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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

REVÊ-LO A ELE

João Gonçalves 24 Jan 08

O dr. Constâncio passa a vida a "rever", em "alta" ou em "baixa", as suas magníficas previsões. Não estará na hora de, finalmente, se rever o dr. Constâncio?

A WELTANSCHAUUNG PORTUGUESA

João Gonçalves 24 Jan 08

«Falta ao país a grande política: falta-lhe uma ideia de continuidade, com ou sem a Europa, entregue a cozinheiros e copeiras, falta-lhe vibração, patriotismo e orgulho nacional; falta-lhe o sonho e o cortar amarras com tudo o que o nos trouxe a esta miserável situação de desamparo, penúria, atraso e baixar de braços. Cabia ao Presidente da República encher o coração dos portugueses, incitá-los à iniciativa, puxar as orelhas a um governo que existe mas não vive. Cavaco não o fará, pois, na lógica da banalidade em que estamos imersos, o que importa é assegurar a reeleição. Os portugueses pelam-se pela morte. O maior desejo dos portugueses é o de estarem mortos, com três palmos de terra em cima e uma jarrinha de malmequeres sobre a tumba. O resto é para Sócrates e para os políticos e as políticas de nenhures.»


Miguel Castelo-Branco, in Combustões

O DIREITO DE ESCRUTINAR E DE CRITICAR

João Gonçalves 24 Jan 08

Este blogger, o direito a usar a própria mona, o exercício crítico, a vigilância sem tréguas da democracia contra os "democratas" estão de parabéns. O Ministério Público, através das procuradoras Cândida Almeida - a directora do Departamento Central de Investigação e Acção Penal e que me honra com a sua amizade - e Carla Dias, arquivou a queixa do senhor 1º ministro contra o citado blogger por alegada difamação a propósito das já politicamente esquecidas habilitações académicas do secretário-geral do PS. «Quem desempenha funções de órgão de soberania sujeita-se a ver a sua actividade profissional e/ou institucional sindicada pelos cidadãos, que têm o direito de escrutinar e criticar, porque tal pertence ao núcleo do direito fundamental de expressão do pensamento.» Vejam lá se aprendem, "democratas".

Adenda: Um leitor, nos comentários, refere a ausência quase absoluta de uma referência a este assunto nos media (excepção para o Público, quanto aos outros, tv's incluídas, não sei) e, acrescento eu, nos blogues. Tem razão. Faz tudo parte da complacência com que, em geral, nós tratamos da liberdade. As pessoas só se levantam do sofá - e, mesmo assim, com esforço - para defenderem a sua pequena-burguesia de espírito e as suas vidas videirinhas. Este assunto foi submerso mais por esta complacência generalizada, fútil e cúmplice (quem diabo é o dr. Caldeira para vir interromper o curso normal das coisas?), do que pela máquina de contra-informação ao dispor de quem manda. Não é por acaso que os "anarcas" têm aquela velha máxima espalhada nas paredes: "os que obedecem mantêm os que mandam". E os portugueses - mesmo os bloggers - adoram obedecer ao primeiro cabo de esquadra que lhes aparecer pela frente.

Adenda (2): Ver os comentários do autor do Do Portugal Profundo a este post e a quem peço desculpa pelo "nome" que lhe dei (Bebiano) e que já emendei. Quanto à questão de fundo, parece-me que se trata sempre da mesma, aliás colocada por Pilatos diante de Jesus, como recentemente recordou o Santo Padre na frustrada "lição" à Sapienza, de Roma: "o que é a verdade?".

O RAPTO DA MARILU*

João Gonçalves 24 Jan 08

Com a alegria que posso ter - é cada vez menor, acreditem - reproduzo, sem lhe pedir licença, o artigo de Constança Cunha e Sá publicado hoje no Público. Precisamos de bravos como ela e não de falsos mansos complacentes como a maioria.

