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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

OS FAZEDORES DE FOGO

João Gonçalves 1 Ago 06


Tenho um enorme respeito pelas criaturas da noite. Os fadistas vadios, os bêbados, as putas, os sem-abrigo, os chulos, os travestis, os sós em geral são, na sua improbabilidade, as pessoas mais autênticas que conheço. Houve tempos em que apreciava perder-me pela noite, deambulando pelas ruas mais vis e pelos lugares mais sórdidos. Faz bem à cabeça. A quem a tem, naturalmente. Não falo para essa mentalidade pequeno-burguesa e imaculada que se deita e levanta todos os dias da ainda mais imaculada cama onde nada mais do que o trivial sono tem lugar. Gosto da gente das insónias e do desespero. Odeio os simplesmente felizes ou os "simplesmente Maria". Admiro quem bebe e quem toma comprimidos para poder ver o sol durante a noite. Amo as noites únicas e loucas que duram apenas uma hora e que são para sempre. Tudo isto é geralmente entendido pela "magnífica e lamentável família dos nervosos" - a que as criaturas da noite inequivocamente pertencem - que, como escrevia Marcel Proust, constituem "o sal da terra". Estou, pois, tranquilo ao lado dos "fazedores de fogo" de que falava Rimbaud. Conheci um deles e fui seu amigo. Até hoje continuo sem perceber que mão oculta o levou a acabar consigo mesmo. Ao longo de vinte anos, o José Manuel Rosado - a Lydia Barloff - aparecia-me quando menos esperava. Num palco, através de um postal enviado de qualquer lado, num telefonema, num encontro no metro, na televisão ou na última notícia lida no verão de 2002, a do seu suicídio no Algarve. O Zé Manel era, afinal, e como lhe competia, um homem só. A Lydia Barloff enforcou-se há quatro anos. Hoje, um tribunal do Porto, provavelmente sem querer, atirou, de novo, a Gisberta para dentro de um poço. Como se leu na sentença, assim como assim, ela já sofria de uma "doença terminal". Como quem diz: mais tarde ou mais cedo iria morrer. Como todos nós, naturalmente, com a pequena diferença de que ela nem sequer pôde escolher a maneira como morreu. E as, "crianças", Senhor, as "crianças". "Felizmente", como salientava a defesa à saída do tribunal, "estão criadas as condições" para elas terem uma vida mais ou menos tranquila e um "futuro". Isto tudo, afinal, não passou - sic - de "uma brincadeira de mau-gosto", segundo a douta sentença. A Gisberta de certeza que nunca teve uma vida tranquila e muito menos conheceu "um futuro". Se calhar nem sequer teve tempo para ser uma criança a sério, bem diferente destes "meninos" que o "sistema" pensa recuperar em qualquer coisa como um ano e uns meses. Este bando de pequenos criminosos foi envergonhadamente defendido pela pudicícia e pela hipocrisia caseiras. Entre eles e um "híbrido" - meio coisa, meio homem, meio mulher - o "sistema" não hesitou. A Gisberta, tal como a Lydia Barloff, merecem que eu as trate aqui como pessoas que foram. Sem aspas.

Adenda da manhã: Ler o Francisco José Viegas.

Adenda da tarde: Ler o Eduardo Pitta.

A SÁBIA - 2

João Gonçalves 1 Ago 06


O José Pimentel Teixeira - o saudoso Ma-schamba em boa hora regressado à blogosfera-, a propósito deste post, enviou-me um e-mail que reproduzo de seguida, sem comentários.

