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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

À ESPERA

João Gonçalves 6 Jul 06


Era no princípio dos anos oitenta. Dois colegas da Católica, levaram-me até ao Festival de Cinema da Figueira da Foz. Um, nessa altura, tinha umas vagas pretensões literárias - na realidade, entretinha-se a imitar o Hemingway - e o outro, mais modesto, apenas gostava de cinema. Ficámos os três alojados numa miserável residencial, no mesmo quarto e com uma casa de banho infecta. Nesse ano, o filme "sensação" era "Francisca", de Manoel de Oliveira, e o "grande prémio" foi entregue à película francesa "Diva", a surpresa do Festival. Voltei no ano seguinte. Outras companhias, outros quartos. Em dez dias, devo ter visto para lá de sessenta filmes. Calhou, até, apesar da "tenra" idade, "ver" - premonitoriamente - aquilo que viria a ser a minha não-vida daí em diante. Desses tempos singulares, recordo sobretudo o meu atravessar do gigantesco areal da praia da Figueira, manhã cedo, até ao café em frente do Casino, depois de noites e noites inverosímeis. Aí, um dia, encontrei o Eduardo Prado Coelho a engraxar os sapatos e a preparar-se para ir até à gráfica onde a sua tese estava a ser impressa. Arrastava-me, depois, para toda e qualquer sala da cidade onde passasse um filme de um realizador obscuro, para fugir às minhas companhias e de mim próprio. Em pleno processo de afundamento, o saudoso Herlander Peyroteo levou-me a almoçar a Buarcos. Houve ainda tempo para um jantar melancólico, num restaurante indiano (comida detestável), em que acabei sozinho, com a garrafa de vinho, depois de ter conseguido proferir a palavra mágica. Passaram vinte e quatro anos. Os dois colegas da Católica são hoje garbosos advogados da nossa praça. A companhia luminosa e funesta do ano seguinte é economista numa multinacional e tem dois filhos adolescentes. O Prado Coelho anda por aí e o Peyroteo já desapareceu. A Figueira desses dias também. Lembrei-me disto tudo porque li no jornal que tinha morrido o "pai" do Festival, o José Vieira Marques. Os outros moveram-se. Aliás, tudo se moveu para nunca mais. "Nunca escrevi, julgando escrever, nunca amei, julgando amar, nunca fiz mais do que esperar", escreveu algures outra "heroína" do Festival, Marguerite Duras. Apesar dos vinte e quatro anos decorridos, continuo sentado no mesmo banco de pedra da marginal, em frente ao Grande Hotel da Figueira, a olhar para o mar. À espera.

A MÉDIA

João Gonçalves 6 Jul 06

Houve uma greve da função pública. Os sindicatos falam em adesões de 75%. O governo fica-se pelos 11%. Quem é que tira a mé(r)dia?

A ALMA DO NEGÓCIO

João Gonçalves 6 Jul 06

O governo aprovou em conselho de Ministros as novas leis orgânicas de todos os ministérios, com excepção da Defesa. Esta torrente legislativa "explica-se" por causa do PRACE e, alegadamente, por causa da redução de serviços dentro de cada ministério. Vamos ver até onde o governo tem coragem para "mexer". Há dezenas de "organismos" - intermédios, regionais e centrais - que não fazem rigorosamente falta nenhuma. Eventualmente até alguns ministérios poderiam desaparecer e dar lugar a secretarias de Estado acopladas a outro. Investir nos "serviços de linha" - que "atendem", curam, garantem a segurança ou ensinam, por exemplo -, "desinvestir" nas grandiosas direcções-gerais que se ocupam em "roer papel", acabar com centenas de chefias "em cascata", etc., etc., poderiam ser passos importantes num sentido de racionalizar o quase irracional. Todavia, temo que estas "mudanças" - que implicam mais burocracia e mais custos internos - não sejam acompanhadas de mudanças nos "gestores". Com a entrada em vigor das novas leis, "caem" todos, correndo-se o sério risco da maior parte deles ser reconduzida ou substituída por um "garoto" ou uma "garota" empinados. Ora, no "gerir" da coisa, mais do que na sua forma, reside a "alma do negócio". Um "tira dali e pôe aqui", sem mais, apenas para poupança, cosmética e chatear, não resolve, a prazo, coisa alguma.

O "ORGULHO NACIONAL"

João Gonçalves 6 Jul 06


Abro os jornais, ouço na rádio, vejo, por vezes, na televisão que o Presidente da República "isto ou aquilo". É uma patetice, eu sei, mas quando associo "PR" a Cavaco Silva ainda consigo sentir uma pontinha, vaga e muito ténue, do mal afamado "orgulho nacional", desprovido naturalmente das bandeirinhas e dos cachecóis. Nunca me passou pela cabeça que uma selecção de futebol "me" representasse. Quanto a Cavaco, espero que o faça até ao fim.

NO ÉTER

João Gonçalves 6 Jul 06


Filipe Nunes Vicente, do Mar Salgado, pôe o "dedo na ferida" (narcísica, acrescentaria eu): "este povo não aprende que a "auto-estima" ( palavra psico-modernaça que substituiu "orgulho") se ganha no que se faz e não naquilo que se poderia ter feito". Voltaire, numa carta à sua sobrinha, Mme. Denis, contava-lhe que se sentia como aquele homem que sonhara que se tinha atirado do alto de uma torre e que, apanhando-se confortavelmente suspenso no ar, murmurou que aquilo sabia bem, desde que ele se aguentasse. Assim somos nós. O que é preciso é que o etéreo dure.

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