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portugal dos pequeninos

Um blog de João Gonçalves MENU

AO BALCÃO

João Gonçalves 4 Jul 06

Um dr. Marques Mendes, se faz favor.

ROMANOS

João Gonçalves 4 Jul 06


O que é bom, já nasce feito.

SEXUALLY SPEAKING

João Gonçalves 4 Jul 06


1. Continuo com Gore Vidal. Há para aí uns onze anos, li as suas memórias, Palimpsest, e volto amiúde ao United States, a colectânea de quarenta anos de ensaios, a que se seguiu outro livro, porventura não tão interessante, intitulado The Last Empire. Daqui e dali, entre ensaios e entrevistas, surgiu uma outra colectânea - que às vezes aparece na FNAC - chamada Sexually Speaking. Vidal é, na verdadeira acepção da palavra, um romano. Talvez o último. A sua desmesurada paixão, balanceada entre o amor e o ódio, pela história do seu país, jamais o impediu de ser, à sua maneira, um americano europeu. Pertence a uma estirpe rara de homens cosmopolitas e sofisticados que começa desgraçadamente a desaparecer. Não tem questões mal resolvidas com a vida. Por mais que me esprema, não me ocorre nenhum paralelo português contemporâneo. Apenas Eça - other times, other places - andou por perto.
2. Já não sei em que ocasião, Roland Barthes disse que, naquilo que escreve, cada um defende a sua sexualidade. O excesso de "linguados" e de "mamas" no Equador de Miguel Sousa Tavares, a pudicícia na atracção sexual entre um professor universitário e o seu aluno da faculdade de Letras no primeiro "romance" de Frederico Lourenço, Pode um desejo imenso, ou o detalhe de Maria Filomena Mónica, em Bilhete de Identidade, nuazinha debaixo de um casaco comprido, em trânsito de um primeiro andar para um rés-do-chão prometedor em Inglaterra, podem querer dizer muita coisa ou rigorosamente nada. Nestas matérias, aliás, Filomena Mónica, aprecie-se ou não, foi a que mais perto esteve ,"em escrita", da sua "verdade sexual" - se é que isto existe -, expondo-se (numa "exibição", por vezes, desnecessária), da mesma maneira que o fez Vidal no Palimpsest. O pormenor da famosa fellatio perpetrada por Jack Kerouac, na noite em que se conheceram em Nova Iorque, não acrescenta nem tira nada à "masculinidade" de ambas as personagens, apesar de Kerouac ter oscilado a vida inteira entre a cerca e o "pular da cerca". Vidal viveu, salvo erro, cinquenta anos com um homem que morreu o ano passado e com o qual nunca terá tido relações sexuais. E nunca teve dúvidas acerca do que gostava, pese embora ter sido "íntimo" de criaturas como, por exemplo, Anaïs Nin que não era propriamente uma amadora.
3. O texto que se segue - edit meu - fala de nós. É de um psiquiatra que também escreve. Nele se explica por que é que as mulheres convivem bem com a sua feminilidade e os homens, pelo contrário, precisam de exibir permanentemente a sua masculinidade para "provar" e "afirmar" que são homens. Por cá, no entanto, e segundo a já citada Filomena Mónica na Pública de domingo, ainda há cerca de 32% de homens que, no anonimato de um inquérito sobre "costumes", disseram que "preferem" o Figo - "o homem ideal" - ao corpo "sem pelos e magro" do Beckham que recolheu, apesar de tudo, 20 % de opiniões positivas "machas". Nesse mesmo inquérito, fica-se a saber que 15% dos "machos" praticam a depilação "por se terem convencido que os seus pelos eram inestéticos". Curiosamente apenas 16% das mulheres inquiridas torceram o nariz aos pelos dos "machos", o que pode confirmar que as mulheres portuguesas estão bem mais seguras da sua feminilidade do que os "machos" da sua "macheza". Eu sou um liberal nestas coisas. Só não suporto exibições gratuitas e frivolidades. De resto, sexually speaking, vale apenas o que nos faz - se alguma vez isso for possível - felizes.

