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portugal dos pequeninos

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FOI VOCÊ QUE PEDIU UM PROVEDOR?

João Gonçalves 1 Out 06

A Ordem dos Arquitectos arranjou um "provedor". Os jornais têm "provedores". As televisões, se não têm, vão ter um. Já houve um "provedor dos contribuintes" - para nada, naturalmente - e, por fim, existe o "provedor de Justiça" cujo papel principal é descobrir pólvora seca. Há, aliás, quem entenda que devia haver um "provedor" em cada esquina e em cada "corporação", por causa do respeitinho. Estranho é que, com tantas "provedorias", se viva num país tão injusto e cada vez mais amoral.

ALGUMA COISA

João Gonçalves 1 Out 06


O Pedro Correia, porventura aproveitando a modorra outonal que se avizinha, elencou "os livros da vida dele" e lembrou-se de um belo conto de Hemingway, passado em Itália. Eu hesito sempre nos primeiros. Houve autores e livros por que passei que achei "definitivos" e que, anos depois, esqueci. E também aconteceu o contrário. Livros por que passei com displicência e que vieram a tornar-se permanentes companheiros. O que vou enunciar não pertence a nenhuma das duas categorias. Trata-se de um "conto" de Tennessee Williams, publicado naquela maravilhosa "Colecção Miniatura" dos "Livros do Brasil", sob o título "A Última Primavera" (tradução de José Sasportes - o mesmo que foi ministro da Cultura de Guterres - no original, "The Roman Spring of Mrs. Stone"). É, como praticamente tudo o que Tennessee escreveu, autobiográfico, apesar da Mrs. Stone. Trata-se da história de uma actriz norte-americana, em fim de carreira, viúva e rica, que em Roma, "arrastada pela torrente", se apaixona por um gigolo, Paolo. Os "desenvolvimentos" são os habituais nestas coisas, até ao momento em que Mrs. Stone percebe que não é mais possível "manter a dignidade". Como se houvesse "dignidade" a manter quando somos arrastados pela "torrente". Perto do final, numa discussão com Paolo, este pergunta a Mrs. Stone: "Roma tem três milhares de anos, e tu quantos tens? - Cinquenta! - disse ela a custo. Foi esta palavra que acabou com o seu sofrimento". Já num momento anterior, depois de Paolo lhe recordar que "não era a primeira grande dama com quem andava", Mrs. Stone respondeu: "Tens razão, Paolo, - disse a sr.ª Stone, enquanto esperavam que o porteiro os fizesse entrar - não é um assunto digno, e eu acho que a pior coisa que pode haver no amor entre uma pessoa muito nova e outra relativamente mais velha é a terrível falta de dignidade que parece exigir..." O conto termina com Mrs. Stone, imersa em álcool e em solidão na balaustrada no seu palazzo romano, a embrulhar as chaves da casa num lenço branco com que antes acenara a "outro" Paolo anónimo que esperava um sinal na rua para poder subir. Tennessee escreve: "Desaparecia, não, já tinha desaparecido sob a cornija por cima da porta do palazzo, e dentro de instantes, daqui a poucos minutos, o nada acabaria, o vácuo terrível seria devassado por alguma coisa". Se alguém sabia em que consistia esse "vácuo terrível", era Tennessee Williams que, depois da morte por cancro do seu companheiro Frank Merlo, em 1962, "morreu um pouco também" (Truman Capote, I remember Tennessee, 1983). Depois disto - continua Capote - "Tennessee não foi mais o mesmo. Bebera sempre bastante, mas aí começou a misturar comprimidos com o álccol [como, aliás, o próprio Capote, desaparecido um ano depois deste ensaio ter sido escrito]. Dava-se também com uma gente muito estranha. Creio que passou sozinho os derradeiros vinte anos da sua vida - com o fantasma de Frank". Não terá sido exactamente assim. Como a Mrs. Stone do seu conto, Tennessee passou esses anos na balaustrada à espera que o seu nada fosse "devassado por alguma coisa".

NÃO É FÁCIL DIZER BEM - 4

João Gonçalves 1 Out 06


Outro dia, e com inteiro sentido de justiça, referi que uma prosa crítica de Eduardo Prado Coelho sobre Rosa Montero me tinha levado a um dos seus livros, A Louca da Casa e, posteriormente, às Histórias de Mulheres, algo que as feministas exaltadas que andam por aí nos "comentários", fariam bem em ler. E afirmei que era para isso que servia a crítica de livros nos jornais: para nos levar a lê-los e não a rejeitá-los. O que Eduardo Pitta escreveu recentemente sobre um livro de Bill Bryson, é outro bom exemplo. Acontece que ontem, ao percorrer o fatídico suplemento "cultural" do Expresso, o Actual, deparei-me com um conjunto de frases enlevadas de António Guerreiro, o "especialista" de serviço, sobre o livrinho que recolhe a poesia do padre Tolentino Mendonça, "A Noite abre meus olhos", que já tinha provocado alguns derrames melancólicos ao Pedro Mexia. Eu não sou crítico literário, nem tenho tamanha pretensão, mas não sou cego. E vai daí fui ler o Guerreiro. Que nos diz ele da poesia do padre? De um dos seus primeiros livros, Guerreiro espreme-se nestes singulares termos: "o que nesse livro se revelava era uma poesia dotada de um grande saber sobre si própria e que, por isso, não descuidava a vigilância". Perceberam a ideia, "não descuidava a vigilância"? Eu também não. Mas Guerreiro consegue ser ainda mais imperceptivelmente subtil. Ora vejam. A dita poesia que "não descuida a vigilância", depois, "expande e abre para outra dimensão, para uma espécie de alteridade que se subtrai e que só a palavra consegue captar". Isto é tão esmagador como a construção de auto-estradas em Trás-os-Montes. Puro betão. Depois Guerreiro fala da "linguagem muda das coisas" e na "alegria" que consiste em o "padre-poeta-patrão-da-Assírio & Alvim", neste livro, ter conseguido usar e manter "a sua original vigilância". Antes de terminar a sua pungente leitura da "obra poética" de Tolentino Mendonça, Guerreiro não se poupa: "a atenção detém a infinitude do desejo e apreende a caduca fragilidade do que existe". Não é mesmo uma ternura?

