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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O PESSOA DELES

João Gonçalves 13 Jun 08

Desde que o Francisco deixou a Casa Fernando Pessoa nunca mais lá pus os pés. Tinha lido que a sua sucessora, a "escritora" Pedrosa, e o presidente da CML iam inaugurar uma estátua dedicada ao poeta no Largo São Carlos. Não sei se foram ou não. Não me interessa nem tão-pouco à memória de Pessoa. Já me incomoda terem patrocinado este disparate insultuoso. O Pedro resume a coisa. Não é preciso dizer mais nada.

DEMOCRATAS POR ENCOMENDA

João Gonçalves 13 Jun 08



A cara de ovo estrelado do dr. Barroso a tentar, juntamente com a nomenclatura europeia, "dar a volta" ao resultado do referendo irlandês é interessante a duplo título. Os democratas que pastoreiam as nações europeias só suportam a democracia quando ela os apoia. Caso contrário, amuam. Mesmo amuados, porém, pretendem prosseguir a sua alucinação privativa como se nada se tivesse passado. Barroso incitou à continuação das ratificações parlamentares, mas o presidente checo - cujo país ia proceder à ratificação - já anunciou que o tratado de Lisboa finou-se. As prosas retorcidas dos "correspondentes" televisivos metem nojo. E até a dra. Manuela escolheu a ocasião para partilhar a língua de pau com Sócrates. Enfim, é na mão destes democratas por encomenda que estamos. Começam a cansar.

A PAZ DOS SEPULCROS

João Gonçalves 13 Jun 08

Aqui há uns meses, o governo, alguma imprensa, o PS e a blogosfera do optimismo antropológico disseram cobras e lagartos de um documento da SEDES que previa desassossego social para breve. Mário Lino e os empertigados da ANTRAM empurraram, com as respectivas barrigas, o "problema" dos últimos dias mais lá para diante. As televisões mostraram-os, graves, a assinar "acordos" como se a "paz" estivesse de regresso. Está, de facto. Mas é a paz dos sepulcros do Dom Carlos, de Schiller. Esperem para ver.

CENTO E VINTE ANOS

João Gonçalves 13 Jun 08



Teria para aí uns quinze, dezasseis anos quando "descobri" Fernando Pessoa. Chegou-me nas fotocópias distribuídas pela professora de português onde constava o nome de Alberto Caeiro. O mais "humano" dos heterónimos, o "mestre" dos olhos azuis, escondia o resto. Aos poucos, Pessoa avançava pela sua própria voz e, sobretudo, pela do febril e heterodoxo "engenheiro de máquinas", Álvaro de Campos. Li-o num livrinho da Ática, de capa amarela, organizado por David Mourão-Ferreira, O Rosto e as Máscaras. Bernardo Soares viria muito mais tarde. A emergência de Pessoa equivale a um murro no estômago. Não é possível, a não ser por analfabetismo funcional, ficar indiferente ao mínimo verso do homem. Escrevo "homem" com esforço, apesar de sabermos que andou por Lisboa, que teve um emprego modesto, que privou com "amigos". Na realidade, Pessoa, como tal, pouco existiu, pelo menos naquele sentido frívolo que costumamos associar ao termo "viver". Mais cedo do que qualquer um de nós, no dia do seu nascimento que hoje se comemora, já Pessoa caminhava para o fim. "Viveu" sempre e só nesse lugar de abismo que era a letra dos seus versos, como um Wotan desapossado de amor e de liberdade, simultaneamente o mais humano dos deuses e o Deus mais cruel dos homens. Já fui mais "pessoano" do que sou hoje. E já fui mais tudo do que sou hoje. Tive o privilégio de falar uma tarde inteira, na sua casa na Calçada das Necessidades, com João Gaspar Simões por ocasião dos cinquenta anos da morte do poeta. Varri os livros de Jacinto Prado Coelho, Lind, Eduardo Lourenço, Saraiva, Lopes e Casais Monteiro. Muitas vezes pego na pequena edição da Aguilar e escolho ao acaso um verso. "Todo o cais é uma saudade de pedra", por exemplo. «Muitos homens tiveram saudades e viram cais, mas temos razões para chamar momento raro a esse em que uma consciência de poeta arrancou do mundo das palavras portuguesas esta espécie de inscrição de estela imortal, que depois dele todos temos guardado em algum sítio, todos, os que viajaram e os que só na alma viajam», escreveu Lourenço em 1952. «Pessoa limitou-se a sentir e a pensar o existente, bem ou mal não interessa, e a compreender que uma consciência está sempre aquém e além de todas as coisas, jamais coincidente com a existência delas. E mesmo com a existência em geral. Fê-lo como nunca ninguém o tinha feito. Nem Antero. Mas com isso o extraordinário poeta do "lado ausente de todas as coisas" não "serviu" ninguém. Serviu a sua inviolável solidão e pediu aos outros que cercassem a deles de altos mutos. Não cremos (Pessoa é muito complexo) que a sua poesia seja alheia a outros gestos igualmente últimos do homem: o apelo da fraternidade, da esperança, do amor. Se assim for, significa que é limitado e nada mais. Há homens (houve sempre e pessoalmente desejamos que a sua raça estéril e altiva nunca mais acabe) que não são capazes de olhar até ao fim o espectáculo do mundo e da história tendo aí a palavra "esperança". Homens do Inferno, se acreditarmos em Dante. Fernando Pessoa talvez tivesse sido um deles. E porque não devia sê-lo?» Pessoa é o nosso maior cometa trágico, o rei-astro morto da nossa falsa e desesperançada Baviera.

PORREIRO, PÁ

João Gonçalves 13 Jun 08



O pretty boy associou a sua magnífica carreira política - não tem outra - ao tratado de Lisboa. O pretty boy, o dr. Barroso e demais dirigentes de uma Europa artificial e burocrática, justificadora de correrias permanentes e frívolas a Bruxelas, acabaram enterrados na sua teimosia arrogante. Bastou o voto de um dos povos europeus para renascer a esperança de uma Europa fundada naquilo que é a sua história e o seu fundamento: o conflito criador contra os consensos das salas cinzentas, a diversidade dos povos contra a unificação desnaturada por cima, o respeito pela liberdade da opinião pública em vez dos clichés do jornalismo oficioso estilo D. Teresa de Sousa e demais correspondentes televisivos lambe-botas. A Irlanda merece um pouco de Píndaro: «dá-lhe, de concidadãos/ e estranhos, o respeito e agrado./Pois ele segue direito/ por caminhos à insolência hostis,/de seus nobres maiores/ o pensar escorreito claramente praticando.» Porreiro, pá.

Nota: Por cá, a coisa esconde-se nas televisões atrás das "grandes vitórias" do Porto e do Benfica junto da UEFA. Com a RTP sempre na frente da mediocridade servil da propaganda. Pobre país eternamente periférico que nem na Europa merece estar.

UMA BOA NOTÍCIA

João Gonçalves 13 Jun 08


Outra coisa importante que aprendemos ontem com Sócrates é que, apesar do absolutismo democrático, ele não controla nem prevê. Três anos depois, e mais do que o Estado, Sócrates declarou-se publicamente vulnerável. Mesmo assim, só daqui a oito dias é que a dra. Ferreira Leite aparece. E aparece porque existe uma coisa chamada congresso do PSD senão provavelmente só a víamos em 2009. Em suma, o regime está vulnerável. É uma boa notícia.

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OS SÓCIOS DA GALP

João Gonçalves 13 Jun 08


«Nós temos de andar de carro», diz uma gorda na televisão. É com gente desta que a GALP conta. Mais cêntimos, por favor.

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