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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

TORTURADA

João Gonçalves 28 Jul 06

Na verdade, Maria João Pires- que aprecia fazer-se passar por modesta e simplória - tem um talento e uma vaidade equivalentes à irritação que, por vezes, provoca. Ainda me lembro, numa das fases mais assanhadas das gentes da "cultura nacional" contra Santana Lopes na SEC, de a pianista ter ido ao Coliseu ler um "manifesto" contra o dito que lhe valeu os ombros de tudo o que é culturo-dependente neste pobre país. Pires socorre-se do seu génio musical para coisas que nada têm a ver com arte e que têm muito a ver com a gestão da vida dela. Gosta de ser bajulada e tem-no sido. Normalmente é o Estado que vai a Belgais e não contrário. Está, por isso, mal habituada. Acha-se subtil e indispensável a uma pátria que, aparentemente, não só não a compreende, como a "tortura". Aprendeu, pelos vistos, com o "exilado" sr. Saramago. Péssima companhia.

VALE TUDO

João Gonçalves 28 Jul 06



A inspirada dupla Bush/Blair, descredibilizada pela magnífica "democratização" do Iraque, vem agora "apoiar" uma "força internacional" para o Médio Oriente que trate de acompanhar um "cessar-fogo". Duvido que alguma das partes esteja interessada em forças internacionais e, muito menos, num cessar-fogo. Israel precisa de se defender, atacando, e o Hezbollah precisa de atacar para se defender e justificar a sua supremacia política sobre os restantes grupos radicais da zona. Fragilizados e envergonhados - nunca mais se ouviu falar de Miss Rice depois de Roma - os EUA e a Inglaterra já estão por tudo, até pela ONU, na qual, com alguma razão, não confiam. É pena que tenhamos chegado a este ponto, praticamente "desarmados" perante o "outro", graças, sobretudo, à estupidez "ocidental" - que, entre outras coisas, vê em Israel uma espécie de baluarte contra o islão quando, na verdade, àquele apenas lhe interessa salvar a pele - e à impertinência assassina do Hamas e do Hezbollah. Ambos - Israel e o Hezbollah, para já - querem naturalmente acabar um com o outro. Por enquanto, apenas estão a conseguir dar cabo de uma nação, o Líbano. E sobre o Líbano, nem os pró-semitas, nem os pró-terroristas, conseguem proferir uma palavra. Para ambos, o que interessa é atacar e defender, e defender e atacar. Vale tudo. Nem que não sobre um cedro no Líbano.

A MORTE

João Gonçalves 28 Jul 06


Assisti hoje a um funeral. Depois do velório, o féretro encaminhou-se para o Alto de São João, em Lisboa, onde teve lugar a cremação. Tudo feito com o "profissionalismo" de uma multinacional da especialidade, muito em voga, que trata as "agências" por "lojas" e usa cores vivas. A viúva, minha amiga, e eu, chegámos a tomar um chá numa área destinada ao efeito na qual as capelas mortuárias não têm aquele ar agreste e de abandono habituais, mobiladas com peças de segunda mão. Fazem justiça a uma frase que retive das memórias de Gabriel Garcia Marquez, relativa à publicidade a uma agência funerária às portas da sua aldeia natal: "não tenha pressa, nós esperamos por si". Depois do funeral, dirige-me à secretaria do cemitério - com senhas de presença e "multibanco" - para pedir o número da gaveta do columbário onde se encontram as cinzas do meu pai. Ao meu lado, a agente que tinha tratado do funeral que eu acompanhara, tratava da burocracia relativa à "pós-cremação". Ao telemóvel, perguntava a uma colega se podia "levar este" ("este" era o "meu" defunto) mais tarde, uma vez que a dita colega tinha de se deslocar ao cemitério para acompanhar outra cremação. Se alguma dúvida persistisse acerca do que valemos, as visitas intermitentes a cemitérios servem, pelo menos, para acabar com as dúvidas. Somos pó e ao pó voltamos. Todavia, até o pó já constitui um excelente negócio. Não se morre mais como se morria.

LENDO OUTROS

João Gonçalves 28 Jul 06


"De há uns dias para cá tenho pensado muito no Rany. Desde que começou a ofensiva militar no Líbano. Os pais dele (que não conheço mas que, segundo me disse o Rany, rezam por mim com frequência) vivem em Beirute. Assim como toda a família de Rany. Tentei ligar-lhe vezes sucessivas sem sucesso. Até hoje. Falei com ele e percebi que a guerra não é lá longe. Com uma profundíssima tristeza na voz contou que à volta da casa dos pais só existe morte e destruição. As notícias que lhe chegam (ele vive em Amsterdão) são escassas e o meu amigo treme sempre que o telefone toca por achar que vai receber a notícia que teme receber. Os pais do Rany estão em perigo. Assim como toda a família dele. Não há muito a fazer, diz ele. Quando lhe perguntei como estava a família, a resposta foi lacónica: "They are just trying to survive".

In, Da Inquietude

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