"A DÍFICIL CONSTRUÇÃO DO HOMEM-MACHO"

Quando pensamos na Humanidade, pensamos no homem e na mulher como os seus dois elementos. Durante milénios, evocámos quase sempre a figura do homem como seu cabal representante. De facto, culturalmente, sobretudo no mundo dito civilizado mas não só, a figura do homem, em comparação com a da mulher, é a “verdadeira” representante da Humanidade. A própria cultura judaico-cristã reforçou muito essa ideia. Realmente, ainda hoje persiste a ideia do homem como o “sexo-forte”. Mas haverá realmente razões científicas para considerar o homem “algo mais” do que a mulher? Naturalmente, como acontece na maioria das espécies sexuadas, os géneros manifestam-se geralmente de forma diferente e assumem diferentes papeis no ecossistema. A “decisão” da natureza em tornar uma espécie “apetrechada” com dois sexos distintos prende-se com a vantagem em haver mistura genética, de forma a eliminar anomalias, pela existência no código genético da descendência, de pares cromossómicos. Uma vez que se salvaguarde a consanguinidade, as “taras” cromossómicas herdadas de um dos progenitores podem ser “compensadas” pelo cromossoma homólogo oriundo do outro progenitor. Nesse ponto a civilização tem-se portado bem e tem dificultado a consanguinidade de acordo com a “intencionalidade” da natureza. Tal dualidade cromossómica não se verifica sempre. O 23º par cromossómico é na espécie humana constituído por XY no caso do macho ( e por XX no caso da fêmea). Sendo o 23º par cromossómico o responsável pela expressão dos caracteres sexuais na humanidade, poderíamos dizer que um homem, só seria tão homem quanto uma mulher é mulher, se, no seu 23º par cromossómico, existissem 2Y (YY). Tal não é o caso. Parece que teremos de admitir que nesse par, o X existe como um “elemento de base”, ao passo que o Y simbolizará a diferença sexual masculina. Mesmo nas suas variantes patológicas, a Natureza parece nunca ter produzido um 23º par só com Y ou Ys. Pelo contrário, existem as Síndromes de Turner e de Klinefelter ( XO; XXX; XXY), mas não existem “variantes” YO , YY ou YYY. Ao que tudo indica, o cromossoma Y “surge” para “desviar” a tendência natural da gónada embrionária e tornar possível a existência de um testículo em vez de um ovário. Só depois desse “desvio” acontecer é que se irá produzir uma hormona responsável pela criação das características masculinas – a Testosterona. Assim, parece que o programa genético básico está muito mais “inclinado” à produção de fêmeas do que à de machos. Parece pois, que a nível genético a “pré-história” do homem é comum à da mulher, sendo a sua diferenciação “mais frágil” e “acidentada”. Também a nível embrionário a “pré-história” do homem é mais complicada. Ele passará os seus primeiros nove meses de existência dentro de uma mulher, não dentro de um homem. Durante esse período, ele “sentirá” com a sua progenitora todas as sensações desta. O homem no útero vive “travestido” de mulher. Enquanto que uma mulher vem de uma mulher, o pequeno macho vive durante toda a vida intra-uterina, e como recém-nascido, “impregnado” de feminino. Existe sempre no Homem uma proto-feminilidade (Stoller). É precisamente por essa proto-feminilidade existir que a identidade do género está, muito provavelmente, nas mulheres mais “alicerçada” que nos homens. Isso, porque a construção de uma mulher começa mais cedo e ocorre de forma mais natural que a construção de um homem. A masculinidade é mais tardia do que a feminilidade e o rapazinho terá de a alcançar com o próprio esforço em se separar, sem problemas, da natureza feminina de quem o gerou e amamentou. Um dia, tal rapazinho conseguirá ver na mãe um “objecto” suficientemente separado de si próprio, de modo a poder representar um “objecto” passível do seu desejo heterossexual. O conceito clássico, segundo o qual a masculinidade resultaria de uma relação precoce heterossexual com a mãe e a feminilidade de uma relação precoce homossexual também com a mãe, parece não corresponder à cronologia dos acontecimentos. Nos primeiros tempos de vida, os dois “objectos” não existem distintamente, sendo antes um todo em perfeita simbiose. Tal simbiose é prolongada muitas vezes por um pai que se mantêm fisicamente afastado do homem-bebé com medo do fantasmagórico “incesto homossexual”. A maioria das vezes, o pai quererá transmitir ao filho, muito mais do que afecto, um companheirismo baseado em afirmações de virilidade, tentando desenvolver nele atitudes de competitividade e de afirmação ora pela vitória, ora pela capacidade de tolerar a derrota escondendo os sentimentos (um homem não chora!). O afecto é frequentemente “entendido” como uma manifestação feminina. Uma tal estruturação impedirá os homens de serem verdadeiramente “íntimos” nas suas relações. Dar-se-ão com outros homens na procura de afirmação viril e numa “luta” onde se diluía o mais possível a sua proto-feminilidade. A masculinidade é um imperativo para o homem, sendo a feminilidade um fenómeno relativamente pacífico e natural para a mulher. As “cicatrizes” da proto-feminilidade levarão o homem-macho a um “eterno” medo de homossexualidade que o tornará de algum modo um ser “mutilado” de afectos. É assim que se torna realmente uma tarefa difícil a construção do homem-macho. Se, por outro lado, algum dia podermos aceitar a nossa própria feminilidade e encararmos com naturalidade a nossa “pré-história” feminina, então, criaremos um macho mais humano e mais maduro porque liberto da luta adolescente que nos persegue até demasiado tarde .