"Sobre Ana Gomes no Congo, e lendo-o, lembro-me do que pensei vendo-a (melhor dizendo, ouvindo-a) no telejornal no dia das eleições congolesas, relatando no mesmo dia como tinham sido pacíficas as eleições apesar dos acontecimentos com ela ocorridos. Eu já fui observador eleitoral em alguns locais. E até já me calhou acompanhar uma deputada europeia (alemã) por sítios menos próprios, ela recém-chegada e exigindo transportar-se ao Transkei (1994) contra a opinião de todos. Mas do que me lembrei ao ouvir Ana Gomes foi de que em todas estas missões há um pacto de silêncio e há um chefe de missão que fala (ou via porta-voz). Pelo menos enquanto não sai o primeiro "balanço" da missão (que pode ser no dia, mas isso é muito raro e nunca decerto no Congo, ou nos dias subsequentes). Certo que o silêncio é mais para o verdadeiro observador do que para os políticos de passagem travestidos de "observadores". Mas mesmo assim é total desfaçatez a apetência microfónica da senhora. Imagine-se que todas as dezenas ou centenas de observadores começavam a relatar o acontecido no próprio dia (blog, via telemóvel, este, e-mail, e o que aí vem de tecnologias). Ou será ela a chefe de missão? (duvido, se visitou 40 salas de votos num dia...)"

DA LEITURA

João Gonçalves 1 Ago 06


É também pelo Eduardo que fico a conhecer o nome das eminências "literárias" que mereceram a escolha da "comissão para o Plano Nacional de Leitura" - uma falácia apascentada pelos ministérios da Educação e da Cultura - como autores "seleccionados e recomendados para o 6º ano". Se excluirmos Sophia e, com alguma benevolência "pedagógica", Maria Alberta Menéres, Redol, Torrado e as versões "infantis" de Sousa Tavares e de Frederico Lourenço para os "clássicos" (tipo "explicados às criancinhas"), o resto não existe ou nem sequer é digno de ser chamado de "literatura". Até a "presidente" da comissão", a eterna Isabel Alçada, foi "seleccionada", pelos vistos, pela própria e por um bando de costumados "especialistas" (nunca se sabe quem são), de "psicólogos" (por causa dos famosos "traumas" criancistas), de "professores" e de "bibliotecários". Quando entrei no liceu, em 1973, lembro-me de ter lido José Mauro de Vasconcelos e poemas do Alexandre O' Neill. Não fiquei minimamente traumatizado por, em pleno "fascismo", não ter sido tratado como criança semi-parva, mas antes como um pré-adulto. Esta obsessão pela infantilização do processo de leitura e a mediocridade da "seleccção" feita pela comissão da dra. Alçada, evidenciam o estado a que chegou a "cultura" do "homem médio", trinta e tal anos depois de "Abril". O estalinismo escondido por trás de qualquer "plano" deste género, não augura nada de bom para os já péssimos índices de literacia nacional. Para quem manda, quanto menos se pensar melhor. E quanto mais cedo se começar a deixar de pensar, melhor ainda. We are the world, we are the children.

PESO NENHUM

João Gonçalves 1 Ago 06

Palavra de honra que não andamos combinados. Todavia é recomendável, sobretudo para os pró-israelitas mais aflitos, a leitura deste post do Eduardo Pitta. E, para descanso das suas subtis almas "moralmente" superiores, subscrevo-o na íntegra. Como deixou escrito num comentário um leitor," o peso da Europa nisto tudo é não ter peso nenhum."

DAR CARTAS

João Gonçalves 1 Ago 06

Por uns instantes, Portugal deve ter sentido "orgulho" na sua diplomacia. Graças a uma cartinha do dr. Amado, sucessor do funesto Freitas do Amaral no MNE, reúnem-se em Bruxelas os "mne's" da União para discutir a questão do Médio Oriente e a eventual constituição de uma "força de interposição" que possa instalar-se no Líbano. Sucede que, logo após a reunião, o sr. Moratinos (parece que é assim que ele se chama), e que é o homólogo de Amado no governo de Zapatero, vai para a zona a pedido de Israel como bom interlocutor, designadamente com a Síria. Ou seja, nós até podemos escrever as cartas. O problema é que nunca as damos.

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