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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

O GRANDE EXPLICADOR

João Gonçalves 16 Ago 06

Noutra encarnação, neste dia, desaparecia aquele que foi um dos mais geniais "mestres" da língua portuguesa e, seguramente, o maior intérprete da choldra chamada Portugal. Eça de Queirós, cá e lá fora, percebeu com muita clareza que esta treta jamais iria a lado algum. Dos costumes à política, o escritor diplomata deixou-nos - nos "romances", nos contos, nos jornais, nas impressões de viagens, nas cartas, nos "retratos" - a imagem mais "realista" e, por isso, a mais lúcida e a mais cruel da verdadeira tristeza que somos como "nação". "Vencidos da vida" é, simultaneamente, uma ironia e uma amargura. Eça e os seus companheiros foram "crucificados pelos aborrecidos". Todavia são aqueles e não estes que permanecem. Chapeau, pois, ao nosso grande explicador.

"Depois Carlos, outra vez sério, deu a sua theoria da vida, a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... Não se abandonar a uma esperança - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as naturaes mudanças de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez, deixar esse pedaço de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo até reentrar e se perder no infinito Universo... Sobretudo não ter appetites. E, mais que tudo, não ter contrariedades.
Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera, n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade do todo o esforço. Não valia a pena dar um passo para alcançar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve, como já ensinára o sabio do Ecclesiastes, em desillusão e poeira. - Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos Rothschilds ou a corôa imperial de Carlos V, á minha espera, para serem minhas se eu para lá corresse, eu não apressava o passo... Não! Não sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que é o unico que se deve ter na vida. - Nem eu! acudiu Carlos com uma convicção decisiva. E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de só encontrar ao fim desillusão e poeira, não devessem jámais avançar senão com lentidão e desdem. Já avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes. De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade: - Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas. E agora já era tarde, lembrou Ega. Então Carlos, até ahi esquecido em memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accêsos. A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto! - Oh, diabo!... E eu que disse ao Villaça e aos rapazes para estarem no Braganza pontualmente ás seis! Não apparecer por ahi uma tipoia!... - Espera! exclamou Ega. Lá vem um «americano», ainda o apanhamos. - Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojára o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face: - Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ancia para coisa alguma... Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras: - Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o poder... A lanterna vermelha do «americano», ao longe, no escuro, parára. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço: - Ainda o apanhamos! - Ainda o apanhamos! De novo a lanterna deslisou, e fugiu. Então, para apanhar o «americano», os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."

A PRIMEIRA

João Gonçalves 16 Ago 06


André: tome lá uma excelente "primeira frase".

"Ou deixas de foder outras ou está tudo acabado."

Philip Roth, O Teatro de Sabbath, trad. nas Ed. Dom Quixote

O PODER DA VASELINA

João Gonçalves 16 Ago 06


Uma criancinha de doze anos "furou" o esquema securitário montado em Heathrow. Uma passageira a bordo de um avião para os EUA que levava, entre outras coisas "perigosas", um tubo de vaselina, fez aterrar de emergência o dito aparelho em Boston. Há, como diria Shakespeare, algum método nesta loucura. Afinal, não convém subestimar o poder, quer das criancinhas, quer de um tubo de vaselina.

VÃO VER

João Gonçalves 16 Ago 06

De acordo com um diploma legal recentemente aprovado, as vítimas de abusos sexuais passam a poder reclamar indemnizações ao Estado. É verdade que o Estado - entre outras coisas, é para isso que os cidadãos pagam impostos - deve garantir a segurança dos seus súbditos, incluindo protegê-los dos putativos violadores. Acontece que, tratando-se de um país em que a propensão para aldrabrar é elevada, não hão-de faltar "violadas" e "violados" a gemer pelos cantos à espera que o contribuinte os "repare". Vão ver.

A SEGUIR

João Gonçalves 16 Ago 06

O sr. Annan, com aquele realismo estratosférico que caracteriza a ONU, estima que em "semanas ou meses" possa estar constituída a célebre "força de interposição" que deverá marchar para o Líbano de capacete azul na cabeça. Isto é, o sr. Annan limita-se a reconhecer que, até ver, apenas existe a "força" da resolução adoptada e pouco mais. Nas referidas "semanas ou meses" é bem possível que a nervoseira tome conta dos discípulos do hirsuto Nazrallah - que já explicou, com a mansidão feroz que o caracteriza, que não está exactamente disponível para ser "desarmado" - e do pobre sr. Ormet que, quer ele queira quer não, sofreu com isto tudo uma pesadíssima derrota política, permitindo que a tropa tomasse conta dele. Nada disto é motivo de regozijo. Infelizmente os EUA transformaram Israel na "linha da frente" da defesa do ocidente tal como o conhecemos. E praticamente deixaram-no entregue a si próprio e ao seu privado e inútil desmando. Todavia isso não me impede de reconhecer o óbvio. No dia em que Israel soçobrasse - e não vale a pena estar com paninhos quentes porque Israel perdeu militarmente este combate contra uma guerrilha imprevisível -, nós íamos todos a seguir.

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