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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

EMPLASTRO TELEVISIVO

João Gonçalves 5 Abr 08


O canal ARTE dedicou dois programas a Karajan. Passo pelos canais portugueses e estão todos à porta do estádio do FCP onde a massa exulta e comenta. É assim como saltar da Europa para o Burundi. Parabéns à prima.

AUTO-RETRATO

João Gonçalves 5 Abr 08

«Há muito que deixei de investir nas pessoas; corrijo, só nelas me aprofundo após prova de absoluta sanidade, atestado de serenidade, limpidez de intenções e coração limpo, urbanidade e lealdade. Em suma, abandonei em definitivo a idade em que, tardiamente, persistia em equivocar-me perante um sorriso, uma palavra amável ou um elogio. Os poucos amigos que tenho censuram-me o bisonho semblante, a falta de habilidade para o convívio, a sempre esperada recusa para um jantar, o aparente desinteresse pelas doenças e operações alheias, as conversas sobre terceiros [ausentes], a indisponibilidade para "engrupar", o gosto pelo isolamento. Posso falar durante horas, rir-me a bandeiras despregadas, brincar, anedotar e, até, fazer a rábula do palhaço, mas só o faço com quatro ou cinco amigos, familiares ou aquelas raras pessoas que, não sendo amigas, ainda me permitem obedecer ao conselho da intuição. Estou absolutamente convencido do desperdício da forma imediata do gregarismo - aquela para a qual nos empurra a solidão - bem como daquela chamada amizade que esconde um interesse, um negócio ou um pedido.»

Miguel Castelo-Branco, in Combustões, e João Gonçalves in Portugal dos Pequeninos

IRRELEVÂNCIAS

João Gonçalves 5 Abr 08

O PSD de Menezes continua a sua alegre caminhada para a irrelevância. Agora querem "pedir explicações" porque a jornalista Fernanda Câncio vai ter um programa na RTP-2 sobre gente de bairros sociais. Onde é que está o problema?

LER

João Gonçalves 5 Abr 08

No Expresso, Miguel Sousa Tavares sobre a nossa sociedade sem deveres mas sempre muito atenta aos direitos.

