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portugal dos pequeninos

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DO ANO QUE PASSA - 5

João Gonçalves 30 Dez 06

O enforcamento de Saddam Hussein, depois de um julgamento indigno desse nome, é, ao contrário do que Bush imagina, um ponto de partida. É grave que o líder do mundo ocidental se regozije com um acto bárbaro ao arrepio de algo que levou anos e anos para se tornar uma conquista civilizacional: a eliminação da pena de morte. O Iraque transita assim para 2007 como uma enorme gangrena que ameaça alastrar. A morte do ditador é apenas mais um rastilho, porventura o mais impressivo, para desaustinar o mundo árabe e os famosos terroristas que Bush julgava surpreender no Iraque. Pior era impossível.

O ANO QUE PASSA - 4

João Gonçalves 30 Dez 06


Dos primeiros vinte e dois dias do ano que passa, fica a derrota de Mário Soares e a vitória de Cavaco Silva. Desta já me ocupei aqui. Fiquei com a sensação, depois de correr algumas livrarias, que o livro de Filipe Santos Costa, A Última Campanha, tinha sido comprado a resmas por alguém. Talvez o PS, talvez o visado e a sua Fundação, não sei. Foi graças à amizade e à gentileza de um dos principais protagonistas desse livro que o pude ler, em apenas duas noites, devidamente emprestado e pronto a ser devolvido. Lido com alguma atenção - e já que é do futuro, tal como o ex-"pai da pátria", que me interessa falar - o texto de Santos Costa permite algumas conclusões interessantes. A primeira, é que Soares nunca foi acompanhado no seu atabalhoado regresso pelo PS. É claro que houve ministros, secretários de Estado e o "aparelho" dos drs. Coelho e Perestrello a puxar pelo impuxável. Só que, já nessa altura, a prioridade de Sócrates era a preciosa estabilidade da sua maioria e do seu executivo. Cada vez que uma luminária do governo aparecia ao lado de Soares a falar em "estabilidade", Cavaco ganhava mais uns votos. As declarações e os silêncios dos profissionais do PS na campanha, feitos on e off ao autor do livro, mostram a enorme cautela daqueles em "explicar" a ligação do partido e do governo com o desastre anunciado. Leiam-se os depoimentos do "socrático" Marcos Perestrello e do "socrático convertido" José Manuel dos Santos. E percebam-se os afastamentos e a prudência analítica de um inesperado António Campos, de um "realista" e livre Medeiros Ferreira ou de um António Pedro Vasconcellos. Alfredo Barroso já tinha perdido o passo no métier e no PS quando se enfiou e desenfiou na campanha. Vitor Ramalho fazia ora o papel do cego, ora o papel principal na tragédia - foi o primeiro a querer Soares e o primeiro a querer que ele desistisse - e Vasco Vieira de Almeida, advogado de negócios e uma nulidade política, foi sempre o mandatário errado. Mega Ferreira não conta. Nessa altura já tinha o CCB "prometido". Em suma, Soares, sem dar por isso, e logo a seguir ao único momento verdadeiramente apoteótico da candidatura - o seu anúncio histérico no Altis -, passou a gerir sozinho um "saco de gatos" de que Sócrates se afastou prudentemente já a pensar na "cooperação estratégica" e no PS albanês que construiu a seguir. Deixou lá os "homens das pontes" como rendimento mínimo garantido. O resto eram amizades que não podiam dizer "não" e uns tolinhos de circunstância agarrados a "teorias da conspiração". Em segundo lugar, e como consequência disto, Sócrates e os seus acólitos mais próximos, muitos deles sem nenhuma tradição partidária, desfizeram-se do PS fundado por Soares em 2006, acto consumado num congresso recente. Na sua irresponsabilidade "poética", o bardo Alegre ajudou à festa e presentemente não interessa nada. A derrota de Soares sossegou e "socratizou" definitivamente um partido agastado pelas autárquicas e pelas "reformas" incompreendidas. Soares nunca percebeu que a "estabilidade" de que eles falavam e que berravam nos comícios, não passava por ele. Sócrates e Soares, segundo crónicas e íntimos comuns, dão-se muito bem e o "primeiro" telefona-lhe muitas vezes e ouve-o amiúde. Não custa nada ser cínico. Em terceiro e último lugar, olhando para diante, a derrota de Soares só aproveitou a uma pessoa, ao primeiro-ministro. Este foi o ano da sua "popularidade" absoluta nos estudos de opinião, tal como em 86/87, Cavaco, então chefe do governo, "cresceu" de uma situação minoritária para duas maiorias seguidas, após a derrota do seu candidato presidencial, Freitas do Amaral. Soares presidente "ajudou" e o Presidente Cavaco está a "ajudar". O precipitado elogio presidencial de 2006 ao alegado "reformismo governativo", pode vir a estatelar-se aos pés de Cavaco Silva mais brevemente do que ele imagina. O PS não pode correr o risco de afrontar até ao fim a classe média que o sustenta eleitoralmente e de andar a receber os elogios hipócritas das "esquerdas e das direitas dos interesses" que se andam a servir de um governo que faz por elas o "trabalho sujo". O recente episódio do "regulador" das energias, com a escolha de um homem de Pina Moura para o cargo, é só mais um frete que Cavaco, espera-se, deve ter registado. "Eu debati essa estratégia de colagem ao governo e ao PS nas primeiras reuniões, mas depois calei-me. Acho que já não valia a pena". Palavras de Medeiros Ferreira ao autor do livro que deu o mote a este escrito. É claro que já não valia a pena. O tempo se encarregará, feliz ou infelizmente, de lhe dar razão.

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