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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

AS PARCAS

João Gonçalves 16 Abr 08


A esquerda e onze deputados do PSD votaram o fim do casamento civil desde que se verifiquem as seguintes "causas objectivas": a separação de facto por um ano, a alteração das faculdades mentais de uma das partes, a ausência sem notícias ou "quaisquer outros factos que, independentemente da culpa, mostrem a ruptura definitiva". "Quaisquer" é, por definição, um termo que não tem nada de objectivo. Por isso, as outras três "causas objectivas" são meramente facultativas. Só o "quaisquer", na realidade, conta. Vale tudo.

TUDO ACABA? E DAÍ...

João Gonçalves 16 Abr 08


Pedro Bandeira Freire, afinal, não aguentou. Lamento profundamente. Sobretudo porque continuamos a aguentar tantos idiotas inúteis e úteis ao "serviço" desta democracia despudorada, amoral e inculta. «Olhando para trás, e agora não posso deixar de o fazer, porque com maior obstinação vejo um túnel ao fim da luz, reconheço que tive uma existência encantada, no sentido que se dá às dos contos de fadas. Fui tocado muitas vezes pela varinha mágica com tudo o que isso possa significar de maravilhoso. Fiz obra, despontei um filho, escrevi algumas árvores e plantei vários livros, imaginei uns filmes e muitos fazem parte do meu imaginário, espaireci na rádio e na televisão, andei por esse mundo, fiz tudo para pintar a manta e o diabo a quatro ou a sete. Tudo isto me submerge numa grande emoção e num sincero sentimento de gratidão que tenho perante a vida. Tudo acaba? Pois acaba! E daí...»

AS SENHORAS ZAPATERO

João Gonçalves 16 Abr 08


Zapatero, afinal, foi mais longe. Fez questão de tirar um "retrato de família" apenas com as suas ministras para mostrar ao mundo que é "diferente" e "moderno", um verdadeiro zelota das "quotas". Depois, permitiu que uma senhora, à beira de dar à luz, passasse revista às tropas com um ar de quem anda a escolher trapinhos para a criança. É evidente que nada obsta a que uma mulher seja ministro da defesa e, muito menos, que tivesse engravidado antes do exercício. É Zapatero, ao vivo e a cores, quem aprecia introduzir o "elemento sexista" na política, "obrigando" as senhoras a exibirem-se como "bibelots". Pior do que isso, porém, é elas aceitarem ser tratadas como tal.

O IMPÉRIO TAGARELA

João Gonçalves 16 Abr 08

Isabel Pires de Lima passou praticamente todo o mandato de ministra da cultura na ilusão de que "vivia" no Hermitage. Pinto Ribeiro também já arranjou um Hermitage privativo com o "acordo ortográfico". O resto é com as "produções fictícias". Por isso é mais do que oportuno reproduzir o artigo de Rui Ramos no Público. Não vale a pena gastar mais português com o assunto.

