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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

UM NEGÓCIO

João Gonçalves 24 Set 06

No telejornal da RTP apareceu um sujeito, de nome Rocha, que escreveu um livro intitulado "O Último Papa". De acordo com o próprio, o livro "revela", em versão romanceada, uma "conspiração" dentro do Vaticano que terminou na morte do Papa João Paulo I, em 1978. Não contente com a aparição simultânea do livro em dois ou três países, o nosso autor já sonha com Hollywood e até anunciou o nome dos putativos actores. Rocha - e outros como ele por esse mundo fora - anda a explorar a ignorância e a insuficiência espiritual das gentes do nosso tempo. Com sucesso, diga-se de passagem. Se repararmos na parte das livrarias que atrai mais público, ficamos esclarecidos. "Esoterismo"," espiritualidades" e "religião" têm sempre clientes. A "era do vazio" gera subprodutos mitómanos e miméticos como este Rocha. Apesar de mitómano, não é parvo. "O Último Papa" é apenas mais de um mesmo negócio que, dadas as circunstãncias, vende bem. Entre "Os Possessos" e um livro que se pode ler tranquilamente no cabeleireiro, quem é que hesita?

O RENEGADO BARROSO

João Gonçalves 24 Set 06

Anda para aí uma manobra encapotada - ou descaradamente encapotada - para "recuperar" o dr. Barroso para a política nacional, da mesma maneira que os chineses, de vez em quando, recuperam "renegados". A seu tempo surgirá outra para o bonzinho Guterres. Nunca é de mais lembrar que estes dois homens foram uma maldição para Portugal. Cuidado.

A ESQUERDA NO DIVÃ

João Gonçalves 24 Set 06


Não havia "esquerda" devidamente apessoada que não visse em Lula da Silva uma radiosa esperança para a definitiva consagração mundial da dita. Também já tinha acontecido isso, embora mais ligeiramente, com Blair em 97, e com Clinton em 92. Blair, entretanto, é o que se vê. E Clinton, não fosse ter dado a cara por um charuto e por uma mancha no vestido de uma histérica oportunista - algo que o humanizou - teria acabado da mesma maneira, como homem e como político. Foi o único que saiu em grande nas duas vertentes, deixando uns EUA prósperos e credíveis que W. Bush tem vindo paulatinamente a enterrar. Lula parece que vai ser reeleito. Em vez de ter tomado conta da política brasileira e da sua congénita venalidade, Lula permitiu que estas tomassem conta dele. O operário ficou refém do seu próprio deslumbramento, da corrupção, em suma, do poder. E a "esquerda" com mais um "pai" para "matar". Não há divã que resista.

ONDE É QUE ELES VIVEM?

João Gonçalves 24 Set 06


A sra. D. São José Almeida, também do Público, é uma devota do "pai natal" e dos extraterrestres. Nos seus "sobes e desces" desta semana, colocou o secretário de Estado da Administração Pública nos píncaros por três motivos: a "reforma da administração pública", as "contas" que fez aos funcionários públicos e os atestados médicos passados pelo SNS. Também nos suplementos de economia dos semanários e dos diários, João Figueiredo foi muito louvado. Na certa, será o convidado especial da 3ª Convenção do "Compromisso Portugal". Esta estranha "aliança" entre uma entusiasta do "Não apaguem a memória" e os empresários do "Silicon Valley" da Buraca, muitos dos quais já passaram por governos e gabinetes da democracia, não deixa de ter a sua piada. Sobretudo quando a seguir elogia João Cravinho, o novo campeão nacional na luta contra a corrupção que, coitado, imagina encostar o seu grupo parlamentar à parede. Em que país é que esta gente vive?

"OS TEATROS DO PODER"

