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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

HANNAH ARENDT

João Gonçalves 14 Out 06


A perda de tempo com farsantes e com personagens menores desvia-nos, por vezes, de pessoas a quem devíamos prestar mais atenção. Se não erro, à excepção de José Manuel Fernandes no Público, nenhum outro hebdomadário - nem sequer o "sempre-em-pé" Actual do Expresso, já que as páginas ditas "culturais" do Sol não existem - se lembrou dos cem anos de Hannah Arendt. Como escreve JMF, Arendt passou a vida a tentar perceber: os outros, o seu tempo e, nessa notável "reportagem" do julgamento de Eichmann em Jerusalém, "a banalidade do mal". Judia, emigrada nos EUA aquando da emergência totalitária na Europa e na URSS, foi aluna de Heidegger e de Karl Jaspers, tendo mantido com o primeiro uma relação ambígua e afectiva para além das afinidades intelectuais e das discordâncias ideológicas. Nas nossas miseráveis "feiras do livro", costuma aparecer a um preço insignificante um livrinho de Arendt que se lê num fôlego. Homens em tempos sombrios (Relógio d' Água) constitui um interessante "fresco" sobre figuras tão díspares como Benjamin, Brecht, Broch, Jaspers, Karen Blixen ou Rosa Luxemburgo. A passagem que se segue, parecendo aparentemente "datada", mantém toda a actualidade, até mesmo para nós.

"Se a função do domínio público é iluminar os assuntos dos homens, proporcionando um espaço de aparências onde eles podem mostrar, em palavras e actos, para o melhor e o pior, quem são e o que sabem fazer, então as trevas chegam quando esta luz é apagada pelas "faltas de credibilidade" e pelo "governo invisível", pelo discurso que não revela aquilo que é, preferindo escondê-lo debaixo do tapete, pelas exortações, morais ou outras, que a pretexto de defender velhas verdades degradam toda a verdade, convertendo-a numa trivialidade sem sentido." (1968)

O VEXAME EVITÁVEL

João Gonçalves 14 Out 06

Pode ser que me tenha escapado, mas o telejornal oficioso, o da RTP, omitiu a baboseira do dr. Pinho quando afirmou em Aveiro que "a crise acabou". O próprio acabou por passar um atestado de inimputabilidade a si mesmo, ao dizer à TSF que quem assegurasse que a crise tinha acabado era "infantil". Convinha "acabar" com Pinho antes da presidência europeia do próximo ano. Ao menos, seria um vexame evitável.

AS ESQUERDAS

João Gonçalves 14 Out 06

Numa semana em que a "esquerda moderna" do senhor engenheiro foi fortemente vergastada pela "esquerda antiga" nas ruas, Sócrates escolheu o sábado para, diante de uma plateia de "balzaquianas" socialistas, dar início à cruzada pelo "sim" no referendo à IVG. Até recorreu - imagine-se - à palavra "camaradas", de há muito banida do léxico do PS, para convencer a agitada plateia e, via media, os cidadãos de "esquerda" de que, tudo somado, ele é um deles. Sócrates não é ingénuo e sabe que uma mão não lava a outra. Sobretudo quando até o circunspecto ex-jovem socialista Sousa Pinto, remete para "segundas núpcias" outras questões "fracturantes", como os casamentos e as adopções por same sexers. Ao contrário do "blasfemo" João Miranda, não creio que, por cada voto que Sócrates perca à "esquerda", ganhe dois "à direita". Ganhou, de facto, o ano passado por causa de um episódio infeliz chamado Santana Lopes. Quando, em Janeiro, o virmos de braço dado, ainda que virtualmente, com certa gente da "esquerda antiga", logo falamos.

Adenda: Ler "A dúvida", de Rui Castro.