«Começo por apresentar o meu cadastro ‘fracturante’: fui sempre a favor da despenalização do aborto, porque nunca entendi que a maternidade pudesse ser imposta como um castigo a quem engravidou sem querer, ou o aborto, nessas circunstâncias, fosse tratado como um crime; sou a favor da equiparação de direitos entre as uniões de facto e os casamentos - mas sou contra a transposição integral dos direitos do casamento para as uniões de facto, que é um regime onde apenas existem direitos e não existem deveres; sou a favor do casamento entre homossexuais, exactamente porque a simples união de facto, ainda que com deveres consagrados legalmente, não lhes permite aceder a um regime em que possam ter todos os direitos conjugais e respectivos deveres, apenas porque é diversa a sua orientação sexual; sou contra a adopção legal por casais homossexuais, porque apenas cura do interesse dos adoptantes sem curar dos do menor, cuja vontade presume indiferente; sou contra ‘o fim do divórcio litigioso’, tal como previsto no projecto chumbado do BE e a ser retomado em breve pelo PS, em moldes semelhantes. Em matérias ditas fracturantes, estou assim completamente fracturado. Mas tenho a presunção de manter alguma coerência neste ziguezague ideológico: defendo os regimes em que existem direitos a que correspondem obrigações. Rejeito aqueles em que apenas existem direitos sem deveres. A lei actual prevê que, não havendo acordo para um divórcio por mútuo consentimento, o cônjuge que se ache não culpado da situação de ruptura conjugal possa intentar contra o outro uma acção de divórcio litigioso, com fundamento em qualquer facto que, pela sua gravidade, comprometa a possibilidade de continuidade da vida comum, designadamente a violação dos deveres de coabitação, assistência e fidelidade. Num mundo perfeito e numa situação serena, esta possibilidade deveria manter-se letra morta, porque um divórcio litigioso nunca aproveita a ninguém: nem ao requerente, nem ao requerido, nem, sobretudo, aos filhos comuns. Mas, apesar de tudo, há alguma salvaguarda que a lei garante ao cônjuge declarado não culpado de um divórcio litigioso - na partilha de bens, por exemplo - e é legítimo que quem não teve culpa no divórcio possa reclamá-la para si. E, acima de tudo, existe uma razão de ordem pessoal e íntima para que alguém recuse divorciar-se contra sua vontade ou, no limite, só aceite fazê-lo de forma litigiosa e pedindo ao tribunal que declare então o outro culpado pela ruptura: acontece com os que pensam que o casamento é um contrato inquebrável, até à morte, e que defendê-lo sempre, por mais difíceis que sejam as circunstâncias, é um dever e um direito que lhes assiste. Eu não penso assim, mas não me sinto no direito de impor o que penso aos casamentos alheios. Isto quer dizer que não há actualmente, na nossa lei civil, a possibilidade de requerer o divórcio, mesmo que o outro não queira, dizendo simplesmente que se deixou de o amar. Dito desta maneira, pode parecer muito chocante, nas sociedades urbanas e sentimentalmente libérrimas em que vivemos, mas convém olhar as coisas com mais cautela. Em primeiro lugar, embora o princípio legal vigente seja este, existe uma excepção que tudo muda: a lei prevê que possa ser fundamento de divórcio litigioso a separação de facto existente - dantes, ao fim de seis anos, agora de três e em breve de um ano apenas, que é quase o mesmo que nada. Ou seja, não apenas o cônjuge abandonado pode invocar tal facto como fundamento de divórcio, como também aquele que abandonou o pode fazer: sai de casa, espera um tempo e obtém o divórcio contra a vontade do outro e sem culpa do outro. Parece que já chegava e sobrava como defesa suficiente da instabilidade sentimental. Mas não: pretende-se também acabar de vez com a possibilidade de alguém obter em tribunal a declaração de que não foi culpado no divórcio. E, na reveladora justificação do líder parlamentar do PS, consagrar um regime legal que estipule que ‘o casamento baseia-se nos afectos e não nos deveres’. Eu sou contra isto. Contra uma sociedade que, em todos os domínios da vida, acha que faz parte dos direitos fundamentais do indivíduo nunca ter deveres. Pegando num exemplo recente, são os pais que acham que não têm o dever de educar os filhos e que basta dar-lhes telemóveis e iPod’s para que eles não chateiem; são os filhos que acham que não têm o dever de obedecer e respeitar os professores na escola; os professores e os conselhos directivos que acham que não têm o dever de impor disciplina e respeito, custe o que custar; e os teóricos da educação que acham que não têm o dever de castigar a sério os alunos mal-educados, pondo-os a fazer trabalhos para a comunidade nos dias de folga, em lugar de os suspender ou transferi-los de escola. Esta teoria chega agora ao casamento e ao direito de família, pela mão da modernidade imbecil do PS e do Bloco de Esquerda. Estão convencidos de que assim mostram a sua abertura de ‘esquerda’, mas estão completamente enganados: fora dos meios urbanos, ricos e cultivados das grandes cidades, no país pobre, interior e onde a família conjugal é, a maior parte das vezes, a única defesa contra a solidão, a doença e as agruras da vida, o fim instantâneo do casamento por simples vontade de uma das partes vai traduzir-se apenas na vontade do mais forte contra o mais fraco. Mas talvez isto seja demasiado complicado para explicar àquelas cabecinhas pré-formatadas dos socialistas e dos bloquistas.O PSD levou a sua liderança bicéfala ao ‘Alentejo profundo’ - o que quer dizer Alqueva. E quando um político vai ao Alqueva, é fatal que oiça queixas. Tantos anos a reclamar a barragem e, afinal, depois de pronta, depois dos milhões a perder de vista investidos na albufeira e nos sistemas de irrigação agrícola, quando seria de esperar que estivessem agradecidos ao esforço financeiro do país, é o contrário que se passa. Porque, como explicou um autarca local a Luís Filipe Menezes, “temos água com fartura, mas não temos mais nada”. A Aldeia da Luz queixa-se que (depois de lhes terem feito uma aldeia nova, inteirinha) ainda não fizeram o centro de dia; a Aldeia da Estrela queixa-se que tem a água à porta, mas não tem um pontão para barcos; outros queixam-se do “olival intensivo dos espanhóis” (a quem eles venderem as terras por um preço dez vezes acima do que vigorava antes do Alqueva); e outros ainda queixam-se porque “o Governo não previu os efeitos económicos das alterações climáticas” e eles venderam aos espanhóis o girassol (que serve para fazer biocombustíveis) a 250 euros a tonelada e agora vale 620. Menezes ouviu tudo e concordou: "o governo fez questão de não apostar no empreendedorismo local". Eis um retrato do Portugal profundo: todos têm direitos inesgotáveis, sem deveres alguns. Nem ao menos o de aproveitarem as oportunidades que lhes caiem do céu. Menezes, como está na oposição, chama a isto “empreendedorismo”. Eu chamo-lhe a atitude de estar sentado no café à espera do subsídio e a dizer mal de tudo.»