«Já venho tarde, mas não queria deixar de saudar a boa nova. Não me refiro à baixa do IVA, anunciada pelo ministro das Finanças, mas à nossa "expansão", prevista pelo ministro da Cultura. É verdade: vamos expandir-nos. Está para chegar um Portugal maior. Talvez a sua população e riqueza até venham a diminuir, mas que importa? Temos uma arma secreta para conquistar o mundo: aquela que Fernando Pessoa insinuou maliciosamente ser a "pátria" dele - a língua portuguesa. É o que nos prometem os crentes do Acordo Ortográfico: um Reich na ponta da língua. Não vou discutir ortografia, mas os termos curiosos em que a temos debatido nas últimas semanas. De um lado, falaram-nos do "c" de "facto" com a intransigência possessiva que os sérvios dedicam ao Kosovo, e avaliou-se o Acordo "estrategicamente", como se estivéssemos perante uma nova partilha de África, com o Brasil no papel oitocentista da Inglaterra. Do outro lado, recomendaram-nos a nova grafia como a oportunidade de não "ficar aqui como uma espécie de dialecto" (horror), e podermos desfilar ao lado do Brasil na "afirmação de um poder à escala mundial" (segundo o nosso entusiasmado embaixador em Brasília). Acho comovedor este uso despudorado da linguagem típica do imperialismo ("expansão", "estratégia", "afirmação do poder à escala mundial", etc.) para nos referirmos à língua que partilhamos com mais umas dezenas de milhões de pessoas de outras origens e nacionalidades. Quando nos puxam pela língua, acontece-nos isto: de repente, este país pachorrento e decadente revela-se uma potência beligerante, ciosa das suas aquisições e decidida a novas conquistas. Sim, porque através da "pátria" de Pessoa, nós somos grandes. Tal como a casa da velha canção brasileira, o nosso "império" não tem soldados, nem dinheiro, mas é feito com muito esmero - da língua que outros usam na América, na África e (segundo gostamos de acreditar) na Ásia. E assim prosseguimos a nossa expansão ultramarina, por mais que ninguém dê por isso. Definitivamente, continuamos a não ser um país pequeno. No tempo do Estado Novo, isso provava-se com os mapas das colónias; agora, pacífica e correctamente instalados em democracia, evocamos a "quarta língua a nível mundial", e os seus "200 milhões" de súbditos. É compreensível. No fundo, há algo de deprimente nas nações reduzidas. George Simenon dizia que ser belga é como não ter país. E talvez por isso, muita gente está preparada para lhe atribuir a ele ou a Hergé, tal como aos suíços Rousseau e Constant, uma pátria (a França) mais consentânea com a sua grandeza individual. As elites portuguesas, que durante a Monarquia sonharam fazer aqui um país tão próspero como a Bélgica e durante a I República tão democrático como a Suíça, nunca se conformaram com o estatuto de pequeno país que era o dessas nações, apesar de liberais e ricas. E depois de perdida a soberania com que nos ampliámos em África, agarrámo-nos à língua, a ver se por aí continuávamos a fazer uma sombra grande no mundo. Não nos fica mal desejarmos ser muito mais do que aquilo que somos. O que talvez seja menos recomendável é o modo como usamos esta grandeza imaginária para nos pouparmos ao reflexo da nossa realidade. A Europa pesa cada vez menos no mundo, e Portugal pesa cada vez menos na Europa. A língua é a balança avariada com que nos atribuímos robustez. Infelizmente, tudo o que assim sobe acaba por descer: eis que a Venezuela proíbe às suas crianças os Simpson e quer (como compensação?) ensinar-lhes português - e logo o nosso Governo tem de confessar que nos falta dinheiro e pessoal para acompanhar o último capricho de Chávez. O Brasil, muito citado acerca do Acordo Ortográfico, forma outro capítulo pungente do nosso irrealismo. Nunca percebemos que a ignorância mútua, ritualmente lamentada, não está à mercê de um "acordo". Fingimos desconhecer o fenómeno do "nativismo" no Brasil, que faz com que por cada Gilberto Freyre haja dez Sérgio Buarque de Holanda, ardendo em fervor antilusitano. Imaginamos que a incapacidade dos livros portugueses para hoje chegarem onde chegou Cabral em 1500 se deve simplesmente ao "c" de "facto". Nem sequer admitimos que o Brasil, no fundo, não nos importa demasiado. Vamos lá de férias: quantos aproveitam para ir ao teatro ou às livrarias? E quantos conhecem a política ou os escritores mais recentes do Brasil? A verdade é que o Brasil ainda não é suficientemente interessante para nós, e nós já não somos suficientemente interessantes para o Brasil. O resto é conversa de um império de conversa.»

RATZINGER, O PÓS-MODERNO

João Gonçalves 16 Abr 08


O Papa Ratzinger celebra, nos EUA, o seu aniversário. George W. Bush queria um "jantar de gala" - julgo que o mantém - mas Bento XVI escusa-se a estar presente. Bush percebe pouca coisa. Por isso, é natural que não entenda (mesmo que lhe tenham explicado) que Ratzinger é avesso à mundanidade. Num inquérito efectuado pela revista de língua alemã Cicero, no ano passado, sobre os quinhentos intelectuais alemães mais influentes, Joseph Ratzinger aparecia em primeiro lugar, deixando para trás, entre outros, Habermas, Grass ou Sloterdijk. É evidente que este resultado traduz um maior número de referências "mediáticas" ao nome do Papa por comparação com os restantes. Todavia, é significativo que isto aconteça. Ratzinger, num mundo desmazelado e incoerente, é uma clara referência de autoridade intelectual e de seriedade consistente. Não apenas por aquilo que representa para milhões de católicos espalhados por toda a Terra, mas, sobretudo, porque, fixando-se corajosamente em três ou quatro temas fundamentais, a sua palavra - a escrita, com anos e anos de edição, e a mais recente como Santo Padre - exprime a preeminência da fé cristã como o único "registo" de futuro verosímil (ou a sua equivalente "esperança", a "esperança por que fomos salvos, spe salvi) face às abstracções da "racionalidade" laica traduzida na "teologia do progresso" e na "modernidade". Ratzinger "está" em nome da reconciliação da Igreja com o seu próprio "mundo", e do homem consigo mesmo, uma vez esgotadas as "modalidades" superficiais e enganosas de "felicidade", mesmo aquela que as "novas tecnologias" (as materiais e as da "alma") prometem e ajudam a forjar e fingir. Denuncia a "ditadura de relativismo que não reconhece nada como certo e que tem como objectivo central o próprio ego e os próprios desejos". Exige, como lhe compete, uma fé "mais madura" e um combate ao "radicalismo individual" que nos faz "ser criança andando ao sabor de ventos das várias correntes e das várias ideologias". É, inequivocamente, um pós-moderno sem complexos retóricos. Parabéns.

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