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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

OS PASSOS EM VOLTA

João Gonçalves 23 Set 06


O Carlos "deu por ele" a concordar com o sr. Daniel Oliveira, do Bloco de Esquerda, por causa de Souto Moura. Isso lembrou-me uma coisa que só há pouco tempo realizei. Oliveira é filho de Herberto Helder, embora tivesse sido "criado" por Manuel Gusmão, do PC, que lhe deve ter ensinado o "abc" do marxismo-leninismo-estalinismo. Oliveira passa por ser uma cabeça "moderna" e "divertida", mas tem uma praticamente tão antiga como a do director do "Diário da Manhã" , o dr. Dutra Faria, ilustre porta-voz do "Estado Novo", que fez a pergunta que deu origem à mais famosa resposta do ex-director-geral de Aviação do dr. Salazar: "obviamente, demito-o". Também ele, ao contrário do que alardeia, faz parte do regime que hoje, quase unanimemente, condena o dr. Souto Moura, um produto, voluntaria ou involuntariamente, do mesmo regime. O resto é retórica e sandálias nos pés.

A MECÂNICA DOS FLUÍDOS

João Gonçalves 23 Set 06

Por falar em mesa de café, o Eduardo Prado Coelho escreveu há dias uma lamentável crónica em defesa do indefensável Expresso (vide este link). Nada mais o moveu senão a lógica da capela (ou deveria dizer antes, de capelinha?). O Actual (link) - que ele incensa de uma maneira que parece que está a falar do suplemento literário do Times ou da New York Review of Books - é uma pepineira praticamente ilegível onde pontifica um amigo dele, o António Guerreiro. Mais nada. Também lá escreve um amigo meu, o José Manuel dos Santos e, nem por isso, entorto os olhos. Aliás, Guerreiro pontifica ali apesar de ter suspirado por uma outra morada mais, digamos assim, à luz do dia. Como o sol não nasceu para o Guerreiro, o Actual, segundo EPC, é bestial. É a chamada "mecânica dos fluídos".

O CONSOLO DA FILOSOFIA

João Gonçalves 23 Set 06


Ainda só li um jornal, à mesa do café, a torradas, tosta mista e sumo de laranja. A pior notícia do Sol diz-me que a filosofia deixa de ser obrigatória até para aceder, na universidade, ao curso da dita. Formei-me em direito mas não saberia sobreviver - já nem sequer digo viver - sem aquilo a que Boécio chamava "o consolo da filosofia". Aliás, foi nas masmorras que Boécio escreveu o livrinho, só, torturado e votado a uma morte prematura por causa da "política". As "modernas" gerações estão a ser criadas para a facilidade e para o não pensamento ou, quando muito, apenas para o "pensamento que calcula", de acordo com a fórmula de Heidegger. Daí a reprodução em série de licenciados analfabetos. Um amigo meu, que ensina física na universidade, mal consegue ler os testes dos seus alunos, apesar da "matéria". Outros desistem, noutros cursos, logo aos primeiros parágrafos. A filosofia ajuda a pensar e pensar não consta da "agenda" do dia. Quando entrei para a universidade, a faculdade onde se incluía o direito, era chamada de "faculdade de ciências humanas". Agora é mais uma "faculdade de direito". Não poder aceder, por causa da estúpida burocracia da "educação" democrática, a uma das mais belas realizações do espírito humano, diz tudo dos tempos que vivemos. Ou melhor, que não vivemos.

LER OS OUTROS

João Gonçalves 23 Set 06


João: escrevi aquilo antes do homem ir ao Gerês. E hoje estou demasiado nauseado para escalar montanhas ou assistir a escaladas alheias. A isso preferirei sempre a mais famosa descida de uma montanha de que há memória: a da Julie Andrews a cantar a caminho do convento em Salzburgo.