João Gonçalves 24 Set 06


A entrada de António Botto no post anterior não se deveu a nenhum desatino melancólico de que tivesse sido acometido. Vem a propósito do que li e escrevi nos últimos dois dias. Com o habitual atraso, só hoje, domingo, passei pelo Público de ontem e pelo artigo do Augusto M. Seabra sobre os "teatros do poder". Batem muito no Augusto - EPC e Cia. - porque alegadamente o homem não tem "uma obra" e não é brando a zurzir. Para que é que ele havia de ter "uma obra" quando os escaparates já estão inundados com tanta bosta ilegível? E por que é que ele devia deixar de zurzir tudo aquilo que é eminentemente zurzível - quase tudo - no plano da chamada "cultura"? Explico-me. A dado passo do seu artigo, AMS, que não tenho por ingénuo, pergunta o seguinte: "Como é admissível que seja director de um teatro nacional quem, como Fragateiro, declara não gostar de ler teatro (PÚBLICO de 06/04)? Como é possível a pusilanimidade de declarar que "se o Teatro Nacional fosse só dirigido pelo José Manuel [Castanheira, o adjunto] isto era um desastre nas contas, se fosse só dirigido por mim era desastre na estética!" (Visão de 06/04)? Mas então que qualificações tem para o cargo? É só um comissário político?" Quem ler isto ainda pode pensar que as pessoas são nomeadas para os cargos porque são "competentes", "idóneas", movidas pela "recta intenção" ou, nos casos mais patológicos, para defender o "interesse público". E que, consequentemente, a direcção actual do Teatro Nacional D. Maria II seria uma "excepção". Naturalmente que a dupla Fragateiro-Castanheira é dada à paródia, um "tique" que lhe advém da gerência do Trindade - que Fragateiro acumula ilegalmente - e que é aquele produto híbrido entre a FNAT do dr. Salazar e o "aproveitamento dos tempos livres" da democracia. Fragateiro tem a cabeça de um director de companhia teatral dos filmes do Lopes Ribeiro e já não consegue meter mais nada lá dentro. Para além disso, serve os propósitos da actual gestão política do ministério da Cultura, dirigido por dois amáveis ex-comunistas, daqueles que ainda o eram nos anos 80. Escrevo "propósitos" por mero acaso, já que, na realidade, dois anos quase volvidos, não lhes descortino nenhum. Daí que, desde a saída de Carrilho da Ajuda, a decadência do MC tenha sido irreversível, podendo perfeitamente extinguir-se, a bem da nação, por manifesta inutilidade pública. Para não sairmos dos teatros e equiparados, o panorama não muda muito nos outros. Ricardo Pais - à semelhança de Luís Miguel Cintra que dirige uma espécie de "nacional" na Cornucópia, graças à generosidade das receitas fiscais - , tornou-se num encenador do regime. Trocou a sua iconoclastia imaginativa por um confortável lugar de cortesão, uma coisa que advém normalmente com a idade. Na ópera, Paolo Pinamonti deve continuar a espremer-se por todos os lados para obter dinheiro para as suas produções as quais, apesar de tudo, evidenciam um módico de qualidade apreciável, coadjuvado por duas extravagâncias. Uma, acumula - não há mais ninguém, dr. Vieira de Carvalho? - a condição de jurista, de ex-coralista e de membro da direcção do São Carlos com a de membro da direcção da Companhia Nacional de Bailado, desempenhando ambas - só pode - em part-time. A outra, engenheiro mecânico desprovido do talento de Álvaro de Campos, e em tempos "gestor" de um estabelecimento de automóveis para as bandas de Santarém, tem no currículo uma assessoria "técnica" ao gabinete de Carrilho, na Ajuda, provavelmente naquela que é uma das suas muitas "especialidades", para além da mecânica: a construção civil. Foi ainda subdirector da Companhia Nacional de Bailado, durante cerca de nove anos, e deixou literalmente Ana Pereira Caldas - a directora - entregue a si própria quando o Tribunal de Contas recentemente lá foi auditar uma gestão pela qual ele tinha sido co-responsável. Nem um murmúrio se lhe ouviu - mas isso não são coisas de contas, são coisas de carácter - e continua "premiado" com a co-gestão do nosso único teatro de ópera. Finalmente o CCB, que está entregue a um verdadeiro imã do regime, o dr. Mega Ferreira, e a uma senhora que, à falta de outros, tem o mérito de saber gerir muito bem a sua carreira e que, pelos vistos, "cai" bem a qualquer poder. Por isso, Augusto, há mais Fragateiros no céu e na terra do que na tua "filosofia". É só ires atrás deles.

O MESMO ARREMELGADO IDIOTISMO

João Gonçalves 24 Set 06


À memória de Fernando Pessoa

Se eu pudesse fazer com que viesses

Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão -
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,

Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida - esta boémia

Coberta de farrapos e de estrelas,

Tristíssima, pedante, e contrafeita,

Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;

Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,

Voltávamos à mesma: Tu, lá onde

Os astros e as divinas madrugadas

Noivam na luz eterna de um sorriso;

E eu, por aqui, vadio de descrença

Tirando o meu chapéu aos homens de juízo...

Isto por cá vai indo como dantes;

O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
-
Autênticos patifes bem falantes...

E a mesma intriga: as horas, os minutos,

As noites sempre iguais, os mesmos dias,

Tudo igual! Acordando e adormecendo

Na mesma cor, do mesmo lado, sempre

O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver -

Sem estímulo, sem fé, sem convicção..


António Botto

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