinção entre "a.C" e "d.C". Para Vattimo, "o niilismo pós-moderno é a verdade do cristianismo", um niilismo manifestado no escândalo da Cruz e na "encarnação". Livro de diálogo - tanto quanto possa haver "diálogo" dentro da cultura em vez de meras "solidões" que por vezes se encontram para falar -, O Futuro da Religião deve ser lido juntamente com as encíclicas de Bento XVI, Deus Caritas Est e Spe Salvi, e com a "lição de Ratisbona" sobre a fé e a razão. «Mal procuramos dar-nos conta da nossa condição existencial, que nunca é genérica, metafísica, mas sempre histórica e concreta, descobrimos que não nos podemos colocar fora da tradição aberta pelo anúncio de Cristo.» Rorty diria que isto corresponde a uma "gratidão injustificável" tal como, para ele, a "social hope", a "marca" da sua obra, é uma "esperança injustificável". Esta "diferença" faz com que Rorty e Vattimo, nas palavras do primeiro, "não entrem em conflito". E que se produzam livros admiráveis como este.

MUSEOLOGIA PARLAMENTAR

João Gonçalves 5 Jul 08


Alberto Martins e os seus escuteiros amestrados aprovaram, com os votos do PC, do BE e de meia dúzia de PSD's, a alteração à lei do divórcio. Na mesma sessão, a "casa da democracia" dividiu-se sensivelmente no mesmo sentido por causa de um eventual "Museu do Estado Novo" em Santa Comba Dão. Uma associação qualquer de "anti-fascistas" destinada a "não apagar a memória" - aparentemente só a esquerda tem direito à memória - fez chegar uma petição à AR contra a pretensão da Câmara de Santa Comba Dão. António Filipe, um PC sério, "relatou" a petição e a sombra do Doutor Salazar voltou a pairar sobre as cabecinhas de avestruz da maioria dos nossos excelsos deputados. Estes seres ignoram que uma democracia adulta não deve ter fantasmas. E que a história é feita de lances de luz e sombra. A rasura de umas dezenas de anos de vida nacional, em nome da tranquilidade da "consciência" dos senhores deputados, é um gesto bronco e gratuito. A história, feia ou bonita, não "se apaga" com deliberações deste género. Nem sequer se trata de ser "pró" ou "contra" esse concreto pedaço dela. Trata-se, como sempre se tratou com a história, de tentar perceber sem preconceitos. Salazar e o seu regime estão mortos e enterrados em campa rasa. Ora o século XX português foi quase todo a história da sua preparação, do seu apogeu e do seu ocaso. A vasta maioria de esquerda que manda no Parlamento - desde o cachimbo do prof. Rosas, passando pelos "verdes" melancia até algum PSD envergonhado - de vez em quando perpetra destas provas de vida em nome da "memória", do "esquecimento" e do "progresso". Todavia, quem não tem "memória" não tem como a "apagar" e, muito menos, como "progredir". O Parlamento é, assim, cem vezes mais museológico do que seria um pequeno "Museu do Estado Novo" em Santa Comba Dão.

UM COELHO AÇORIANO

João Gonçalves 5 Jul 08


O chefe de Estado enviou ao Tribunal Constitucional o "estatuto político açoriano". Vai daí, um tal Coelho, com um facies assustador e que até ontem o país felizmente ignorava, saiu do seu justo anonimato como líder regional parlamentar do PS para insinuar que Cavaco não aprecia a autonomia regional. Em Portalegre, o presidente, cheio de pachorra, explicou aos jornalistas para o que é que servia. E, questionado sobre a "crise" e o papel do governo, devolveu-lhes a pergunta: « é para isso que o governo é governo, não é?» No fundo, o pobre Coelho açoriano tomou as putativas dores do PS nacional. Cavaco limita-se a cumprir o seu papel e já intuiu perfeitamente o que aí vem. Eles que cumpram o deles.

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