A ESCRITA MARICAS

João Gonçalves 23 Set 06


"O meu Verão passou-se em fervorosa releitura dos meus dois autores preferidos: o divino Marcel e o divino Thomas". Podia começar assim uma redacção da antiga quarta classe de um menino sobre-dotado. Nada mais enganador. A frase pertence a Frederico Lourenço, professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, escritor e tradutor de clássicos. Vem na sua coluna habitual no suplemento "6ª" do Diário de Notícias. Lourenço adquiriu notoriedade com as suas traduções da Odisseia e da Ilíada- parece que, afinal, discutíveis - e com a sua trilogia "Pode um desejo imenso" ("Pode um desejo imenso", "O curso das estrelas" e "À beira do mundo"), tudo dos Livros Cotovia. De tal maneira que a editora pôs cá fora recentemente estes "romances" em forma de um, com o título do primeiro. Lourenço, graças à referida trilogia, a uma "autobiografia" - "Amar não acaba" - e à sua idade, tornou-se numa espécie de ícone de uma geração homossexual chique, geralmente mal resolvida e mal fodida, que se revê nos delíquios insuportáveis da sua escrita. Verdadeiramente, Lourenço integra uma categoria de escritores que praticam aquilo a que eu chamo "a escrita maricas". Esta "escola" inclui vários tipos de escrita - poesia, romance ou ensaio - e não deve a toponímia às opções sexuais de quem a pratica. Releva antes da forma como os autores e as autoras expõem as suas "ideias" (quando as têm), tornando muitas vezes rísivel ou soporífera a respectiva leitura. Aliás, e como escreve o Eduardo Pitta no único texto sério que conheço sobre a matéria, "literatura homossexual é um pleonasmo". E continua. "O que sempre houve é literatura feita por homossexuais, a qual, com carga erótica ou sem ela, não tem sido coutada de escritores homosssexuais. Jorge de Sena era heterossexual. Henry James e Evelyn Waugh são notoriamente ambíguos (a despeito da juventude sparkling do segundo). E Luiz Pacheco? Discurso directo: "Gostas de broche? - pergunto e encaro-o [...] e pela primeira vez noto como me apetecia aquele corpo, ser dono ou servo daquele aparato movediço de carne, pele, ossos, pêlos, força". Não vale a pena extrapolar, mas a figura do magala é com certeza um fantasma português." (in "Fractura, A condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea", Angelus Novus Editora, 2003). Ou seja, tal como eventualmente a sexualidade é indivisa e só o objecto a quem ela se dirige pode ser de uma ou de várias naturezas, também não me parece que subsista uma "escrita" marcadamente sexista enquanto tal. Basta ler os romances autobiográficos de Henry Miller para entender o que pretendo exprimir ou mesmo a prosa violenta e "anti-maricas" de Jean Genet. Entre nós, onde normalmente se vive de leve, se escreve de leve e se morre de leve, como Eça dizia de Júlio Dinis, a tendência é sempre a mesma: afastar a vida e a realidade de tudo o que possa perturbar a pequena cabeça do putativo leitor. Ora a verdadeira literatura - mesmo, ou sobretudo, a de Proust que Lourenço refere - é um parto doloroso e uma morte mais do que anunciada. Não existe literatura inocente, a tal da "arcádia" a que alude Lourenço. Sem querer repetir clichés conhecidos - de Bukowski a Pasolini - toda a grande literatura tem de passar pelos "ciclos" que simultaneamente a redimem e a perdem: o do sangue, o do esperma e o da merda. Proust, que uma passagem da sua Recherche fez rir Frederico Lourenço na Meia-Praia de Lagos, fechou-se num quarto para escrever o que escreveu. Por assim dizer, saiu-lhe do coiro, da forma mais dolorosa que possamos imaginar. Não se pode falar da vida que emerge da verdadeira literatura com entrefolhos, punhos de renda ou lápis-de-cor. Frederico Lourenço podia ter terminado a sua "autobiografia" com a frase "tudo na vida tem o estigma da caducidade". Só que não resistiu à "arcádia" e perpetrou uma vulgaridade: "só amar não acaba". Um "escritor" que não entende que "amar" pode nem chegar a acontecer, é porque não sabe ler os seus "divinos" Marcel Proust e Thomas Mann.

CULPA DELE? - 2

João Gonçalves 23 Set 06

Queria dedicar-me neste fim-de-semana à "cultura" e aos jornais que, sem ofensa, são uma saudável - quando são - manifestação da dita. Todavia, o post anterior suscitou comentários que merecem ser comentados em duas linhas. Para mim, o mandato deste PGR foi indigente e mal explicado. Em nenhum lugar ponho em causa a seriedade e a integridade intelectuais de Souto Moura. Apenas não tinha jeito e, a partir de certa altura, não deve ter assimilado bem por que caminhos estava a entrar. Se tivesse entrado, se o tivessem deixado entrar, provavelmente o regime teria de fechar as portas. O mal dele foi, justamente, ter aquela mania de falar à saída das portas. Por outro lado, não soube pôr ordem nos seus hierarquizados e, por tabela, deu lastro a infantilidades que, na justiça, se pagam demasiado caras. Quando refiro "mal explicado", penso nele e na política. Existiu uma complacência mútua entre a PGR, a política e outras "forças vivas da nação"- tem existido sempre, aliás, e não é por acaso que as musas do governo para a justiça, Rui Pereira e outros, queriam uma "justiça especial" para os "especiais" e foi assinado um "pacto"- que lá mais para diante, em memórias sérias, talvez alguém possa explicar. Agora não porque o regime tem de continuar.

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