«Há pequenos incidentes que, na sua aparente insignificância, valem pelo mundo que revelam. Não é necessário chegar aos excessos do ministro Mário Lino, onde o advérbio francês "jamais" compete efusivamente com "desertos" a preservar a todo o custo e com a irresponsabilidade das decisões governamentais. Às vezes basta a auto-satisfação miúda com que um ministro alardeia o "pluralismo" do PS e a generosidade de um governo que se dá ao luxo de "permitir" que um militante socialista se apresente numa televisão privada a criticar as políticas apadrinhadas pelo primeiro-ministro e chefe supremo do partido. Perante um exemplo tão magnífico como este, o dr. Santos Silva não se conteve: desafiando adversários e dois ou três socialistas que primam pela ingratidão e pela excentricidade, o ministro, sempre atento a qualquer tipo de desvio na informação, pegou numa pequena entrevista na SIC-Notícias, dada por Manuel Alegre, para cúmulo, em "horário nobre" e não madrugada dentro, como seria de esperar, e fez deste simples episódio uma prova irrefutável do "pluralismo" que floresce na maioria que nos governa. Manuel Alegre? Na SIC-Notícias? Com direito a horário nobre? E, ainda por cima, a exigir a demissão do ministro da Saúde? Como se comprova pelo esfusiante arrazoado do ministro, é nestes pequenos nadas, nestes inesperados episódios que o "pluralismo" socialista se revela em todo o seu esplendor. O dr. Menezes, que preside, agora, com mestria à desagregação do PSD, devia seguir estes exemplos de democracia e de liberdade interna, em vez de andar, por aí, com o dr. Santana Lopes, a insultar os seus opositores, ameaçando-os com as próximas listas de deputados - que, ainda no último congresso, no início do descalabro, iam ser feitas pelas "bases" do partido: esse mito do aparelho que preserva os seus interesses e promove a menoridade dos seus caciques. No PS, como se depreende das declarações do ministro Santos Silva, o "pluralismo" resplandece sempre que uma voz desalinhada irrompe num canal de televisão onde, aproveitando o pequeno espaço que lhe é dado, sacode umas opiniões incómodas, perante a satisfação do Governo e a impassibilidade das sondagens. Como é óbvio, se a "prova" apresentada pelo dr. Santos Silva fosse um facto banal, como é em todas as democracias, o alarido do ministro não só não se justificava como o levava (quem sabe?) a reflectir sobre o rumo do Governo e o papel do PS. É o carácter excepcional da entrevista, a inexistência de espírito crítico num partido que, hoje em dia, se caracteriza pelo conformismo e pela unanimidade cada vez mais forçada que permite a apresentação desta "prova" como sinal de um pluralismo - que se existisse não se deixava obviamente apresentar como prova! Só o autismo de um ministro, que vive na sombra do eng. Sócrates, é capaz de transformar uma crítica interna num mero trunfo de propaganda. Porque parte de um princípio contrário a qualquer tipo de pluralismo: ou seja, que toda a crítica é inócua a partir do momento em que se considera que a única alternativa à política do eng. Sócrates é o próprio eng. Sócrates, independentemente do fracasso da sua política e das suas promessas por cumprir. Afastada, durante seis meses, da política nacional, por motivos pessoais, seguindo à distância as inúmeras celebrações do Governo, os vários "escândalos" nacionais, as desgraças da oposição, os novos fundamentalismos que, por aí pululam, as previsões económicas para 2008 e o invariável falhanço das reformas anunciadas, fui vendo como o país se fazia e refazia, diariamente, ao sabor das últimas notícias, perante a fragilidade de uma opinião pública que se indigna com facilidade e se esquece com rapidez do que é, de facto, essencial. Ao fim de pouco tempo, tudo se mistura e se esvai numa amálgama de factos nivelados pela falta de memória, donde nada sobressai: da eleição do dr. Menezes que, num momento alto de patriotismo, garantiu que só correria, em território nacional, nomeadamente na Avenida dos Aliados e na Avenida da Liberdade, ao optimismo do Governo perante o quadro desanimador da economia, da miséria das reformas ao aumento do desemprego, da Ota e do que lá se gastou inutilmente à nova polícia dos costumes, da intromissão do Estado na vida privada dos cidadãos aos negócios obscuros que, mais uma vez, serão investigados "doa a quem doer", da contínua degradação da Justiça à farsa que se vive na Educação, do referendo ao Tratado de Lisboa que não se vai fazer à amena cavaqueira sobre as promessas dos políticos que ficam por cumprir, da agonia pública do Banco Comercial Português (BCP) à sua transformação numa espécie de delegação governamental, da reacção do PSD que, em nome de uma justa repartição de lugares, exigiu que um militante seu ficasse à frente da caixa Geral de Depósitos (CGD) à vontade expressa do dr. Armando Vara querer ir para o BCP, permanecendo, ao mesmo tempo, nos quadros da CGD, ficou apenas uma impressão difusa, subjugada pelo desejo permanente de novidade e pela forma esmagadora como ela nos cai em cima. De um dia para o outro, a fragilidade do capitalismo português, a dependência dos grupos económicos do Estado, a promiscuidade entre o sector público e o sector privado e todos os grandes negócios que ficam por explicar são substituídos por umas intrigas no PSD e pelo rapto da Marilu. »

*Por Constança Cunha e Sá, editado na edição do Público de 24.1.07

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