António Sampaio, psiquiatra

4 DE JULHO

João Gonçalves 4 Jul 06


Para além de outros defeitos que os psicólogos-comentadores me apontam, também sou "transatlântico", et pour cause, pró-americano ou apenas europeu sem complexos. Às vezes, até dou por mim a humanamente simpatizar com o W. Bush, apesar da sua confusa presidência.Todavia, prefiro o trágico Kennedy, o optimista Reagan e o lúdico Clinton. Saber como tudo começou, pode ser lido no livrinho de Gore Vidal, Inventing a Nation. Ainda bem que houve um 4 de Julho no mundo.

E SEGUE

João Gonçalves 4 Jul 06

"Manter um blogue não tem qualquer sentido, nem tem qualquer piada, se do outro lado não houver quem o leia." O Paulo "leva" três anos de Bloguítica, com o sentido que ele lhe entendeu dever dar e que eu, pelo menos, aprecio. Sempre por bom caminho, e segue.

ANTIGOS E MODERNOS

João Gonçalves 4 Jul 06


Marcelo é um grande comunicador, o que não quer dizer que tudo o que "comunica" seja bebível como cálices macios de vinho do Porto. Imagino, por isso, que possa ser estimulante como professor, tanto quanto o direito permite algum estímulo. Na sua última divagação directamente da Alemanha - a televisão pública ainda um dia nos terá de esclarecer sobre o custo da demente "operação Mundial" -, Marcelo falou dos exames de português e de matemática daqueles que, presumivelmente, aspiram a encher as nossas universidades. E chamou a atenção para uma coisa importante. A iliteracia profunda das nossas camadas mais jovens, impede que entendam, muitas das vezes, o que se lhes pergunta. A partir daí, dá-se uma espécie de "choque anti-intelecto" em cadeia. Quem não domina a língua, não domina nada. Os poucos que possuem algum discernimento oportunista, usam a memorização selectiva e, a final, não sobra um vestígio de coisa alguma nas suas nefandas cabeças. Por consequência, as universidades, ou os lugares que passam por tal, "vomitam" todos os anos cá para fora milhares de analfabetos funcionais, gente que não sabe de onde vem nem para onde vai, desprovida de um pingo de sofisticação, de cultura e de "história". As meninas, para além de mostrarem o umbigo, pouco mais têm a revelar. "Marronas", conseguem "elevar-se" em relação à maioria dos rapazes cuja capacidade intelectual faria corar de vergonha o mais ignorante dos mancebos da Grécia antiga. No caso de muitas delas, a cabeça serve para ser ornamentada e, no deles, para "pensar" nelas que os "ornamentam" sem pestanejar. Sócrates explicava que não valia a pena viver uma vida que ficasse por examinar, por "perceber". Duvido - para não dizer que tenho a certeza - que esta gente, que não consegue sequer entender o que se lhes pergunta, possa, um dia, vir a constituir a "salvação da pátria". Por mim, prefiro que a pátria me salve deles.

GRANDES FRASES

João Gonçalves 4 Jul 06


Johnny: How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you remember.
Johnny: Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny: Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: All those years I've waited.
Johnny: Tell me you'd died if I hadn't come back.
Vienna: I would have died if you hadn't come back.
Johnny: Tell me you still love me like I love you.
Vienna: I still love you like you love me.
Johnny: Thanks. Thanks a lot.
Nicholas Ray, Johnny Guitar, 1954, com Joan Crawford e Sterling Hayden

Adenda: Graças à f., foi reposta a verdadeira frase proferida por Vienna (a 1ª), depois de um rápido "rewind". Verdadeira ou não, "liars like us".

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