A "CORAGEM"

João Gonçalves 14 Out 06


O meu amigo Eduardo - isto cada vez mais parece um "clube de poetas mortos" - interpela-me por causa da "manif". Como ele sabe ler melhor do que eu, tenho a certeza que percebeu perfeitamente o que eu quis dizer. Comovo-me tanto com "manifs" como ele e já frequentei algumas. A última em que, por mera curiosidade, me "deixei ficar" no meio da multidão a fim de "tentar perceber", foi a do partido do sr. Le Pen, em Paris, no dia 1 de Maio de 2oo2. Na Praça da Ópera, depois de desfile, ofereceu "uma seca" de três horas intermináveis aos respectivos crentes. Seguramente não havia menos manifestantes do que na quinta-feira passada em Lisboa, e veja lá o que vale o sr. Le Pen. A questão é outra e aí, sim, talvez haja uma divergência. Tal como o governo, o Eduardo imagina que se está a "reformar" a administração pública e, por consequência, a reduzir "interesses". Não está, nem uma coisa, nem a outra, e eu já não tenho idade para me comover com a "coragem" de ninguém. O governo, todo, recebeu ordens para "cortar" e, desde o mais insignificante dirigente até aos ministros de Estado, é só isso que eles sabem fazer: cortar, não necessariamente com método ou a direito. Repare que até vai ser criada mais uma "estrutura de missão" (nome giro, não é?) ou mesmo uma "empresa pública estatal, EPE, para "gerir" a famosa mobilidade sobre a qual ninguém tem uma única ideia concreta. Só a tal "coragem" semântica que eu não sei o que é. Como escrevia há dias o Rui Ramos, insuspeito "direitista", se não houvesse funcionalismo, o governo inventava-o para poder justificar os "objectivos" e a sua sublime "coragem" contra os "interesses" (pessoas que recebem entre 400 e 700 euros em salários ou pensões têm imensos "interesses", não é verdade?). Porém, na campanha eleitoral, não detectei a mesma "coragem" em explicar, por a mais b, o que se ia fazer. Só depois, quando o bonzo Constâncio deu o mote, é que apareceu a "coragem". Como escreve Vasco Pulido Valente no Público de sábado, sem link:
"Quanto a Sócrates, claro, aproveitou a ocasião para o auto-elogio da regra, em que se expandiu sobre a sua vontade, o seu ânimo e a sua coragem. Portugal, ele sabe, gosta de quem manda. Ainda por cima, parece que também se convenceu que lhe deram por maioria absoluta um mandato para fazer exactamente o que fez. De facto, não lhe deram esse particular mandato, porque ele nunca o pediu e, se o tivesse pedido, não era agora com certeza primeiro-ministro. Mas não vale a pena contrariar o culto desta fulgurante personalidade. Vale a pena falar da ilusão que a sustenta. A propósito da manifestação, Sócrates criticou a gente "para quem tudo ficaria melhor, se tudo ficasse na mesma". Não lhe ocorreu, obviamente, a outra possibilidade: que nada ficasse na mesma e tudo ficasse pior."

Conversados?

PENTIMENTO

João Gonçalves 14 Out 06

O Jorge Ferreira, que possui no seu blog uma memorabilia indispensável, recordou que passavam ontem vinte e seis anos sobre a formação do "movimento de acção reformadora" - uma sequela do "movimento reformador" de 79, dividido nessa altura entre o apoio a Soares Carneiro e a Ramalho Eanes - especificamente destinado a integrar a comissão de recandidatura do General. Os nossos juvenis vinte anos permitiam estas coisas. O Jorge, como lhe competia, andava por Soares Carneiro e nós - eu, a malograda Ana Gonçalves que seria mais tarde deputada do PRD, e os "seniores" Adão e Silva e Medeiros Ferreira - por Eanes. Na noite da morte de Sá Carneiro e de Adelino Amaro da Costa, na sede da CNARPE, redigi, em nome do dito "movimento", um comunicado sobre este acontecimento e, no dia seguinte, meio atordoados, estivemos com o Jorge no barzinho da mesma CNARPE, sem complexos ou afasias, uma vez que campanha tinha terminado. No domingo subsequente, Eanes era reeleito. O resto da história é conhecido. François Mitterrand, no livro "Memórias Interrompidas", quando questionado sobre a sua vitória em 1981, disse ao jornalista que não era aos sessenta e cinco anos que se começava a sonhar, outro tropismo inteligente do homem. Todavia, Mitterrand fez da sua presidência um monumento à política: contraditório, aristocrático e definitivo, para quem aprecia e para quem não aprecia. Nós, na ingenuidade dos nossos vinte anos, também imaginávamos que podíamos sonhar com a política, com um país diferente e com grandes "políticos". Quase trinta anos depois, terá valido a pena?

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