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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

CÃO COMO NÓS?

João Gonçalves 24 Jun 08


Nunca percebi as contas da vida de um cão. Sei que o meu tem onze medidos pelos da nossa vida. Está inequivocamente velho. Como é pesado, coxeia embora arrebite e corra à vista de "colega" que lhe interesse. Custa-lhe subir as escadas e deita-se com facilidade na rua a descansar. Sei que vou morrer. E não apenas sei isso como sei que tudo e todos à minha volta também vão. Talvez por isso aprecie filosofia, essa silenciosa companheira que, ao mesmo tempo que incomoda a estupidez (Nietzsche), nos "prepara" (nunca "prepara") para nos vermos livres dos estúpidos para sempre. O cão, aparentemente, está dispensado a estas evidências. Ocorrem-me palavras de Fernanda Botelho. «Tudo à minha volta assume um cariz gerôntico. Estou a viver como uma espécie em vias de rápida extinção (...) Que torturada morte é esta ainda estúpida vida?»

SARMENTO PERONISTA

João Gonçalves 24 Jun 08

O TGV é um colossal embuste. Mesmo a Espanha já anunciou que não há linha até Badajoz. Dito isto, e porque a obsessão com o vitesse não é uma tolice exclusiva de Sócrates e Lino, não vejo - até pelo princípio da não consignação orçamental e por causa da gestão dos fundos comunitários - como é que se substituem linhas e comboios pela caridadezinha "social" recomendada pelo regressado Morais Sarmento. Este "peronismo" básico é um mau começo para as hostes de Ferreira Leite. E a senhora não tem manifestamente vocação para Eva Perón.

DIZER ALGUMA COISA

João Gonçalves 24 Jun 08

«Alguns escritores escrevem directamente e dizem: Escrevo cinco páginas por dia, o que parece aberrante. Não escrevem, apenas redigem um texto qualquer. Eu escrevo uma frase. Simplesmente, reviro-a vinte vezes para conseguir dizer alguma coisa.» (Michel Mitrani, Conversas com Albert Cossery, Antígona) Cossery vai ao osso da questão. Perde-se demasiado tempo a ler "um texto qualquer" que se toma por um "grande livro" ou por um "ensaio indispensável". Apesar de tantos palavrosos espojados nos escaparates, nos jornais, nas revistas, nas televisões e nas universidades, é cada vez mais difícil, entre nós, encontrar quem, verdadeiramente, consiga "dizer alguma coisa" .

ALBERT COSSERY (1913-2008)

João Gonçalves 24 Jun 08


Em apenas cinco anos, este blogue já conta com demasiados obituários. Isto quer dizer que, à semelhança dos que desaparecem, também nós, para usar uma expressão de Gore Vidal, nos encaminhamos graciosamente para a porta chamada "saída". Como as coisas andam, a ideia acaba por não ser completamente má. Albert Cossery, nascido no Egipto, "enfiou-se" em Paris há sessenta anos onde morreu, no domingo, com noventa e cinco. Literariamente era um nómada embora o homem se deslocasse por entre pouco mais do que uma rua durante todos estes anos. Não vivia para a vida videirinha e revelava o seu desprezo por isso na lentidão do ofício traduzida em "apenas" oito livros publicados. Como bom escritor, era um imenso observador das pessoas e dos seus acasos, no essencial, infelizes. «Lui qui fut l’ami de Henry Miller et de Lawrence Durrell, de Camus et de Queneau, de Jean Genet et d’Alberto Giacometti, on le voyait tous les jours s’attabler et se fixer pour de longues heures tel une momie élégante au Bonaparte, aux Deux-Magots, au Flore, sur l’autre rive du boulevard chez Lipp ou dans des cafés moins connus de la place, observant en seigneur nonchalant la course folle des gens, écoutant leurs conversations, médisant avec talent et causticité sur la faune alentour, cinglant mais non sans tendresse, et répondant par des sourires, des clins d’yeux et de longs silences, une opération d’un cancer de la gorge ne permettant pas à ses sons d’être audibles.» Citado aqui por Pierre Assouline, Cossery disse que escrevia para que quem o lesse não fosse trabalhar no dia seguinte. Em sua homenagem, eu que "sonhei" ser tão livre como ele e que acabei prisioneiro da insensibilidade, sentei-me no café a contemplar o vazio, meu e alheio, e a pensar neste homem que nunca desejou «ter um belo carro ou qualquer outra coisa» a não ser ter sido apenas ele mesmo.

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