(via Jumento)

UMA BELA AVENTURA

João Gonçalves 5 Abr 08

Com uns "headphones" onde aprecio o Ring de Karajan, leio este post e este de duas pessoas que não tenho por primitivas, antes pelo contrário. O Eduardo até faz o favor de ser meu amigo. Todavia, o mero sussurrar do nome do frei Bento eriça-me logo a carcaça. Se há alguém que tem o dever de ler e de situar os textos bíblicos no respectivo contexto histórico e teológico é ele. Ou ele - e a autora do livro - ignora o papel central da mulher no cânone católico, personificado, quer na figura da Mãe de Deus, quer em Maria Madalena ou nas famílias de Abraão e de Isaac, por exemplo? É evidente que os Evangelhos não constituem propriamente panfletos feministas a debater por mulheres mal resolvidas. Os Evangelhos dirigem-se a todos os seres humanos e não exibem distinções sexistas adequadas à "modernidade". Todo o homem ou mulher que quiser conformar-se com a Palavra do Senhor encontra ali um rumo seguro, corajoso e pacífico. O que não deve esperar é que seja a Palavra dos Evangelhos a "adaptar-se" ao curso das "modas" e ao "positivismo" democrático, manifestamente outra discussão. Quanto à "imagem" literária do cão e do osso - presumo que o crente seja o cão e o osso, a fé - usada para ilustrar a posição do autor do post, nem merece reparo dado o bom gosto revelado. Apenas lhe digo que ninguém "persiste" numa "crença" por critérios de "utilidade" ou de "inutilidade". Nos dias de hoje é mais incómodo ser católico do que qualquer outra coisa. A sua "imagem", aliás, é bem o reflexo disso. Mas descanse que é justamente esse incómodo que transforma a fé numa bela aventura.

KARAJAN, O GÉNIO DO EXCESSO

João Gonçalves 5 Abr 08



Comemora-se hoje o centenário do nascimento do genial - eu, quando quero e gosto, também não me privo - Herbert von Karajan. Numa entrevista longínqua perguntaram a Teresa Berganza quem é que, na opinião dela, eram os maiores músicos do século XX. Berganza escolheu a Callas, Karajan e Domingo. Sim, Karajan foi, sobretudo, um músico cujas interpretações, algumas iconoclastas, permanecem únicas. Pessoalmente não era um modelo de simpatia e a "correcção" nunca lhe perdoou o "pecado" nazi. Mesmo aqui, Karajan limitou-se a seguir a reflexão do insuspeito Valéry: a vida dura pela mediania mas vale pelo excesso. De Bach a Strauss, passando por Wagner, Bruckner, Brahms ou Beethoven (de quem dirige a "7ª" no vídeo), Karajan deixou a sua "marca" indelével de extraordinário e caprichoso artista, como, aliás, lhe competia. Na ópera italiana são incontornáveis as suas versões de Verdi, Puccini ou de Donizetti, "ao vivo" ou em estúdio. Até o derradeiro "Ballo", com as inexplicáveis Florence Quivar e Josephine Barstow, constitui um monumento prodigioso de direcção orquestral com a fiel Filarmónica de Vienna. Impôs novos "talentos", forçou intérpretes a experimentar coisas que lhes arruinaram a voz (a Ricciarelli, depois da "Turandot", desapareceu vocalmente) e arrancou de outros - a "Isabel de Valois" ou a "Aida" da Freni, em Salzburgo - o melhor. Mais um da altiva estirpe que já não se fabrica.

KARAJAN, O GÉNIO DO EXCESSO - 2

João Gonçalves 5 Abr 08



Karajan dirige Agnes Baltsa como "Princesa Eboli" no Don Carlo, de Verdi. A encenação foi dele, para o Festival de Salzburgo. Baltsa, possuidora de um timbre peculiar, é uma das que se "agigantou" à mãos de Karajan.

KARAJAN, O GÉNIO DO EXCESSO - 3

João Gonçalves 5 Abr 08



Karajan dirige Placido Domingo e Mirella Freni em Madama Butterfly, de Puccini. Divino.

KARAJAN, O GÉNIO DO EXCESSO - 4

João Gonçalves 5 Abr 08



Karajan dirige Wagner, Tannhäuser, abertura.

KARAJAN, O GÉNIO DO EXCESSO - 5

João Gonçalves 5 Abr 08



Karajan dirige o prelúdio de Die Walküre, de Wagner.

KARAJAN, O GÉNIO DO EXCESSO - 6

João Gonçalves 5 Abr 08



Karajan dirige a abertura Egmont, de Beethoven.

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