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portugal dos pequeninos

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JOGO DE LÁGRIMAS

João Gonçalves 11 Set 06


O quinquénio do "11 de Setembro" tem sido pretexto para muitas coisas. Escrevo sem ter lido um único texto sobre o assunto e apenas com algumas imagens de televisão que apanhei por acaso (estive a banhos). Aliás, logo de manhã, fiquei imediatamente elucidado. Duas aventesmas que alimentam um dos inenarráveis "programas da manhã" das televisões generalistas, esclareceram logo o propósito. "Vamos falar do dia que mudou para sempre as nossas vidas", disse a dupla risonha. Pode ser que me engane, mas fiquei com a ideia de que continuam tão idiotas como eram há cinco, seis ou quinze anos. Não mudaram nada. Houve - e, pelos vistos, continua a haver - documentários, ficções e depoimentos para todos os gostos. De vez em quando emerge aquela irritante e inevitável pergunta "onde é que você estava quando...". Escutei o depoimento de Maria Filomena Mónica à RTP, a qual também não escapou ao cliché do "onde é que estavas". Todavia, e no fundamental, estou de acordo com ela. O "11 de Setembro" resolveu por instantes um problema de existência política ao até aí inexistente e praticamente asnático George W. Bush. Daí em diante, começou o delírio sobre os cadáveres de quase três mil pessoas. Meses depois, sem conseguirem dar conta do recado - a Al Qaeda e respectivas acólitos -, Bush e o seus fiéis aliados europeus - onde, pelo meio, apareceu para oferecer sala e café, o dr. Barroso - irromperam pelo Iraque na esperança de extirparem o terrorismo, a partir de Badgade, e, subsequentemente, construirem lá uma subtil "democracia ocidental". Os talibãs do Afeganistão também foram devidamente sovados e corridos do poder, se bem que as misteriosas montanhas onde se albergam os líderes da Al Qaeda persistam indemnes. Num caso e no outro, o resultado está vista. Ainda há umas semanas, esse "baluarte ocidental" que é Israel, sofreu uma humilhação no Líbano, depois de o ter metodicamente destruído, sem que o exercício tivesse beliscado, no fundamental, o Hezbollah, um putativo "filho" da Síria e do Irão. Tudo somado, e a não ser para lembrar os mortos, o "11 de Setembro" não merece sequer um toque de corneta. O terrorismo internacional, que supostamente teve ali o seu "acmé", continua, neste momento, relativamente próspero. Todas as lágrimas muito honestamente derramadas pelo colapso, em directo, do World Trade Center, não explicam tudo. Quando Clinton deixou a Casa Branca, não podia imaginar - nem nós- o que ia representar W. Bush para o mundo. O "ocidente", por causa das borradas dele e dos seus aliados, com Blair à cabeça, vive permanentemente no pânico de ser atacado e viu o que de melhor constitui o seu património - as liberdades, os direitos e as garantias - substituído pela paranóia securitária mais absurda. Enquanto andaram - e andam - entretidos com o Iraque, houve Madrid, Londres, a Indonésia e outros. Enquanto andaram - e andam - entretidos com o Iraque, o Irão tratou da sua vidinha. Não vale a pena ir mais longe. O "11 de Setembro", tendo sido um horror, nem por isso pode deixar de ponderar-se onde é que esse horror terminou - para milhares de pessoas terminou nesse dia - e o embuste começou. Por tudo isto, penso que é muito cedo para se apresentarem verdades definitivas sobre o que realmente aconteceu naquele dia onde toda a gente estava forçosamente nalgum lado. Como George W. Bush - numa escolinha a ler histórias de encantar às crianças e, depois, pelos ares dos EUA, como uma barata tonta, sem saber onde aterrar - também. Mais do que o dia, vale a pena atentar nas consequências devastadoras desse dia. E tentar perceber, no jogo de enganos e de lágrimas de crocodilo que é a "vida internacional", o que é que aconteceu, sem demagogias melodramáticas e inúteis.

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