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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

LER OS OUTROS

João Gonçalves 21 Out 06

O Pedro Correia, "É favor apagar a luz".

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 6

João Gonçalves 21 Out 06


Numa fulgurante entrevista ao Sol, José Rodrigues dos Santos não faz a coisa por menos: "sou o rei da síntese". É bom lembrar - sobretudo para aqueles que não tiveram a felicidade de passar o verão na praia agarrados ao "Codex 632" - que Rodrigues dos Santos pariu, no ano corrente, uma das prosas mais vendidas do ano, a tal que mistura sopa de peixe com leite das mamas. Cento e vinte mil exemplares dão bem a dimensão da nevrose colectiva. Aos poucos, com paciência e método, Rodrigues dos Santos vai "evoluindo" de jornalista para "Paulo Coelho". Depois da "história", este "autor" quer agora, com a sua nova obra "A fórmula de Deus", "tentar provar a existência de Deus". O nosso "Coelho", por enquanto, é mais modesto do que o original, já que se contenta com umas tretas pseudo-inspiradas e pseudo-cultas, enquanto o outro nos pretende rigorosamente salvar. Lá chegará, dada a tal "realeza da síntese" que perpetra na sua "obra literária". Para já, o novo livro de dos Santos "tem descobertas da ciência" que - como lhe poderemos agradecer tamanha graça? - "levo ao grande público". Depois, vem esta pérola esmagadora: "se queremos provar a existência de Deus temos que procurar duas coisas: inteligência e intenção". Como diz o outro, importa-se de repetir? Tal como a "elite portuguesa" - de que Rodrigues dos Santos diz "achar-se muito importante" - também ele, pelos vistos, se acha "muito escritor". Nem aquela, nem ele são uma coisa nem a outra. Apenas se merecem. Não é fácil dizer bem.

DEIXAR PASSAR A CARAVANA

João Gonçalves 21 Out 06

O dr. Cluny, com invejável clareza, num almoço de homenagem ao dr. Souto Moura, "alertou" para a "mexicanização" (sic) do MP caso seja aprovada legislação que desvalorize o papel do respectivo Conselho Superior, nomeadamente dando liberdade ao procurador-geral para escolher os seus mais directos colaboradores, leia-se, o vice-procurador-geral. É tudo, naturalmente, em nome da "autonomia". O poder político, sem intimidações ou complacências para com estes "recados sindicais", tem o dever de apoiar o PGR que nomeou e deixar passar a caravana.