À F.

João Gonçalves 1 Out 06

A esta perguntinha, a Fernanda Câncio - que não reparou que eu a tinha convidado para almoçar lá mais para trás - respondeu com uma "senhora resposta" que termina sensivelmente no segundo parágrafo: "não sei o que é isso do aborto 'livre', joão. nem o que seja ser de tal coisa adepta. acho que adeptos é mais futebol clube do porto e assim. mas defendo, sim, que qualquer mulher possa decidir, dentro de um prazo de tempo razoável, se quer ou não levar uma gravidez a termo". Vamos lá por partes. A Fernanda sabe perfeitamente o que é que lhe perguntei e qual foi o pressuposto da pergunta. Antes de ser pensada a partir das chamadas "partes baixas", a interrupção voluntária da gravidez começa por ser um assunto de inteligência, de cabeça, se quiser, de consciência ou de "inteligência emotiva", para recorrer ao jargão. Contrariamente ao que acontece, por exemplo, entre same sexers que optam ou não por usar preservativo nas suas "entusiasmantes" relações, não vem mal nenhum ao mundo - eventualmente pode vir para algum deles - se não o usarem ou o romperem. Já entre um homem e uma mulher, a menos que algum deles seja infértil, do "entusiasmo" pode resultar uma vida. Eu sei que este argumento é bestialmente reaccionário. Não se deve falar de "vida" perante os inalienáveis direitos da mulher a poder dispôr do seu belo corpinho. E dos do homem poder dispôr do corpinho da mulher quando a "manda" abortar. Porém, não foi até hoje encontrada melhor definição para a coisa. Se me costuma ler, já deve ter reparado no desprezo que nutro pela "sociedade" e pelo o que ela pensa. Quanto ao conceito de "filho não desejado", só me vem dar razão, e eu não quero nem deixo de querer ter alguma. Ou seja, voltamos ao aborto enquanto puro meio anti-conceptivo. Repare. Eu não exijo ou defendo sequer que se deva punir alguém por, em desespero de causa, ir até Badajoz ou Madrid (se for da "associação das famílias numerosas") ou à Almirante Reis (se for de uma família numerosa da Musgueira), para perpetrar um aborto. Pelo contrário. Como cristão, péssimo aliás, limito-me a sentir piedade pelos autores do acto. Agora não coloco os fantásticos direitos da mulher "ao seu corpo" e do homem ao corpo dela - todos os temos, one way or the other - à frente de outros. Nem à frente, nem atrás. Os arquétipos, feminista ou machista, que os têm sustentado, não possuem qualquer tipo de superioridade "moral" sobre outro arquétipo que defenda o "direito à vida". E eu gosto pouco, porque o acho demagógico, de trazer para aqui o argumentário "socio-cultural" ou "jurídico-criminal", tipo adolescentes arrependidos ou tipo violação. Ninguém, com dois de testa, pôe em causa que uma gravidez dessas deve ser interrompida e, no primeiro caso, com dois pares de tabefes nas criancinhas. Quanto ao imaginar-me de "joana" a entrar num hospital para abortar porque "me dei à paródia" e umas daquelas engenhocas destinadas a prevenir aborrecimentos falhou, percebo perfeitamente onde é que a Fernanda quer chegar. Quer chegar ao princípio da conversa, o da IVG como anti-conceptivo. Sim, sou adversário da vulgarização do aborto como tal. Aí, parece-me que estamos todos de acordo. É, se quiser, uma questão de civilização. Quando estudava direito na Universidade Católica e o dr. Mário Soares, com a coragem de sempre, alterou o Código Penal nesta matéria, eu modestamente apoiei e ri-me das manifestações patéticas que o Padre João Seabra e os seus acólitos promoveram por aí. Nesta matéria, nunca fui de excessos. Tento ser realista sem abdicar de alguns valores, apesar de pender cada vez mais para o lado anarquista da existência. E fique descansada que, desta vez, o referendo dará o resultado esperado. Da mesma forma que se continuará a ir a Badajoz e à Almirante Reis porque o "sistema" dificilmente aplicará a nova legislação, quando, em vinte e três anos, não quis aplicar a que existe. Só que eu não sou como a "Maria vai com as outras", neste caso uma putativa "joana vai com as outras". E quando vejo certo tipo de gente (não a minha amiga), de um e do outro lado, a berrar pela defesa da sua palhota, aí sim, dá-me vontade de os mandar todos à merda. Um beijinho (que nada tem de patronising, por amor de Deus).

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