NÃO SEJAMOS MARICAS

João Gonçalves 21 Out 06


Aos oitenta e quatro anos, com a mesma complexa simplicidade com que escreveu que "a alma é um vício", Agustina Bessa-Luís, numa entrevista ao Sol, fala de costumes. E dá uma lição - pode aprender-se na "província" a ser-se cosmopolita e estudar na "cidade" sem nunca deixar de ser provinciano - a criaturas com o Frederico Lourenço, a Amaral Dias, o Vale de Almeida, os "ILGAS", a Câncio, os "JS's", os "JSD,", os "BE's" etc. etc. sobre o casamento e as opções sexuais. Perguntada acerca de casamentos entre pessoas do mesmo sexo, Agustina afirma que "falar de casamento entre pessoas do mesmo sexo é distorcer o seu sentido". Mais. "Ao longo da vida conheci homossexuais brilhantes a nível intelectual que não eram capazes de encarar o casamento. Uma coisa são os homossexuais, outra são os maricas (...) Os maricas querem todas essas prerrogativas, como o casamento. Os homossexuais não... Todos devem ter os mesmos direitos, mas para isso não é preciso falar de casamento". Vem isto a propósito de uma sondagem da Católica/Público/Antena 1/RTP sobre "vícios privados e públicas virtudes" que começou ontem a ser divulgada em relação ao aborto e que prossegue na edição de sábado para temas como a educação sexual nas escolas, a eutanásia, a prostituição, o consumo de drogas, a ordenação de mulheres, o uso de embriões e células para investigação, as quotas, a pena de morte e, finalmente, os direitos dos homossexuais. Os resultados são divertidos e demonstram, uma vez mais, que a raça não é para ser levada a sério. À cabeça, o mesmíssimo universo que ontem se inclinava maioritariamente para o "sim" ao aborto, acha que o "objectivo mais importante para a nossa sociedade hoje em dia é - imagine-se - "promover maior respeito pelos valores sociais e morais tradicionais" (37%), dividindo-se o resto pela "tolerância"e pelo "encorajamento" de outras "tradições e estilos de vida"(27%) ou por ambos (24%). Esta ambivalência, como explica caridosamente o Pedro Magalhães - está na hora de o Pedro começar a colocar estes estudos no seu blogue e de os comentar para se perceber como "evoluem" -, faz com que o dito universo seja claramente a favor da eutanásia (65%), da legalização da prostituição (55%), do sacerdócio feminino (58%), do uso de embriões para fins cientificos (45%, com 30% contra) e das quotas (48%, para 30% contra). Em oposição à pena de morte estão apenas 46% (41% a favor) e existe uma vantagem nítida (56%) para os que não querem outorgar nenhuns direitos "familiares" a same sexers, e ainda mais (67%) dos que são contra a adopção por estes. Finalmente, 64% dos inquiridos são contrários à legalização do consumo de drogas leves. Tudo visto e ponderado, constituímos uma sociedade "aética" em que a "norma" vale muito dentro de casa e para os outros, e começa a valer menos assim que se desce as escadas ou se apanha o elevador para a rua. Hipócritas, esquizofrénicos, mal amados, mal "sexuados", mal resolvidos, queremos, para as nossas vidas, o céu e o inferno, o tudo e o seu nada. Por isso a infelicidade anda espalhada como pó invisível pelos "lares" contentinhos de tantos portugueses. E por isso existe tanta gente que não quer votar no referendo sobre o aborto o qual, par delicatesse legislativa, foi transformado numa coisa "sexista", através de uma pergunta politicamente correcta e formalmente errada que ilude o essencial. Em matéria de costumes, já estou como a Agustina. Não sejamos maricas.

O MURO DAS LAMENTAÇÕES

João Gonçalves 21 Out 06


Quando dei início a este blogue, pouco tempo depois de ter largado a direcção do Teatro Nacional de São Carlos, perpetrei muito sobre a "cultura" e o seu ministério. Cheguei a afirmar publicamente, no Expresso, que Manuel Maria Carrilho tinha sido "o" ministro da Cultura e que, daí para diante, só apareceram fantasmas. Como é que se explica isto? Carrilho tinha o dinheiro que Sousa Franco lhe deu - pastavam, nesse tempo, as "vacas gordas" - e tinha, em relação ao assunto, a cabeça relativamente bem arrumada. Sabia, em suma, mandar. Na melhor - ou pior, conforme as opiniões - tradição francesa, Carrilho imaginou, legislando em conformidade, um Estado culturalmente activo, fosse no sentido das artes e espectáculos, fosse no sentido da preservação dos bens culturais. Não me lembro, porém admito que tenha atingido o mítico 1% do OE que, tendo-lhe sido retirado a dada altura, o levou a abandonar o barco e a ser um dos mais eficazes e virulentos críticos de António Guterres. Isabel Pires de Lima, coitada, foi forçada a recuar até aos 0,4% o que, no PIB, representa 0,1% "em cultura". Esta decadência da instituição "MC" fez-me pensar duas vezes e - não por que seja liberal ou outra treta congénere - defender a sua extinção. Cabe ao Estado, agora tão emproado na sua "inovação" e "reforma", encontrar novas formas de empregar o dinheiro atribuído à cultura, privilegiando a subsistência do património nacional, intelectual e físico, e deixando para outra coisa qualquer - tipo "conselho geral das artes e espectáculos" (onde teriam assento o Estado, os mecenas que não compete apenas ao Estado "arranjar" mas, e sobretudo, a quem precisa deles e os representantes destes) - a gestão do subsídio. É bem mais realista do que fingir um ministério que mais parece um muro das lamentações.

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